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“Uma espécie de Dom Quixote” que compara o Corão ao “Mein Kampf”

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Bem colocado nas sondagens para as eleições holandesas desta quarta-feira, Geert Wilders é descrito como um populista que comunica via Twitter e usa “palavras simples que o eleitor é capaz de compreender”. Se o perfil soa familiar, não é por acaso: Wilders é um assumido apoiante de Trump. “Vamos tornar a Holanda nossa outra vez”

Uma incursão rápida pela conta de Twitter de Geert Wilders, o político holandês cujo partido aparece bem colocado nas sondagens para as legislativas desta quarta-feira, esclarece-nos imediatamente ao que vimos. A imagem de capa, sem deixar margem a dúvidas, anuncia uma intenção clara: “Stop Islam”. É naquela rede social que faz a maioria das suas declarações – quase sempre anti-islâmicas -, relegando a imprensa para segundo lugar no que toca à comunicação com o eleitorado.

As críticas ao muçulmanos, a preferência pelo Twitter e até as comparações a Mozart, alcunha que mereceu devido ao extravagante cabelo platinado, podiam dar-nos a impressão de estarmos a ver uma repetição da corrida à Casa Branca no ano passado, com Donald Trump a anunciar o famigerado decreto anti-imigração para vários países muçulmanos e a recorrer mais ao Twitter do que à imprensa, que diz ser composta por algumas das “pessoas mais desonestas” do país.

Em parte, as comparações são até bem-vindas para o holandês: Wilders é um fã confesso de Trump, a quem deu os parabéns pela vitória na Casa Branca, em novembro do ano passado, numa das habituais crónicas no site de extrema-direita Breitbart (o mesmo que era liderado pelo ideólogo de Donald Trump, Steve Bannon). “Parabéns, América! Ontem, na maior democracia do mundo, testemunhámos uma revolução política. Os americanos mandaram uma mensagem poderosa ao mundo: basta, queremos ser livres de novo, queremos ser grandes de novo” (o próprio Wilders, no anúncio da sua campanha, prometeu “tornar a Holanda nossa outra vez”).

A sintonia com os republicanos da América não se fica por aqui. Esta segunda-feira, o veterano congressista americano Steve King também mostrou o seu apoio no Twitter, gerando muitas respostas e críticas: “Wilders percebe que a cultura e a demografia são o nosso destino. Não podemos restaurar a nossa civilização com os bebés dos outros”, escreveu, em referência à norma que dita que os bebés nascidos nos Estados Unidos recebem automaticamente cidadania norte-americana, incluindo os filhos de imigrantes ilegais.

Bem colocado nas sondagens

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No jogo das semelhanças e das diferenças entre Wilders, figura principal do Partido da Liberdade (PVV) – normalmente descrito como radical e de extrema-direita pela imprensa, embora Wilders recuse as comparações com figuras como Marine Le Pen – e Trump, há uma outra semelhança que pode vir a acontecer esta quarta-feira: é que Wilders, que o “Telegraph” responsabiliza por “quebras profundas numa tradição de políticas de consenso” naquele país, tem hipóteses reais de ter resultados inéditos nas eleições parlamentares que estão à porta.

Os últimos números, já um pouco menos promissores para Wilders e o PVV do que os de dezembro, mostram ainda assim um quadro positivo: segundo o reputado portal Peilingwijzer, que combina pesquisas de seis empresas de sondagens diferentes, a 12 de março o PVV conta com 13% das intenções de voto e 19 a 23 dos 150 assentos parlamentares, embora em dezembro chegasse, segundo o “Dutch News”, a ter hipóteses de colocar no Parlamento 31 a 37 deputados.

Enquanto o partido de Wilders se agarra ao segundo lugar – durante várias semanas, esteve em primeiro -, o Partido Liberal (PVV) do atual primeiro-ministro, Mark Rutte, mantém-se na dianteira, conquistando, segundo esta pesquisa, 16% das intenções de voto, que se traduziriam na prática em 23 a 27 assentos. Se as percentagens parecem baixas para os dois partidos que serão presumivelmente os mais votados, é porque o são – no Parlamento holandês há uma enorme variedade de partidos (segundo esta percentagem, são 13 os que reúnem mais de 1% das intenções de voto), o que resulta numa grande indecisão e fragmentação por parte dos eleitores.

