Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Holanda recusa populismo de Wilders

YVES HERMAN/ Reuters

O liberal conservador Mark Rutte deverá continuar como primeiro-ministro. Apesar de castigado nas urnas esta quarta-feira, venceu as legislativas com distância. Para trás ficou o populista xenófobo Geert Wilders. Abre-se, agora, um período de conversações para formar um Governo que pode incluir quatro ou mais partidos, mas não a extrema-direita de Wilders

Pedro Cordeiro

Pedro Cordeiro

Editor da Secção Internacional

Os holandeses não se entusiasmaram tanto com o populismo de Geert Wilders como previam as sondagens. Com 95% dos votos contados nas legislativas de quarta-feira, o seu Partido da Liberdade (PVV, extrema-direita xenófoba) obtinha 20 deputados. O sufrágio foi muito participado: perto de 80% do eleitorado foi às urnas, algo que não acontecia na Holanda há 11 anos e não sucede em Portugal há 37.

Pelas cinco da manhã de quinta-feira, hora portuguesa (mais uma na Holanda), o terceiro lugar era disputado entre os democratas-cristãos (CDA, 19 deputados) e os liberais progressistas (D66, 19 assentos). Bem mais à frente estava o liberal conservador (VVD) do primeiro-ministro Mark Rutte, com 32 dos 150 lugares do Parlamento.

A participação no debate de segunda-feira não terá beneficiado Wilders, e a crise diplomática com a Turquia ajudou o primeiro-ministro, que tomou uma posição firme, proibindo ministros turcos de fazerem campanha em solo holandês para o referendo de abril, destinado a reforçar os poderes do Presidente Recep Tayyip Erdoğan. Rutte deverá permanecer no cargo, tendo festejado o triunfo do VVD e a derrota do “populismo errado” de Wilders.

REMKO DE WAAL/ EPA

Rutte está, porém, obrigado a forjar nova aliança de Governo. É que o VVD ganha as eleições, mas perde deputados (tinha 41). E o seu parceiro de coligação cessante, o trabalhista PvdA, sofre um desaire inédito, caindo de 38 para 9 assentos. Passa de segundo a sétimo a nível nacional e deixa de liderar a esquerda, ultrapassado pelo D66, verdes (GL, 14) e socialistas radicais (SP, 14).

Desaire trabalhista

O PvdA terá sido mais um marco da crise da social-democracia europeia. Também os seus homólogos britânico (Labour), espanhol (PSOE), francês (PS) e austríaco (SPÖ) têm tido maus resultados e sondagens ou atravessado crises de liderança. Apesar de ser de centro-esquerda, o PvdA é um partido fortemente pró-austeridade. Uma das suas figuras gradas é Jeroen Dijsselbloem, presidente do Eurogrupo e frequente crítico da situação politico-económica portuguesa. O líder trabalhista, Lodewijk Asscher, considerou esta noite “amarga”.

Explicações possíveis? Crise da social-democracia europeia; tradição de castigo ao parceiro mais pequeno da coligação de Governo, sobretudo quando o PvdA apoiou os cortes orçamentais do Executivo cessante; resiliência do primeiro-ministro Rutte (VVD) por ter adotado parte do discurso anti-imigração de Wilders; reforço do líder do Executivo por ter assumido posição dura face aos insultos do Presidente turco. No conjunto os partidos do Governo perderam mais de metade da sua representação parlamentar, tendência que se tem observado em atos eleitorais em todo o continente.

Rutte foi felicitado, possivelmente por entre suspiros de alívio, por figuras como a chanceler alemã Angela Merkel (“Mal posso esperar por trabalhar como amigos, vizinhos e europeus”), o primeiro-ministro italiano Paolo Gentiloni, o ministro dos Negócios Estrangeiros francês Jean-Marc Ayrault (“Parabéns aos holandeses que pararam a ascensão da extrema-direita”) ou o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker. Este aplaudiu a escolha dos eleitores holandeses “contra os extremistas” e falou de “um voto pela Europa, um voto contra os extremistas”.

Este vendeu cara a derrota, comentando na rede social Twitter: “Conseguimos assentos parlamentares! Essa é a primeira vitória! Não é a última vez que Rutte vai ouvir falar de mim”. Terá vencido em Roterdão, mas o político xenófobo, acusado por muitos de racismo, ver-se-á obrigado a conviver com vários (até 9) deputados de origem turca na próxima legislatura. Ainda assim, afirmou que o PVV está “entre os vencedores” e ofereceu-se para alianças de Governo que ninguém quer com ele selar.

OLAF KRAAK/EPA

Wilders ganhou, na campanha, um protagonismo que os media terão de ponderar, agora, contados os votos. É que o líder do PVV, que concentrou as atenções dos jornalistas, vai ser bem menos relevante para o futuro da Holanda do que o verde Jesse Klaver, o liberal progressistas Alexander Pechtold (D66) ou o democrata-cristão Sybrand Buma (CDA). Esses podem vir a integrar o Executivo, ele não. Alienou todo e qualquer cenário de aceitação com um discurso antimuçulmanos. Quer proibir o Corão, fechar todas as mesquitas do país e deportar os islâmicos que cometam crimes. Na linha de dirigentes políticos europeus como Marine Le Pen (Frente Nacional, França) ou Frauke Petry (Alternativa para a Alemanha), sente-se reforçado pela vitória eurocética no referendo do ano passado no Reino Unido e pela ascensão de Donald Trump à Casa Branca.

O puzzle do poder

Se a Holanda tem tradição de parlamentos fragmentados, a ida às urnas acentuou essa tendência, favorecida por um sistema eleitoral altamente proporcional (os deputados são eleitos num único círculo nacional sem percentagem mínima de votos, pelo que 0,67% já garantem um assento). Em 2017, passa a haver 13 em vez de 11 forças representadas e a distribuição é bem mais equitativa. Para alcançar o número mágico de 76 lugares (maioria absoluta), serão necessários quatro ou mais partidos.

Um dos grandes vencedores da noite foi a Esquerda Verde (GL), que quase quadruplica a sua bancada. Liderado por Jesse Klaver, de 30 anos (por alcunha, “Jessiah”, trocadilho com Messias), o partido foi o mais votado na cidade de Amesterdão. Ainda assim os ganhos da esquerda no seu todo não compensam o trambolhão do PvdA.

ROBIN VAN LONKHUIJSEN/ EPA

Os partidos estreantes na vida parlamentar são o Denk (dirigido aos imigrantes, elegeu 3 representantes) e o Fórum pela Democracia (FvD, direita populista, 2 assentos). Igualmente representados no Parlamento, em Haia, estarão a União Cristã (mantém os 5), o Partido Reformado (mantém 3), o Partido dos Animais (PvdD, de 2 para 5) e o 50+ (centrado nos reformados, de 2 para 4).

No novo Parlamento poderá ser viável (dependendo do apuramento final) uma aliança de Governo entre o VVD de Rutte, os democratas-cristãos (CDA) e os liberais progressistas (D66), acompanhados ou não pelos trabalhistas. O líder do D66, Alexander Pechtold, disse estar a viver uma “noite fantástica”, ao passar a liderar a “maior força progressista” holandesa. Será, todavia, de direita (ainda que não extrema) a identidade do próximo Executivo holandês.

[Notícia atualizada às 04h50]