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Lana, Anis, Xandra e Joana: o país mais complicado do momento

JOHN THYS

Lana Jegen tem 26 anos e vive em Amesterdão, onde está a concluir o mestrado em Psicologia Clínica. Votou na Esquerda Verde por duas razões: por “ser o único partido de esquerda com hipóteses de chegar ao Governo” e porque gosta do seu líder, o carismático Jesse Klaver. Anis Raiss tem 30 anos e é filho de pais marroquinos. Não votou, mas se o tivesse feito teria optado pelo Denk (“Pensar”). Xandra Lamers tem 60 anos e vive em Amesterdão, onde é diretora, com o marido, de uma empresa de tradução. Votou Geert Wilders porque desiludiu-se com o Partido Trabalhista e porque vive num bairro onde diz ter sido “ameaçada e atacada verbalmente” por marroquinos. Joana Rita tem 30 anos, é portuguesa e vive com o marido em Eindhoven desde julho do ano passado: diz que “existe alguma islamofobia”, embora “as comunidades islâmicas sejam bastante tranquilas na cidade onde vive”, e conta um episódio desagradável que umas amigas lhe relataram ocorrido no metro de Roterdão

Helena Bento

Jornalista

Embora os resultados tenham sido conhecidos na quinta-feira de madrugada, a história das eleições legislativas na Holanda está longe de estar completa. As próximas semanas, talvez meses, vão ser decisivas para o futuro político do país: o primeiro-ministro holandês, Mark Rutte, que venceu as eleições com 33 lugares no parlamento terá de se sentar à mesa com os líderes de outros partidos para conseguir os 76 deputados necessários para governar (o mínimo necessário para ter a maioria parlamentar).

Não se espera que seja um processo fácil; haverá avanços e recuos, dúvidas e fricções; uns serão excluídos, outros incluídos. É difícil prever o que vai acontecer. Mas no meio de todas incertezas que formam esta história que está longe de estar completa há um acontecimento incontornável e que será difícil de contar de outra forma que não esta: a história da ascensão do partido Esquerda Verde (GL), liderado pelo carismático Jesse Klaver, que quase quadruplicou o número de deputados no parlamento. De 4 passou para 14. Ficou em quarto lugar, tal como os socialistas radicais (SP).

“Queria ter votado nos socialistas radicais, mas achei que devia ser realista”

Foi neste partido que Lana Jegen, holandesa de 26 anos, votou. Em conversa com o Expresso, explica porquê: “Por um lado, votei de forma estratégica, porque quero que um partido de esquerda também esteja presente no Governo, e como este era o que tinha maiores hipóteses, decidi dar-lhe o meu voto. Por outro lado, aprecio o facto de o seu representante [Jesse Klaver] ser jovem e concordo com aquilo que ele defende, sobretudo no que diz respeito à aposta no sistema de saúde”.

Lana Jegen, holandesa, 26 anos. Vive em Amesterdão há dois anos e meio, onde está a concluir o mestrado em Psicologia Clínica

Lana Jegen, holandesa, 26 anos. Vive em Amesterdão há dois anos e meio, onde está a concluir o mestrado em Psicologia Clínica

Lana, que vive em Amesterdão há dois anos e meio, onde está a terminar o mestrado em Psicologia Clínica, diz que a maioria das pessoas que conhece, entre amigos e conhecidos (poucos são holandeses), votou “um bocado mais à direita” do que ela, nomeadamente no partido liberal-conservador do primeiro-ministro, Mark Rutte (VVD), mas apenas para tentar evitar a vitória do candidato da extrema-direita populista, Geert Wilders. Lana tem, aliás, a impressão “de que mais holandeses fizeram isso”. Ela própria ponderou fazê-lo, mas depois decidiu que não o faria. “Isso iria contra os meus princípios, porque eu sou mais de esquerda.”

Embora Lana tenha votado nos verdes e estivesse a fazer figas para que o partido se saísse bem nestas eleições, essa não seria a sua primeira escolha. “Queria ter votado no SP [socialistas radicais], mas achei que devia ser realista e votar num partido que possa efetivamente chegar ao governo”, como é o caso da Esquerda Verde. Também os seus pais, que vivem em Portugal há vários anos, em Vila Nova de Poiares, distrito de Coimbra (cidade onde ela também viveu, dos 11 aos 23 anos, e por isso fala fluentemente português), “costumavam” votar nos verdes, mas desta vez não chegaram sequer a escolher um dos candidatos “porque tinham de pedir uns documentos e acabaram por não o fazer”.

