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A nova cara da América

ilustração JOÃO MAIO PINTO

O ‘rei’ Steve Bannon, Kellyanne Conway e Milo Yiannopoulos são os jokers mais influentes do novo Presidente norte-americano, Donald Trump. Representantes da “direita alternativa”, guiados por uma ideologia duvidosa, eles controlam o rumo dos Estados Unidos

Diz-se que há imagens que valem mais que mil palavras e, por entre o caos da Administração Trump, retóricas questionáveis e declarações confusas, uma imagem em particular ganhou destaque no último mês. Nela, Kellyanne Conway aparece num sofá da Sala Oval, sentada sobre os pés calçados a mexer no telemóvel, com Trump em segundo plano rodeado de homens e mulheres afro-americanos, diretores de universidades originalmente fundadas para que os negros pudessem aceder ao ensino superior num país sem igualdade racial.

As críticas não tardaram; foi acusada de desrespeitar a Casa Branca, de se comportar como uma adolescente, de violar o tecido brocado do sofá amarelo. Algumas feministas saíram em defesa daquela que foi a primeira mulher a algum dia gerir uma campanha presidencial republicana. Se fosse um homem não seria julgado, acusaram; quantos Presidentes não foram já fotografados com os pés em cima da secretária sem serem criticados por isso? Foram poucos os que olharam para lá da imagem; se os convidados de Trump naquele dia fossem CEO brancos, Conway tê-los-ia recebido assim?

Poderosa. Kellyanne Conway é a única do círculo de Trump com experiência política. Desempenha o papel de “ministra da Propaganda” e tem a seu cargo defender o Governo com “factos alternativos”

Poderosa. Kellyanne Conway é a única do círculo de Trump com experiência política. Desempenha o papel de “ministra da Propaganda” e tem a seu cargo defender o Governo com “factos alternativos”

FOTO Jonathan Ernst/REUTERS

Quando essa imagem se tornou viral, não tinha passado muito tempo desde um outro episódio protagonizado pela conselheira de Donald Trump no Twitter. No dia dos namorados, publicou um tweet, que apagou pouco depois, com uma mensagem de amor para um grupo de ódio. “Também vos amo <3 Feliz dia de São Valentim para os Hapeless Haters.” Foi acusada de fazer a corte ao grupo de extrema-direita, um de vários que têm merecido retweets da Administração desde a tomada de posse. Kellyanne garante que não foi ela a autora da publicação. Até ver não apresentou factos, reais ou “alternativos”, que indiquem o contrário.

Conway está habituada às críticas e parece ser imune a elas. Desde que assumiu a gestão da campanha Trump em agosto, tem angariado atenções como poucos outros no círculo mais estreito do Presidente. Desempenha um papel turvo no governo e para Carl Bernstein, jornalista veterano que denunciou o escândalo Watergate, está para Trump como Joseph Goebbels estava para Hitler.

Foi como boa ministra da Propaganda que, ao final da primeira semana do governo, cunhou a expressão “factos alternativos”, quando os jornalistas confrontaram Trump com o facto de Obama ter atraído mais gente à sua tomada de posse do que ele. Essa guerra foi comprada pelo próprio Presidente, que vários psicólogos dizem ser um narcisista infantil, até hoje a gabar-se de ser o líder mais popular, o que mais votos angariou no colégio eleitoral e que mais pessoas atraiu à capital — argumentos comprovadamente falsos, “factos alternativos” para Kellyanne.

A Universidade Carnegie Mellon não foi a primeira a dizê-lo, mas foi a primeira a tentar medi-lo: Trump fala como uma criança. Num estudo publicado antes de o populista derrotar os candidatos “do sistema” nas primárias republicanas, os especialistas em linguística assumiram que a oralidade não é tão fácil de medir como a escrita e concentraram-se no vocabulário e nas estruturas gramaticais usadas pelos candidatos à presidência, comparando-os à oralidade de crianças em idade escolar e a discursos famosos de cinco presidentes, de Abraham Lincoln a Barack Obama. Trump só ficou à frente de George W. Bush, ao nível de uma criança entre o quinto e o sexto ano.

