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Diretor do FBI forçado a desmentir tweets do Presidente Trump em tempo real, “graças à tecnologia moderna”

James Comey (à esquerda) e Mike Rogers (dta.) foram chamados a prestar depoimentos na Câmara dos Representantes

MANDEL NGAN

Ao prestar depoimentos ao Congresso norte-americano, James Comey confirmou pela primeira vez que as autoridades federais estão a investigar as ligações de pessoas próximas de Donald Trump ao governo russo. O chefe do FBI também deitou por terra as alegações de que Barack Obama teria ordenado escutas à sede da campanha republicana durante a corrida à Casa Branca. O Presidente recorreu ao Twitter para desviar as atenções: retirou afirmações de Comey e do chefe da NSA de contexto para convencer os seguidores de que a Rússia não influenciou o resultado das eleições; um legislador democrata não o deixou escapar

Já não há ninguém fora do círculo próximo de Donald Trump que sustente as alegações do Presidente norte-americano sobre escutas que teriam sido encomendadas por Barack Obama à sede da sua campanha durante a corrida eleitoral de 2016.

No domingo, Devin Nunes, o republicano que lidera a comissão de Serviços de Informação da Câmara dos Representantes, tinha dito na Fox News que não existem quaisquer indícios de escutas à equipa do candidato do seu partido, nas semanas que antecederam a ida às urnas a 8 de novembro. "Se houve escutas físicas na Torre Trump? Não, nunca houve." Um dia depois, na sua antecipada audiência no Congresso, o diretor do FBI deu a mesma garantia aos legisladores norte-americanos quando foi questionado sobre a veracidade das acusações feitas por Trump na semana passada.

"No que toca aos tweets do Presidente sobre alegadas escutas à sua pessoa pela anterior administração, não tenho qualquer informação que sustente esses tweets e já investiguei a fundo essa questão dentro do FBI", declarou James Comey. "O Departamento de Justiça pediu-me que partilhasse convosco que a minha resposta é a mesma da do Departamento de Justiça e de todos os seus ramos. O Departamento não tem qualquer informação que sustente esses tweets."

Na véspera, o parceiro democrata de Nunes à frente da comissão permanente do Congresso já tinha expressado o empenho do partido da oposição em enterrar o assunto descabido, um que levou Kellyanne Conway, conselheira do Presidente, a declarar na televisão americana que Obama podia ter monitorizado Trump através dos microondas na Torre Trump e que quase fez estalar um conflito diplomático com o Reino Unido, depois de a Casa Branca de Trump ter sugerido que o antecessor o tinha espiado através de uma das agências secretas britânicas, a GCHQ. "Espero que possamos acabar com esta caça a patos-bravos", disse Adam Schiff, recorrendo à expressão idiomática usada para referir teorias infundadas. "O que o Presidente disse é simplesmente falso."

Assim confirmou esta segunda-feira Comey durante a audiência com os legisladores da Câmara dos Representantes, uma que concentrou mais atenções na alegada ingerência russa nas presidenciais norte-americanas do que nas escutas que nunca aconteceram mas que, ainda assim, dominaram a agenda mediática na última semana. Trump estava a acompanhar o evento em direto – um que também contou com depoimentos do atual diretor da Agência de Segurança Nacional (NSA), Mike Rogers – e, confrontado com a humilhação de se ver desmentido pelo chefe da agência federal, recorreu ao Twitter para disseminar mais informações falsas. "A NSA e o FBI dizem ao Congresso que a Rússia não influenciou o processo eleitoral", escreveu o Presidente na sua rede social de eleição.

O tweet foi acompanhado de um excerto da audiência em que Devin Nunes questionou Rogers sobre se há provas de que a ingerência dos hackers russos tenha alterado o resultado da votação nos Estados-chave que permitiram a vitória de Donald Trump, apesar deste ter tido menos três milhões de votos populares que a rival democrata.

O almirante na reforma respondeu que "nada recolhido pela NSA" sugere que tenha havido ciberataques diretos às máquinas de contagem de votos e foi a isso que Trump se agarrou, retirando a resposta de contexto para dar a entender que não há qualquer suspeita concreta de interferência russa no processo eleitoral.

Seria Jim Himes, democrata que representa o Connecticut na câmara baixa do Congresso, a exigir a Comey e a Rogers que esclarecessem os seguidores do Presidente Trump. "Há pouco perguntei-vos se a comunidade de espionagem levou a cabo algum inquérito para determinar se a Rússia influenciou de alguma forma o processo eleitoral e penso que a vossa resposta foi não."