EMMANUEL DUNAND/GETTY IMAGES

“De repente, os muçulmanos transformaram-se numa ameaça para o sistema”

Anis Raiss tem 30 anos e é filho de pais marroquinos. Vive atualmente em Amesterdão, onde trabalha como polícia em part-time e tem um negócio de venda de chá, além de ser “personal trainer”. Ao contrário de Lana Jegen, não votou, e em entrevista ao Expresso explica porquê, comparando o exercício do voto com o “gesto de carregar no botão que existe nos elevadores para abrir e fechar as portas”. “Pressionamos durante nove ou dez vezes e não acontece nada. Quando finalmente acontece, ficámos com a sensação de que foi por nossa causa, por termos pressionado o botão, mas não foi. O mesmo aconteceria se eu tivesse ido votar. Por isso é que não fui, para não ser iludido e ficar a achar que participei, quando isso não iria, de facto, acontecer”, diz Anis, reforçando que só votaria “se fosse obrigado a isso”.

E em que partido votaria nesse caso? No Denk (“Pensar”), “que está a fazer um bom trabalho, mas está também rodeado de partidos pró-globalização que o fazem passar pela ovelha negra da família”. Criado em 2015 por Tunahan Kuzu e Selçuk Öztürk, dois deputados nascidos na Turquia que foram expulsos do Partido Trabalhista holandês (PvdA) por se recusarem a apoiar a política de integração e à volta dos quais se tem gerado algum burburinho devido às suas posições pró-Erdogan, o Presidente turco, o Denk apresentou-se nas eleições legislativas como “a única verdadeira resposta” ao discurso do PVV (extrema-direita xenófoba) de Geert Wilders. Discurso este que incluiu, recorde-se, ataques aos marroquinos, com quem Wilders prometeu “acabar” invocando razões de segurança (“eles tornam as ruas da Holanda perigosas”) e apelidou “escumalha”.

Anis Raiss tem 30 anos e é filho de pais marroquinos. Vive atualmente em Amesterdão, onde trabalha como polícia em part-time e tem um negócio de venda de chá, além de ser “personal trainer”

Anis Raiss tem 30 anos e é filho de pais marroquinos. Vive atualmente em Amesterdão, onde trabalha como polícia em part-time e tem um negócio de venda de chá, além de ser “personal trainer”

D.R.

Questionado sobre os ataques de Wilders aos marroquinos e muçulmanos (a imagem de capa no Twitter do líder da extrema-direita, onde ainda se lê “Stop Islam” em letras garrafais, mostrava bem ao que ele vinha), Anis Raiss diz que “os sionistas, os mesmos que financiam Geert Wilders e que querem o Grande Israel, estão a tentar transformar o islão numa ideologia que eventualmente venha a ser proibida tal como o nazismo, com os muçulmanos a serem perseguidos”. Anis alude a Jean Baudrillard, sociólogo e filósofo francês, que “desenvolveu estes conceitos de simulacro e simulação e explica de que modo é que o islão está a ser alvo de uma campanha, que irá eventualmente beneficiar a agenda sionista, que o faz passar por uma religião violenta e uma ideologia de malucos”.

O partido Denk ("Pensar") foi criado em 2015 por Tunahan Kuzu (à direita) e Selçuk Öztürk (à esquerda), dois deputados nascidos na Turquia

O partido Denk ("Pensar") foi criado em 2015 por Tunahan Kuzu (à direita) e Selçuk Öztürk (à esquerda), dois deputados nascidos na Turquia

BART MAAT/GETTY IMAGES

Anis Raiss sublinha ainda que “nos anos 70 e 80, quando muitas pessoas de países muçulmanos começaram a chegar à Holanda para trabalhar na indústria, ninguém quis saber quem eram estes imigrantes”. O próprio Governo, diz, “não se importou se eles sabiam ou não falar holandês, apenas se estavam aptos para trabalhar”. “Na altura, os muçulmanos faziam aquilo que os holandeses não queriam fazer, ficavam com os empregos que eles não queriam, pertenciam às classes mais baixas da sociedade e não tinham poder económico absolutamente nenhum, mas depois as coisas mudaram. Hoje, há muçulmanos com netos e bisnetos a desempenharem cargos superiores em diferentes áreas que precisamente por isso se transformaram numa ameaça para o sistema”. E por sistema “entenda-se a supremacia branca, anglo-saxónica”, sublinha Anis.