Nunca foi segredo que Bush e Trump não são intelectuais, o que poderá explicar o facto de as pessoas de quem escolhem rodear-se angariarem mais atenção mediática do que as equipas de outros Presidentes americanos. Mais de dez anos depois quase ninguém esquece os “arquitetos da guerra do Iraque”, Donald Rumsfeld e Dick Cheney, o vice de Bush tido como o “verdadeiro Presidente”, nem o estratego Karl Rove, o “cérebro de Bush” — da mesma forma que hoje já se ouviu falar da “ministra da Propaganda” Kellyanne Conway, do “arquiteto do decreto anti-imigração” Stephen Miller ou do “verdadeiro Presidente” Steve Bannon, “o cérebro de Trump”. Há, contudo, uma grande diferença a separar os primeiros dos segundos. Rumsfeld, Cheney e Rove tinham experiência política e uma agenda alinhada com a dos conservadores, por questionável que fosse. Os homens do novo Presidente são conselheiros sem experiência política, à exceção de Conway, e a sua agenda segue outra ideologia. Uma que começa no vocabulário.

Pessoas como Bannon e Miller, ligados à chamada “direita alternativa”, têm um dicionário próprio, revelado em inúmeros sites da extrema-direita, que, graças a Trump, saltou dos cantos escuros da internet para os mais altos escalões do Governo. “Direita alternativa”, como se autointitula, não é o seu único eufemismo. Para defenderem ideais racistas e debaterem como a ciência comprova a superioridade biológica dos brancos (não comprova), os membros da alt-right falam de “biodiversidade humana”. Para gozarem com as mulheres que defendem ideais feministas e progressistas usam a sigla SJW, “guerreiras da justiça social”. Os homens que as apoiam são “beta”, espécimes fracos e emasculados do sexo masculino, o oposto dos “alfa”, eles, os “masculinistas” que se orgulham de celebrar a “natureza heroica” do homem. Os republicanos “vendidos” que não apoiam a sua causa são “cornos”, os democratas que criticam Trump são ‘libtards’ (liberais retardados), os opositores são “queixinhas” e “flocos de neve” que se derretem pela igualdade e pela justiça.

Alt Right. nunca chegou a integrar o Governo, mas até desaparecer de cena foi uma das principais caras da “direita alternativa”... que têm em Steve Bannon, o “Rasputin de Trump”, o seu farol

Alt Right. nunca chegou a integrar o Governo, mas até desaparecer de cena foi uma das principais caras da “direita alternativa”... que têm em Steve Bannon, o “Rasputin de Trump”, o seu farol

lucas jackson/reuters

... que têm em Steve Bannon, o “Rasputin de Trump”, o seu farol

... que têm em Steve Bannon, o “Rasputin de Trump”, o seu farol

Jonathan Ernst/ REUTERS

A barricada anti-Trump tem tentado subverter esta linguagem, a começar pelos media, que o Presidente declarou “inimigos do povo americano” antes de impedir vários, da CNN à BBC, de participarem numa conferência de imprensa. Não é raro ver jornais e ouvir canais de televisão a classificarem Trump como “queixinhas”. E não há muito tempo um utilizador do Reddit disseminou a piada de que “os republicanos é que são os verdadeiros flocos de neve porque são brancos, frios e se forem muitos juntos conseguem encerrar escolas públicas”.

Nada disso parece fazer mossa na extrema-direita, que a julgar por um encontro no Maryland no final de fevereiro já conquistou a direita conservadora. A temática flocos de neve foi uma das notas fortes da Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC), em livros de colorir espalhados como brindes pelos corredores do centro de congressos de National Harbor. “É terapêutico!”, prometiam as capas dos livretes, pousados ao lado de bancas de merchandise do Breitbart News, o site mais popular da dita alt-right.

Este ano, um dos oradores mais cobiçados do encontro anual era Milo Yiannopoulos, filho de pai grego e mãe britânica, que cresceu no sul de Inglaterra e que, em 2016, aos 31 anos, se tornou editor de tecnologia do Breitbart. Milo queria ser crítico de teatro mas foi atraído pelo mundo do jornalismo tecnológico, que o levou a assinar peças como “A solução para o assédio online é simples: as mulheres devem sair da internet.” Passou anos a cultivar uma encenação teatral preconceituosa em que faz de contradição de si mesmo, um gay assumido que defende que os homossexuais devem voltar para o armário e que as mulheres se devem resignar a ser mães e donas de casa.

Dias antes da CPAC, foi convidado de honra no “Real Time with Bill Maher” para uma conversa com pretensões humorísticas que afastou muitos fãs do programa, seguida de um debate com outros comediantes que culminou com Larry Wilmore a mandar o colunista à merda. Antes de atiçar os convidados, de brincos brilhantes e colares de pérolas a enfeitar o pescoço, Milo acusou as pessoas transgénero de serem agressoras em potência que sofrem de problemas psiquiátricos. “Não vou pedir desculpa por proteger mulheres e meninas de homens que estão confusos quanto à sua identidade sexual, elas não deviam ter de lidar com homens sexualmente confusos nas casas de banho.”