"Correto", respondeu Comey, antes de Himes continuar: "Graças à tecnologia moderna, tenho aqui um tweet do Presidente publicado há uma hora a dizer que 'a NSA e o FBI dizem ao Congresso que a Rússia não influenciou o processo eleitoral', o que não é muito preciso."

O chefe da NSA respondeu de imediato: "Não estive a seguir ninguém no Twitter desde que me sentei aqui." Himes não desistiu: "Eu leio-lhe o tweet outra vez, um tweet que chegou a milhões de americanos, a 16,1 milhões para ser mais preciso. Este tweet que vos estou a ler é preciso?"

Comey tomou as rédeas: "É difícil para mim reagir a isso, deixe-me dizer-lhe o que nós dissemos. Não opinámos nem temos ideia de qualquer informação com potencial impacto [nas eleições], porque ainda não investigámos isso."

Himes aproveitou a resposta para contra-atacar: "Então não é um salto lógico muito grande dizer que [o tweet] não está certo quando se afirma que o que disseram ao Congresso é que não houve qualquer influência no processo eleitoral?" Comey acabou por desmentir o Presidente: "Certamente não era nossa intenção dizer isso aqui hoje, porque não temos informações sobre o assunto. Ainda não investigámos isso."

Apesar de ambos terem tentado afastar-se das declarações do Presidente sem lhe pisar os calos, tanto Rogers como Comey acabaram por ser forçados a desmentir várias alegações de Trump, desde a questão das escutas de Obama ao tweet sobre garantias de não-ingerência russa, passando por um outro tweet publicado em tempo real pelo Presidente, com um excerto da audiência de Rogers acompanhado de uma legenda sobre elementos das secretas que teriam sido "desmascarados" por porem em causa a segurança nacional dos EUA.

"O que eu percebi enquanto membro desta comissão", declarou Himes depois de ler esse tweet, "é que está em marcha um processo lento e muito específico para desmascarar [esses indivíduos] mas que isso, por si só, não constitui um risco para a segurança nacional." O chefe da NSA voltou a tentar escapar: "Assumo que o comentário [do Presidente Trump] se refere à divulgação de informações [à imprensa], mas, novamente, não li o que me está a dizer, portanto não estou em posição de comentar."

Foi esta sucessão de tweets e desmentidos que marcou a sessão pública, uma na qual James Comey confirmou pela primeira vez que as autoridades federais estão a investigar potenciais ligações de elementos da campanha de Trump ao governo russo. A suspeita tem ensombrado a administração desde o primeiro dia, tendo já levado à demissão de Michael Flynn – o homem que, contra todos os conselhos e avisos dos republicanos, Trump nomeou para chefiar o Conselho de Segurança Nacional e que por causa de contactos ilegais com o embaixador russo em Washington foi forçado a demitir-se ao 25.º dia da nova administração.

Neste momento, já foram noticiadas ligações e contactos de pelo menos seis pessoas próximas de Trump ao embaixador Sergei Kislyak, incluindo o chefe do Departamento de Segurança Nacional, Jeff Sessions, que por causa disso já se retirou de qualquer investigação corrente ou futura do FBI à alegada ingerência russa nas eleições.

Há alguns dias, foi avançado que o canal de televisão Russia Today, ligado ao governo russo, pagou 34 mil dólares a Michael Flynn para o general na reforma discursar no 10.º aniversário do canal em Moscovo, uma festa que contou com a presença do Presidente Vladimir Putin. Já se sabia que Flynn tinha participado nesse encontro na capital russa em 2015 mas documentos obtidos pela comissão do Congresso que está a investigar a ingerência russa nas eleições mostram que recebeu dinheiro por isso quando tinha acesso a informações confidenciais das agências de espionagem norte-americanas.

Também na semana passada, o "Wall Street Journal" noticiou que o ex-conselheiro de segurança nacional, que antes disso tinha sido conselheiro de campanha de Trump, recebeu 11.250 dólares (10.460 euros) de uma transportadora russa e o mesmo valor de uma empresa de cibersegurança do mesmo país. Recorde-se que o afastamento de Flynn aconteceu depois de ter sido revelado que, em dezembro, manteve contactos telefónicos com Kislyak para discutir o fim das sanções impostas pela administração Obama a empresas e personalidades ligadas ao governo Putin. Para já, e como apontava a revista "New Yorker" no início de março, “as conversas entre representantes de Trump e Sergei Kislyak foram ocultadas, mas até ver só temos uma tentativa de encobrimento sem um crime”. Falta apurar se a equipa de Trump de facto trabalhou com as autoridades russas para influenciar os resultados das eleições.