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Internacional

2016 foi um ano negro para os ativistas de Direitos Humanos na Colômbia

A cada 30 de agosto, os colombianos lembram as vítimas do conflito armado que, durante mais de 50 anos, colheu as vidas de mais de 260 mil pessoas

RAUL ARBOLEDA

Alto Comissariado da ONU diz que mais de 100 ativistas foram mortos no país entre janeiro e dezembro do ano passado e alerta que os territórios até agora na posse das FARC estão a ser ocupados por grupos armados envolvidos em tráfico de droga e exploração ilegal de minas de ouro que não estão em diálogo com o governo

Pelo menos 127 ativistas de Direitos Humanos foram mortos na Colômbia no ano passado, um facto que vem ensombrar os esforços de paz no país depois de o Governo de Juan Manuel Santos e os líderes da principal guerrilha armada, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), terem alcançado um histórico acordo para enterrar um sangrento conflito civil que durou mais de 50 anos.

Num relatório divulgado na quinta-feira, o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos sublinha que a maioria dessas vítimas eram líderes de organizações de defesa e promoção dos Direitos Humanos ou de organizações políticas de esquerda e pede ao governo colombiano que lhes garanta proteção.

"Existe um padrão relativo aos locais onde estas mortes estão a ocorrer", sublinha o representante da ONU para a Colômbia, Todd Howland. "Este é um momento muito importante para consolidar a implementação dos acordos" de paz — tanto aquele que foi firmado com as FARC como o que está a ser negociado com o Exército de Libertação Nacional (ELN), o segundo maior grupo de rebeldes armados da Colômbia.

Muitas das mortes ocorreram em territórios anteriormente controlados pelas FARC que agora estão a ser ocupados por grupos armados que não estão em diálogo com o governo. As áreas onde existem plantações ilegais de droga são as mais perigosas, é ainda referido no relatório.

Sob o acordo de paz assinado em novembro, os rebeldes das FARC mudaram-se para zonas de transição onde vão permanecer até que o grupo tenha sido desmantelado. Isto deixou um vazio em várias partes da Colômbia, com territórios e recursos agora a serem disputados por outros grupos armados. Howland diz que estes grupos estão muitas vezes envolvidos em tráfico de droga e na exploração ilegal de minas de ouro e que, por esse motivo, vêem nos ativistas uma das suas principais ameaças.

Howland pede ao Governo que reconheça o "padrão" de homicídios de ativistas e que trabalhe para garantir a proteção daqueles que estão em perigo por defenderem os direitos humanos. Reagindo aos avisos, o ministro do Interior, Juan Fernando Cristo, reconheceu que a onda de violência contra membros de organizações sem fins lucrativos e grupos políticos de esquerda pode vir a minar os esforços para alcançar a paz no país. "Estamos todos interessados em fazer frente a estas ameaças e a estes homicídios porque sabemos que afetam seriamente as hipóteses de se consolidar a paz na Colômbia", declarou aos jornalistas.

O relatório surge depois de o Governo e o Congresso terem sido forçados a discutir novamente o contéudo da proposta de paz com as FARC, após uma maioria dos eleitores colombianos ter chumbado a primeira versão num referendo em outubro. Antes disso, e no que foi visto como uma tentativa de catapultar e reforçar as negociações na Colômbia, o comité do Nobel da Paz decidiu laurear o Presidente Juan Manuel Santos em 2016. Entretanto, em dezembro, os deputados colombianos aprovaram o novo acordo de paz com os rebeldes; o novo plano está a ser implementado desde então.