Fui “agredida verbalmente” por cidadãos marroquinos

Xandra Lamers tem 60 anos e vive em Amesterdão, onde é diretora, com o marido, de uma empresa de tradução (ambos são tradutores também, de inglês para holandês e vice-versa). Votou Geert Wilders e por isso está “desapontada” com o resultado das eleições. Ainda assim, acredita que o PVV poderá ser uma das forças política a integrar a coligação que vai governar o país, ainda que o primeiro-ministro Mark Rutte tenha já recusado essa possibilidade e não pareça disposto, nem mesmo agora que precisa efetivamente do apoio de outros partidos, a mudar de ideias.

Xandra e o marido mudaram-se para IJburg, um bairro residencial construído na zona este de Amesterdão para albergar famílias da classe média, em 2002, altura em que foram construídas as primeiras habitações. Foram integrados no bairro no âmbito de um programa municipal que tinha como objetivo “misturar proprietários de casas com imigrantes que viviam em zonas carenciadas da cidade e que foram então realojados em blocos de apartamentos no bairro”.

Ao fim de quase 15 anos a viver ali, Xandra considera que esta “experiência social”, como lhe chama, “falhou completamente”, porque “são sobretudo os marroquinos, mas também os turcos, que controlam o bairro”. “Os nativos já não se sentem em casa, sentem que já não pertencem a este lugar e que estão a perder a sua identidade”. Perguntamos a Xandra de que forma é que os imigrantes que ali vivem - marroquinos e turcos, mas também cidadãos vindos do Suriname e países de América Central - afetaram de facto a sua vida. A tradutora aponta situações em que foi “agredida verbalmente” por cidadãos marroquinos. “Chamaram-me cabra com cancro [“cancer whore”] e ameaçaram-me por causa das coisas que eu escrevia no meu blogue.” Que tipo de coisas? “No início, escrevia só coisas positivas, mas com o passar do tempo comecei a escrever sobre as falhas desta experiência social. A minha primeira publicação mais crítica - o título era ‘IJburg, um pesadelo socialista’ - gerou reações muito negativas. Chamaram-me fascista. Nessa publicação eu descrevia um incidente ocorrido na zona onde inaugurou há pouco um centro comercial, perto do bairro. Uma mulher fora agredida por um grupo de rapazes hispânicos e teve de ser transportada para o hospital.”

Xandra Lamers tem 60 anos e vive em Amesterdão, onde é diretora, com o marido, de uma empresa de tradução.

Xandra Lamers tem 60 anos e vive em Amesterdão, onde é diretora, com o marido, de uma empresa de tradução.

D.R.

A tradutora conta ainda que foi ameaçada por um rapaz com dupla nacionalidade - marroquino e holandês - que vive perto dela. Aconteceu em 2015. “Eu tinha escrito no meu blogue sobre a mãe dele, que fora detida numa operação policial. O rapaz disse-me que sabia onde me encontrar e que se eu voltasse a escrever sobre marroquinos me mataria.” Xandra diz ter feito queixa à polícia, que a aconselhou, porém, a não formalizar a queixa “para evitar que a violência escalasse”. Esta semana, diz ainda Xandra, um vizinho contou-lhe “que foi perseguido por quatro jovens marroquinos até ao centro comercial, depois de ter dito a uma mulher que usava um véu na cabeça para caminhar no passeio em vez de caminhar na estrada”. Acabou por não apresentar queixa à polícia “por medo de represálias”.

Do Partido Trabalhista para o PVV de Geert Wilders

Xandra Lamers diz que foram estas situações que a levaram a votar em Geert Wilders nestas eleições. “Quando eu me mudei para este bairro votava no Partido Trabalhista [PvdA]. Era muito politicamente correta. Depois aconteceu isto que lhe contei, estas situações com imigrantes não-ocidentais e eu fui imediatamente apelidada “fascista” e fui silenciada. Gradualmente, fui deixando de ser politicamente correta, até começar a votar em Wilders”, diz a tradutora. Como ela, muitas outras pessoas, desiludidas, trocaram os trabalhistas por outros partidos, nomeadamente o PVV de Wilders. Os resultados das eleições desta semana dão a ver esta mudança de forma muito clara: de 38 deputados no parlamento, o PvdA passou para 9. Uma queda verdadeiramente histórica para um partido que já foi a segunda força política mais votada na Holanda.