Foi uma saída em defesa do “papá” Trump, como Milo se refere ao Presidente, dias depois de o Governo ter eliminado uma política federal aprovada por Obama que permitia aos alunos transgénero escolherem em que WC se sentem mais protegidos de potencial assédio e violência. Trump não saiu em sua defesa quando, no dia seguinte, uma canadiana de 16 anos desenterrou do baú cibernético um vídeo de Milo a dizer que a pedofilia só é pedofilia quando envolve crianças com menos de 13 anos e que “esta ideia arbitrária e opressiva de consentimento” condena relações sexuais de adultos com menores que, de outra forma, poderiam ser “experiências altamente positivas”.

Expulso do Twitter meses antes por liderar uma campanha racista contra a atriz Leslie Jones, Milo já tinha defendido sem filtros que os pais normais preferem ter filhos com cancro a ter filhos feministas, que a melhor resposta a acusações de antissemitismo é publicar suásticas nas páginas dos críticos, que as mulheres não devem poder usar métodos contracetivos não só porque ficam “estúpidas e feias” mas também porque o país “precisa que os miúdos procriem o suficiente para fazer frente aos muçulmanos”.

Tentar desculpar a pedofilia foi o limite para a direita conservadora. Em poucos dias perdeu um contrato com a editora Simon & Schuster para lançar a autobiografia “Perigoso”, o convite para discursar na Conferência de Ação Política Conservadora em frente aos mentores e ao “papá Trump” e até o emprego no Breitbart. Até hoje não mais se ouviu falar dele. Assim saiu de cena “a cara bonita e monstruosa da alt-right”, como a Bloomberg o descreveu num longo perfil antes das eleições, andava Milo em digressão por universidades a “mostrar aos estudantes que o discurso de ódio é fixe” (disse-o a CNN numa reportagem em que expunha as suas contradições virulentas).

Yiannopoulos foi um sintoma fulminante; é só um de vários rebentos de um movimento extremista que tem em Steve Bannon o seu farol. “Sou um judeu gay e ele fez de mim uma estrela”, disse na televisão britânica poucos dias depois de Bannon ter sido nomeado estratego da Casa Branca. Nem duas semanas separaram esse momento do dia em que Trump recompensou o homem que abdicou de ser CEO do Breitbart para dirigir a campanha republicana, trazendo consigo Kellyanne, ex-miss New Jersey que até então era assessora de Ted Cruz.

São várias as fontes que garantem que o Presidente não sabia o que estava a assinar quando deu a Bannon um assento no Conselho de Segurança Nacional (CSN). Verdade ou não, o que transpirou dessa informação foi a imagem de um Presidente narcisista que só quer saber dos seus negócios e que delega nas coqueluches da alt-right o grosso das lides presidenciais. Desde que tomou posse, foram dezenas as fontes internas a revelarem que passa o tempo colado à Fox News e ao Twitter, que é manipulado pelos que lhe são mais próximos, que já passou mais tempo a jogar golfe do que em reuniões de segurança nacional e que não gosta de ler (assim que aterrou na Casa Branca, os funcionários federais receberam instruções para simplificarem os documentos que chegam à Sala Oval).

Bannon é comparado a Rasputin, um místico radical que sussurra na orelha do czar Trump e que continua a dar ordens na Casa Branca. Quando entrou no CSN, criou um “instituto político” que está a competir com as pessoas experientes nomeadas pelas sucessivas administrações para orientarem o Presidente em matéria de política externa. Até há pouco tempo era Michael Flynn quem dirigia o conselho, um general na reforma envolto em controvérsias que, ao 25º dia, se demitiu por causa de contactos ilegais com o embaixador russo em Washington. O homem que aceitou substituí-lo, H. R. McMaster, está em modo de controlo de danos e arrisca-se a comprar uma guerra com os homens do Presidente.

