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Internacional

Morreu Martin McGuinness, figura maior do processo de paz na Irlanda do Norte

Uma rara doença cardíaca levou McGuinness a abdicar da liderança do Sinn Féin em janeiro deste ano

Charles McQuillan

O antigo líder do IRA tornado pacificador, que foi vice-primeiro-ministro da Irlanda do Norte entre 2007 e janeiro deste ano, sofria de uma rara doença genética. Morreu esta terça-feira, aos 66 anos, na cidade que o viu crescer

Diz o "The Guardian" que a morte de Martin McGuinness vai gerar reações mistas na Irlanda do Norte e no resto do Reino Unido. Para muitos, o homem que abandonou a liderança do Sinn Féin há menos de três meses, e que durante muito tempo defendeu que a presença britânica na Irlanda só podia acabar através da luta armada, será para sempre lembrado como um pacifista que abdicou da guerra pelo bem comum.

Outros recordá-lo-ão, acima de tudo, como uma das figuras-chave do Exército Republicano Irlandês (IRA), o grupo paramilitar católico de inspiração marxista que durante mais de duas décadas recorreu à luta armada e a atentados bombistas para lutar contra o Reino Unido e pela reanexação da Irlanda do Norte à República da Irlanda. O grupo que liderou foi responsável pela morte de mais de 1500 pessoas até o seu braço político, o Sinn Féin, começar a articular-se com os rivais trabalhistas a partir da década de 1970.

"Ele era um republicano apaixonado que trabalhou incansavelmente pela paz e reconciliação e pela reunificação do seu país", declarou esta manhã Gerry Adams, o seu aliado político mais próximo, ao confirmar a morte de McGuinness. Estava internado há algumas semanas no hospital Altnagelvin, na cidade de Derry, por causa de uma rara doença genética caracterizada pela acumulação anormal de depósitos de uma proteína nos tecidos e nos órgãos – uma que, em janeiro deste ano, o levou a afastar-se da vida política ativa e a abdicar da liderança do partido. "Ao longo da sua vida, Martin demonstrou grande determinação, dignidade e humildade e isso não mudou durante este breve período de doença", explicou o fundador do Sinn Féin. "Em nome de todos os republicanos enviamos as nossas condolências a Bernie, Fiachra, Emmett, Fionnuala e Grainne, aos netos e ao resto da família McGuinness."

Não foi só a doença que o levou a demitir-se do cargo de vice-primeiro-ministro da Irlanda do Norte a 9 de janeiro. McGuinness não aceitou a recusa da primeira-ministra Arlene Foster em abdicar do cargo, ainda que temporariamente, durante o decorrer de uma investigação a um escândalo na empresa pública de energia, e decidiu abandonar ele o governo da república constituinte do Reino Unido. Essa decisão ditou o colapso da coligação no poder e conduziu o país a eleições antecipadas às quais não se candidatou.

Na conferêcia de imprensa em que fez esse anúncio, a 19 de janeiro, naquela que seria a sua última aparição pública, McGuinness surgiu frágil perante rumores de que a sua saúde estava a deteriorar-se rapidamente. Em dezembro já estava demasiado doente para participar numa visita oficial à China com Foster.

Casado com Bernadette Canning desde 1974, com quem teve quatro filhos, McGuinness foi chefe de gabinete do IRA entre 1979 e 1982 e era ele o comandante do movimento paramilitar quando Louis Mountbatten e 18 soldados britânicos foram mortos a 27 de agosto de 1979. A discriminação e a taxa de homicídios no bairro onde cresceu, na mesma cidade onde acabaria por morrer, conduziram à sua radicalização. Em 1972, aos 21 anos, já era o número dois do IRA em Derry quando se deu o Domingo Sangrento, o fatídico 30 de janeiro desse ano, em que o exército inglês abriu fogo sobre manifestantes católicos pacíficos matando 14 pessoas, incluindo seis menores – um episódio sangrento da História da Irlanda do Norte eternizado pela música "Sunday Bloody Sunday" da banda U2.

Foi condenado pelo Tribunal Criminal Especial da República da Irlanda após ter sido detido perto de um carro carregado de explosivos e munições. Começou a cumprir pena de prisão por isso e outra por pertencer ao IRA, mas o seu potencial de liderança levou a que, com apenas 22 anos, fosse transportado com Gerry Adams até Londres para negociações secretas com o governo britânico. Para o MI5, recorda a BBC, McGuinness tinha sério capital político e uma visão estratégica que não devia ser ignorada. Até à sua morte, garantiu sempre que abandonou o grupo paramilitar em 1974 quando trocou a luta armada pela política. Nos anos que se seguiram, a Irlanda do Norte e o resto do Reino Unido ainda assistiram às greves de fome do IRA, ao bombardeamento de Brighton durante a conferência do Partido Conservador ao leme de Margaret Thatcher e ao ataque bombista de Enniskillen que, em 1987, provocou 11 mortos.

A sua transição para a política foi lenta e firmou-se quando, com Gerry Adams, se empenhou em negociar a paz com Tony Blair assim que o líder do Partido Trabalhista inglês venceu as eleições de maio de 1997. Os líderes do Sinn Féin conseguiram que o novo primeiro-ministro britânico aceitasse fazer algumas concessões, entre elas a libertação de prisioneiros do IRA e um controverso esquema sob o qual os militantes mais procurados do grupo receberam "cartas de conforto" em que lhes era garantida imunidade. As negociações acabariam por conduzir a um cessar-fogo que assinou a extinção do IRA através do famoso Acordo de Belfast, também conhecido como Acordo da Sexta-Feira Santa, que foi ratificado em abril de 1998 pelos governos britânico e irlandês com o apoio da maioria dos partidos políticos da Irlanda do Norte — um acordo de paz que seria aprovado pelas populações dos dois países em referendos distintos.

Anos depois, quando já integrava o governo da Irlanda do Norte, McGuinness voltou a proclamar a sua causa pacifista. "A minha guerra acabou. O meu trabalho enquanto líder político é evitar essa guerra e sinto-me muito apaixonado por isso." A sua demissão do governo em janeiro deste ano culminou numa ida às urnas que viu o seu partido ficar a apenas um assento de distância dos Unionistas Democráticos, a força política mais votada. Nos dias que se seguiram ao plebiscito, a doença piorou levando ao seu internamento no hospital Altnagelvin. Quando o seu fígado parou de funcionar, Bernie, a mulher, rezou por ele no Facebook. "As coisas podem parecer negras e sombrias neste momento, mas tenho fé que a minha madrugada vai raiar. Em nome de Jesus, amén."

Foi naquele hospital que Martin McGuinness morreu esta terça-feira, ao lado de Bernie e dos quatro filhos. Tinha 66 anos.