reuters

Gordon Darroch, jornalista e escritor norueguês, que vive atualmente em Haia, assina um artigo no “Dutch News” em que explica como a aproximação aos liberais (com quem os trabalhistas formaram um governo de coligação depois das eleições de 2012) prejudicou o PvdA e afastou o seu eleitorado mais próximo. “O Estado Social foi substituído por uma coisa chamada ‘sociedade de participação’, na qual se esperava que todos, incluindo os mais velhos, doentes e pessoas com deficiência fizessem mais por eles próprios, mas com menos recursos. Os subsídios para as artes foram cortados. A idade da reforma aumentou. O ambicioso plano de transformar a Holanda na vanguarda das energia renováveis está a ser financiado não pelo governo central, mas pelos consumidores, que veem um acréscimo de dinheiro nas suas faturas da eletricidade.” Diederik Samson (antigo líder do Partido Trabalhista), escreve ainda o jornalista, “prometeu uma “saída social” da recessão; na prática, a economia recuperou, mas a sociedade tornou-se mais polarizada e fragmentada. E os eleitores, que em 2012 festejaram os resultados do partido, decidiram simplesmente afastar-se”.

Em Amesterdão, o partido tem sido particularmente penalizado: nas eleições municipais de há dois anos, os trabalhistas perderam pela primeira vez, desde 1949, a câmara da cidade para o D66 (esquerda liberal), de Alexander Pechtold, que nestas legislativas ficou em terceiro lugar, com 19 deputados, assim como o CDA (democratas-cristãos).

“Isto não é a vossa terra”

Joana Rita tem 30 anos, é portuguesa e vive em Eidhoven desde julho do ano passado com o marido. Os dois saíram de Portugal à procura “de melhores condições de vida e de trabalho” e ainda não se arrependeram. “Como Eindhoven tem aeroporto, em duas horas e meia conseguimos estar em Lisboa ou no Porto. Continuamos a ver a família com frequência. Estamos muito bem.” Joana vai começar a trabalhar em breve na área de marketing.

Em conversa com o Expresso ainda antes de serem conhecidos os resultados das eleições legislativas, na quinta-feira, Joana Rita diz que as pessoas com quem falou sobre as eleições são, na sua maioria, de esquerda e que “muitas até têm mostrado entusiasmo com o facto de Portugal ser uma exceção à Europa, que está a virar à direita”. Quando o tópico da conversa passa para Gilders, Joana diz que “existe alguma islamofobia”, embora “as comunidades islâmicas sejam bastante tranquilas na cidade onde vive”. Só as gerações mais jovens, diz, “tendem a adotar uma postura mais desafiante em relação à ordem e organização típicas na Holanda, possivelmente como mecanismo de defesa face à crescente onda de islamofobia”.

Joana Rita tem 30 anos, é portuguesa e vive em Eidhoven desde julho do ano passado com o marido

Joana Rita tem 30 anos, é portuguesa e vive em Eidhoven desde julho do ano passado com o marido

D.R.

Questionada sobre eventuais conflitos a que já tenha assistido entre imigrantes e cidadãos holandeses, Joana diz que se lembra de ter ouvido “uma moça holandesa aos berros com um grupo de jovens que lhe mandou uns piropos, uma situação que em Portugal, infelizmente, seria perfeitamente normal, mas que para um holandês é absolutamente inaceitável”. “Acabaram por sair sempre comentários do tipo ‘isto não é a vossa terra’.” Também não é raro ouvir os holandeses referirem-se aos “árabes” em termos como “eles não respeitam os horário do ruído, sujam tudo, mandam piropos, um pouco à semelhança do que se ouve em Portugal em relação a outras minorias étnicas, como os ciganos”. Umas amigas contaram-lhe também recentemente um episódio a que assistiram no metro de Roterdão. “Um rapaz de aparência árabe estava ser insultado por um grupinho de adolescentes holandeses. Entretanto outras pessoas, também holandesas, mandaram-nos calar.”

Joana diz nunca ter sido alvo de qualquer manifestação de xenofobia, “antes pelo contrário”. “A cidade onde vivo tem muitíssimos imigrantes, o que provavelmente também facilita a integração. As poucas situações em que senti algum desconforto por eu ser estrangeira envolveram pessoas mais velhas, o que provavelmente também aconteceria em Portugal.” Reconhece, contudo, que para pessoas “sem formação superior, e que não dominem bem o inglês, a integração é certamente muito mais complicada”.