“É bastante comum haver muitos eleitores indecisos. Uma grande percentagem decide na última semana. No entanto, tendem a ter uma lista de opções bastante pequena e consistente, a partir da qual decidem. Este é o resultado de ter tantos partidos, devido ao sistema eleitoral altamente proporcional”, explica ao Expresso Tom van der Meer, professor de ciência política na Universidade de Amsterdão e codiretor da Pesquisa Parlamentar Eleitoral Holandesa.

SELFIE. Wilders com Le Pen

SELFIE. Wilders com Le Pen

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Por eleitores indecisos – que, segundo pesquisas citadas pelo “Politico”, representavam a sete semanas das eleições 70% do eleitorado – não se entenda apenas quem não sabe em quem há de votar, avisa Maurice de Hond, especialista em sondagens, em declarações ao Expresso: “Eleitores indecisos são também eleitores que fizeram a sua escolha mas ainda dão oportunidade a outro partido. É uma situação normal no nosso país nos últimos 30 a 40 anos. Com tantos partidos, há muito por onde escolher. E depende das prioridades de cada um sobre tópicos específicos (economia, imigração, ambiente, segurança, saúde, educação)”.

Com Wilders bem colocado nas sondagens, parece ser claro qual o tema que muitos eleitores escolheram como prioridade nestas eleições: a imigração, assunto recorrente e que marca o seu manifesto de 11 pontos para estas eleições. Entre as polémicas propostas de Wilders, que se declara anti-islâmico de forma quase constante, estão por exemplo a retirada das licenças às mesquitas, a proibição do Corão no país (que comparou, aliás, a “Mein Kampf”, o livro assinado por Hitler), ou até uma total proibição da entrada de muçulmanos na Holanda (“Temos de acabar com toda a imigração de países islâmicos. Há islão suficiente nos nossos países”, escreve, considerando que o islão não é uma religião, mas uma “ideologia imperialista” que quer dominar o mundo).

Ofender muçulmanos? “Isso é problema deles, não meu”

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As posições extremistas têm-no levado a polémicas sucessivas e até a problemas com a Justiça. Em 2008, Wilders produziu “Fitna”, que descreve como um “documentário” que sobrepõe versos do Corão a imagens de ataques terroristas como o 11 de Setembro ou o 11 de Março de 2004, em Madrid. No entanto, todas as televisões do país se recusaram a reproduzi-lo. Quando tentou levar o filme de 17 minutos a Westminster, para uma exibição numa sala de conferências para os membros da câmara dos lordes, o Governo do Reino Unido acabou por impedi-lo de entrar no país.

Ainda assim, Wilders não desistiu: desafiou a proibição no Tribunal Britânico de Asilo e Imigração e pôde levar a sua ideia avante, regressando ao Reino Unido em 2010 para mostrar o filme – inicialmente, o Governo argumentou que a sua visita poderia “inflamar as tensões na comunidade e levar a violência entre religiões”, mas o juiz Ockleton respondeu, citado pelo “The Guardian”, que era “mais importante permitir a liberdade de expressão do que tomar ações restritivas com base em especulação”. Sobre o filme, Wilders disse saber que poderia “ofender algumas pessoas”: “E então? Isso é problema deles, não meu”.

Em 2011, Wilders foi de novo a tribunal, acusado de incitar ao ódio e à discriminação, acabando absolvido por ter insultado uma religião e não uma raça – o que nesse caso constituiria, sim, um crime no seu país – e com o procurador, Wouter Bos, a lembrar-lhe que “a liberdade de expressão traz obrigações e responsabilidade, a responsabilidade de não pôr uns grupos de pessoas contra outros”. Em 2014, regressou graças a acusações semelhantes, desta vez por ter garantido a um grupo de eleitores que iria reduzir o número de muçulmanos no país: “Vamos tratar disso”. No final do ano passado, foi considerado culpado.