Assim que assumiu o cargo, McMaster ordenou a todos os membros do CSN que evitem usar a expressão “terrorismo radical islâmico”, um conselho que o Presidente ignorou quando foi discursar ao Congresso. Trump continua investido em travar a “ameaça islâmica”, confundindo a insurgência de grupos radicais com os milhares de milhões de muçulmanos que vivem espalhados pelo mundo. O decreto anti-imigração promulgado ao final de uma semana no poder foi suspenso por um tribunal federal por discriminar cidadãos de países que nem sequer são berço das ideologias extremistas que orientam grupos como o Daesh e a Al-Qaeda. Trump e os seus garantem que só querem combater o terrorismo e no rescaldo do chumbo judicial pediram uma análise independente ao decreto. A conclusão foi a mesma e, por isso, foi rejeitada pelo Presidente.

Bannon é o epítome desta cruzada anti-islão. Em 2007 escreveu um guião nunca adaptado ao cinema, “Destruir o Grande Satã”, sobre o “choque civilizacional basilar” entre o Ocidente judaico-cristão e a religião islâmica, onde defende que “o caminho até à criação de uma república islâmica nos EUA começa devagar e de forma subtil com a perda de vontade em ganhar” e que “a estrada para este inferno único na Terra está pavimentada por uma estratégia política de acomodação e conciliação [que] não é mero resultado das ações de um qualquer indivíduo mas das mentiras que dominam o coração das mais importantes instituições políticas e culturais do país.”

Escritos como este parecem ser o mapa da Administração, um roteiro que a “cara feia” da alt-right (por oposição à “cara bonita” de Milo) tem vindo a preparar há vários anos, desde que um golpe de sorte lhe garantiu uma carteira recheada até hoje. No negócio de venda da produtora Castle Rock Entertainment em 1989, Bannon aceitou ficar-se por participações em cinco séries acabadas de estrear, entre elas uma que estava prestes a revolucionar a forma de fazer comédia na televisão, sobre quatro nova-iorquinos liberais com queda para o escárnio e o cinismo social. Até hoje, Bannon continua a acumular fortuna graças aos direitos autorais de “Seinfeld”.

O ex-diretor do Breitbart já foi tantas coisas que pedimos emprestada uma famosa expressão a Elaine, a mulher SJW entre os homens da série, para resumir o seu currículo: foi oficial da Marinha, banqueiro de investimento, negociador em Hollywood, “yada yada” até chegar à Casa Branca. Vem, nas suas palavras, “de uma família de operadores fabris, irlandeses democratas católicos, pró-Kennedy e pró-sindicatos”. Em registos judiciais a ex-mulher acusa-o de ser um antissemita agressivo e abusivo; ele desmente. Diz que começou a interessar-se por política quando entrou na Marinha e viu “como Jimmy Carter lixou tudo”. Foi aí que procurou em Ronald Reagan um salvador. “Ainda sou um grande admirador de Reagan. O que me virou contra o sistema instituído foi regressar da Ásia em 2008 e ver que Bush lixou tudo tanto quanto Carter. O país estava um desastre.”

Essa ideia de desastre que Trump vendeu na tomada de posse é a premissa de Bannon e de Stephen Miller, o conselheiro de 31 anos que assina os discursos do Presidente e que preparou o decreto anti-imigração. “A ordem que engendrou”, escrevia a “The Atlantic” há um mês, “confirma o quão influente se tornou nos primeiros dias da administração”. Mas para Andrew Sullivan, da “New York Magazine”, Miller é ainda assim o elo mais fraco. “Sinto que o conheço porque costumava ser como ele. É um puto de centro-direita com uma certa ousadia cujo conservadorismo foi radicalizado pelos esquerdistas no ensino. Não estou a culpar os liberais pelo fanatismo sombrio de Miller. Estou a constatar que os estudantes de centro-direita são muitas vezes gozados, reprovados e isolados nas escolas e que, infelizmente, a sua reação passa muitas vezes por reforçar o apoio ao que quer que os progressistas odeiem […] até restar apenas o ódio”.

Acima de outras estratégias, foi o decreto preparado por Miller que deixou a descoberto a divisão da Casa Branca entre os políticos experientes e a casta de conselheiros que sussurram ao ouvido de Trump. Bannon ouviu o chamamento em 2008 quando ficou desencantado com o “corno” Bush. Miller está investido na luta antissistema desde tenra idade, quando andava no liceu e leu “Guns, Crime and Freedom”, um livro de Wayne LaPierre, ex-presidente da maior organização pró-armas do país, a NRA. A visão de uma América ameaçada pelo multiculturalismo, na forma de artigos de jornal racistas, xenófobos, homofóbicos e antissemitas, seria cimentada já na Universidade Duke, onde ganhou a alcunha de “Máquina da Ira”. “Ele tem uma reputação bem merecida enquanto defensor agressivo das suas visões”, revelou um amigo e ex-colega à “Politico”. “Era extremamente eficiente nisso. Pode dizer-se que ele era a campanha Trump dez anos antes da campanha Trump surgir.”