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A condenação não parece ter moderado Wilders, que no fim de fevereiro fez notícia ao dar início à sua campanha eleitoral com novas declarações polémicas sobre os muçulmanos: “A escumalha marroquina na Holanda… mais uma vez, nem todos são escumalha… mas há muita escumalha marroquina na Holanda que torna as ruas perigosas, sobretudo jovens… e isso devia mudar”, disse aos jornalistas. “Se querem recuperar o vosso país, se querem fazer da Holanda a casa dos holandeses, a vossa própria casa, só podem votar [no PVV].”

As ideias de Wilders têm sucesso graças a vários fatores, explicam os especialistas, rejeitando a ideia de que todos os eleitores que consideram votar no PVV sejam racistas ou xenófobos. “Nessas ideias, sobre esses tópicos, 35% a 45% da população concorda com ele (mas parte dessas pessoas não votará nele)”, explica Maurice de Hond. “Com a minha pesquisa, sei o que a maior parte destes eleitores tem em comum: eles estão pessimistas sobre os seus futuros financeiros e sentem que as mudanças dos últimos 10 anos não lhes estão a trazer novas oportunidades, mas sobretudo novas ameaças. Eles desejam o mundo mais simples do passado. Este momento já é visível na Holanda há 20 anos.”

Para Tom van der Meer, é preciso não esquecer que “a sociedade holandesa é em média um pouco mais confiante na política e tolerante do que a média europeia”. “Ainda assim, ele consegue mobilizar cidadãos desconfiados e antimulticulturalismo. Temos de perceber a ascensão do PVV mais como uma reflexão dos problemas políticos dominantes na sociedade holandesa, não como o resultado de níveis altos de desconfiança e intolerância.”

“Wilders responde às preocupações que as pessoas têm sobre os efeitos da globalização”, corrobora Paul Nieuwenburg, professor de filosofia Política na Universidade de Leiden. “Ele começou com apenas um tópico, mostrando-se islamofóbico, mas agora é um completo populista que cultivou uma imagem de si próprio como o guerreiro contra a elite (‘de esquerda’) holandesa (embora ele próprio seja produto da política holandesa)”, explica o especialista.

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Um político do sistema que detesta políticos do sistema

Apesar do típico discurso, reconhecível em Donald Trump e nos líderes do Brexit no Reino Unido, sobre a derrota das elites e o domínio do povo (“Estamos a testemunhar a mesma revolução em ambos os lados do Atlântico. A primavera patriótica está a varrer o mundo ocidental”, escreve), a verdade é que, como Nieuwenburg recorda, Wilders está longe de ser uma novidade no panorama político do país.

Nascido em 1963 na cidade de Venlo, Wilders cresceu num meio católico, embora diga já não o ser, relata a BBC. A sua carreira começou na área dos seguros, entrando no meio da política como conselheiro e responsável pelos discursos do Partido Liberal, com o qual atualmente rivaliza. Em 1997 entrou na política municipal, em Utrecht, e no ano seguinte foi eleito pela primeira vez como deputado no Parlamento nacional.

No entanto, o seu período nas fileiras do VVD foi curto: em desacordo com algumas ideias, entre elas a aprovação da entrada da Turquia na União Europeia, em 2004 deixou o partido e em 2006 formou o seu PVV, já com a ideia de entrar na corrida às eleições parlamentares desse ano. Fê-lo com sucesso: nesse ano, conseguiu colocar nove deputados no Parlamento.

“Eu diria que ele é o único ponto a favor do partido, que é essencialmente um monte de rebeldes políticos inexperientes, e ele teria sérios problemas a encher um gabinete se se tornasse primeiro-ministro”, salienta Nieuwenburg. Os especialistas consultados pelo Expresso consideram-no unanimemente uma espécie de líder carismático do PVV (“O seu estilo e reputação são importantes. Enquanto o partido quase não é afetado por escândalos pessoais envolvendo outros deputados do partido - sinal da força de Wilders -, não há aparente sucessor”, defende Tom van der Meer) –, sem esquecer que a própria imprensa holandesa o votou em 2007 “político do ano”, devido aos seus “soundbites com bom timing”.

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Para o resto do mundo, a verdadeira apresentação aconteceu em 2010, quando se deslocou a Nova Iorque por ocasião do 9º aniversário dos ataques às Torres Gémeas para falar contra a possibilidade da construção de um centro islâmico nos arredores. Já nessa altura, como hoje, tomava precauções, dizendo estar “na lista de alvos” de várias organizações terroristas, e deslocava-se com um grande aparato de segurança nas raras aparições públicas. Mesmo assim, insiste Wilders, não vai deixar de falar: “Sou intolerante com os intolerantes”. Mais: “Falo de forma simples para que os eleitores percebam”.

Esse é precisamente uma das suas maiores virtudes, explicam os especialistas: os discursos simples, com palavras claras, e contra a correção política, o que nos últimos tempos parece a chave do sucesso para políticos populistas de todo o mundo. “A estratégia dele é claramente populista, no sentido em que ele coloca a população, boa e homogénea, contra a elite, corrupta e homogénea, com ele e o seu partido como voz do povo”, explica van der Meer.

Embora “radical” e “populista” sejam adjetivos que escolhem para descrever Wilders (este último “assenta-lhe melhor do que qualquer outro”, assegura Nieuwenberg), o líder anti-islâmico e pró-saída da União Europeia (que descreve como um “superestado pan-europeu e não democrático em vias de ser criado”) não deve ser rotulado como se o fenómeno fosse fácil de entender.

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“O PVV de Wilders tem muito em comum com outros partidos populistas na Europa, mas também há diferenças. Wilders é relativamente liberal, se não libertário em matérias normativo-culturais (casamento entre pessoas do mesmo sexo, etc); é muito pró-Israel e pró-Estados Unidos. O populismo é uma noção imprecisa, mas ele partilha muitas ideias com outros partidos populistas, especialmente anti-islão, antiUnião Europeia, anti-elite”, detalha André Gerrits, professor de Estudos Internacionais e Política Global do Instituto de História na Universidade de Leiden.

“Zero por cento de hipóteses de coligação”

Mesmo com as palavras que seduzem os eleitores sempre prontas, capitalizando os problemas comuns da população holandesa e as frustrações que a globalização trouxe a parte do eleitorado, é improvável que Wilders se torne primeiro-ministro; não porque esteja mal colocado nas sondagens, mas porque há poucos partidos com quem o líder carismático do PVV esteja disposto a coligar-se, e menos ainda que estejam dispostos a coligar-se com ele.

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“Provavelmente não fará parte de nenhum Governo. Todos os outros grandes partidos o rejeitam como parceiro de coligação. Para mais, o sucesso do partido não é necessariamente sintoma de polarização política no país. A maior parte dos partidos centristas sai-se relativamente bem nas sondagens”, defende Gerrits. Van der Meer concorda: “Dado que a próxima coligação provavelmente precisará de quatro partidos para obter a maioria parlamentar, muitos teriam de quebrar as promessas para governar com o PVV”. O atual primeiro-ministro já veio confirmar que há “zero por cento” de hipóteses de se juntar a Wilders para governar.

Se inicialmente se falava do efeito Trump e do “Trump da Holanda”, como a CNN batizou Wilders, agora a “VICE” propõe uma teoria diferente: talvez o verdadeiro efeito da governação de Trump esteja a afastar os eleitores mais moderados do PVV, agora cientes dos resultados e menos dispostos a fazer um voto de protesto. O líder do Conselho Nacional Marroquino na Holanda, Mohamed Rabbae, acredita que mesmo que chegue ao poder, Wilders será incapaz de cumprir as suas promessas: “Ele é uma espécie de Dom Quixote, a lutar contra coisas e a estabelecer objetivos que nunca irão acontecer”.