Miller não protagonizou qualquer episódio na CPAC, onde o namoro dos conservadores com a alt-right entrou em terreno lodoso. Richard Spencer, pelo contrário, voltou a saltar para a ribalta. Quando aterrou no Congresso, foi cercado por jornalistas ansiosos por ouvirem o líder do movimento, esmurrado semanas antes durante uma entrevista de rua a ser transmitida em direto. “Sinto-me muito bem acolhido aqui, ninguém me está a dar socos”, declarou à chegada. Horas antes, enviara uma mensagem ao correspondente da “Rolling Stone” para lhe dizer que ia até lá “não para perturbar” mas para questionar porque é que o programa incluía palestras anti-alt-right. Acabaria por ser expulso após improvisar uma conferência de imprensa no corredor, depois de um dos organizadores ter descrito o movimento como “uma organização sinistra que está a tentar infiltrar-se nos filões” conservadores. “São antissemitas e racistas", acusou Dan Schneider,um dos organizadores da CPAC. “Não são uma extensão do conservadorismo, não passam de uma variação dos fascistas de esquerda.”

Spencer é uma ovelha negra. Os conselheiros de Trump têm tentado afastar-se dele, mas não há factos alternativos que lhes valham, menos ainda numa altura em que os crimes de ódio estão em crescendo no país enquanto o Governo retira organizações de extrema-direita das listas de ameaças de terrorismo doméstico. Estudou na Duke com Miller, organizou um encontro em que os presentes fizeram a saudação nazi a Trump, foi descrito como “um intelectual proeminente” pelo Breitbart quando era Bannon quem mandava no site. Como Milo Yiannopoulos, foi ostracizado pelos conservadores. Mas nenhum deles esteve perto de integrar o Governo onde Bannon, Miller e Conway continuam a dar cartas sob os holofotes enquanto outros avançam com o trabalho na penumbra.

É o caso de Sebastian Gorka, convidado para o Governo para orientar o “combate ao terrorismo”. Na Conferência de Ação Política Consrvadora só mereceu aplausos quando apresentou os planos de Trump para “destruir a marca Jihad”. A ele seguiu-se Bannon com a promessa de “desconstruir o sistema administrativo” que alicerça a democracia americana, antes de o Presidente fazer um discurso que a “New Republic” classificou como um piscar de olho à “direita alternativa global”. Esse namoro continuou logo a seguir, quando o Presidente sugeriu que o crescente antissemitismo, com dezenas de ameaças a centros comunitários e centenas de campas vandalizadas em cemitérios judaicos, é fruto de operações orquestradas pelos próprios judeus. Como uma criança, papagueou uma das teorias da conspiração favoritas da alt-right, associada a Bannon, ao seu protegido Miller e ao site onde há uma semana foi beber informações falsas sobre alegadas escutas ordenadas por Obama à Torre Trump durante a corrida eleitoral. Se o Presidente os mantiver ao seu lado, avisou a direção do “Wall Street Journal” dias depois, vai continuar a perder apoios até perder o poder.

Não há registos de Gorka algum dia ter disseminado conspirações deste calibre e contra artigos inflamados em que é acusado de islamofobia, outros têm surgido a alertar contra a demonização de um conselheiro que, dizem a “National Review” e a “Forbes”, é mais capaz e orientado que os outros. Na CPAC, o académico de 46 anos garantiu que Trump “não quer invadir outros países” porque a guerra agora é outra. “As ideias podem ser derrotadas, sobretudo as más. Queremos ajudar os que querem ser nossos amigos a fazerem as suas próprias guerras.”

Filho de refugiados húngaros, Gorka admira Reagan e também se lançou no Breitbart. Com “Defeating Jihad: The Winnable War”, que chegou às bancas em abril, atraiu uma pequena legião de fãs com a sua visão da guerra que o mundo enfrenta, Islão vs. Ocidente. Mais fama viria a 20 de janeiro: no dia em que Trump se mudou para a Casa Branca, Gorka surgiu na Fox News a anunciar o arranque de uma nova era. “A mensagem que trago é muito simples, cabe num autocolante daqueles que se colam nos vidros dos carros: os machos alfa estão de volta.”