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Com o adensar da crise diplomática com a Holanda, Erdogan acusa Merkel de “apoiar terroristas”

OZAN KOSE

Presidente turco continua a comprar guerra de palavras com Estados-membros da UE por causa do referendo constitucional marcado para 16 de abril. Acusações de “nazismo” e de apoio a terroristas surgiram na véspera das eleições legislativas na Holanda e de outros importantes plebiscitos em países do bloco europeu

O Presidente da Turquia continua investido numa retórica inflamada contra os aliados da NATO, tendo esta segunda-feira à noite acusado a chanceler Angela Merkel de "dar apoio a terroristas" numa entrevista ao canal A Haber TV – já depois de o seu governo ter anunciado medidas retaliatórias contra a Holanda, por ter impedido a entrada no país de ministros do seu gabinete que tencionavam participar em comícios com a comunidade turca em preparação do referendo constitucional turco marcado para 16 de abril.

"Sra. Merkel, porque é que está a esconder terroristas no seu país?", questionou Recep Tayyip Erdogan na televisão. "Porque é que não está a fazer nada? Sra. Merkel, está a apoiar terroristas", acusou o Presidente turco sem mais pormenores, a não ser uma breve referência ao ilegalizado Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), tido como "organização terrorista" tanto pela Turquia, como pela União Europeia e pelos Estados Unidos. Num comunicado curto e direto, o porta-voz da chanceler alemã, Steffen Seibert, disse apenas que Merkel "não tem qualquer intenção de participar num jogo de provocações".

A cisma de Erdogan teve lugar horas depois de a Comissão Europeia ter pedido ao governo turco que modere os ataques retóricos à Alemanha e à Holanda, depois de um fim de semana de crescentes tensões diplomáticas que esta segunda-feira levaram a Turquia a suspender as relações diplomáticas de alto nível com o governo holandês de Mark Rutte.

Em causa está a interdição de entrada ao ministro turco dos Negócios Estrangeiros e à ministra para os Assuntos Familiares, que tinham presença marcada num comício de campanha junto da comunidade de imigrantes turcos em Roterdão, para apelar ao voto no 'sim' no referendo convocado para daqui a um mês – uma consulta que poderá levar à alteração do sistema político em vigor na Turquia para uma república presidencialista e permitir que Erdogan fique no poder até 2029.

Numa altura em que as sondagens mais recentes indicam um empate técnico entre as duas barricadas nessa consulta popular, o governo do AKP está investido em atrair os votos favoráveis da diáspora; existem cerca de 2,8 milhões de turcos a residir atualmente na UE, 1,4 milhões deles só na Alemanha. Antes da sua aparição televisiva na segunda-feira à noite, o Presidente turco já tinha acusado Berlim de não responder formalmente aos 4500 dossiês enviados pelo seu governo à chancelaria de Merkel sobre suspeitos de terrorismo. No início do mês, Erdogan já tinha apontado ao dedo à chancelaria por alegada interferência no seu referendo.

Durante o fim de semana, acusou por duas vezes a Holanda e também a Alemanha de terem comportamentos "nazis" por terem impedido a entrada dos seus ministros após o cancelamento dos comícios pelas autoridades locais de Roterdão, de outras cidades holandesas e de cidades de outros Estados-membros do bloco europeu. A comparação gerou a ira dos holandeses, que durante a II Guerra Mundial foram bombardeados pela Alemanha nazi.

O primeiro-ministro holandês, Mark Rutte, em campanha para as legislativas de 15 de março, diz que ideia de pedir desculpa a Ancara é "bizarra"

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Dean Mouhtaropoulos

A querela diplomática com os países da UE e aliados da NATO estalou a 2 de março, quando a cidade alemã de Gaggenau foi a primeira a cancelar um comício em que o ministro turco da Justiça Bekir Bozdag ia participar, sob o argumento de que representava uma "ameaça à ordem pública e à segurança". Outras cidades da Alemanha, da Holanda, da Áustria e da Suíça seguiram o exemplo, alimentando a ira de Erdogan.

Esta segunda-feira à noite, o governo turco anunciou a suspensão das relações diplomáticas de alto nível com a Holanda como retaliação. Em Ancara, o porta-voz do governo e vice-primeiro-ministro Numan Kurtulmus sugeriu ainda que o governo vai reavaliar o acordo de refugiados firmado com a UE há um ano. "Estamos a fazer exatamente o que eles nos fizeram. Não vamos deixar que os aviões que transportam diplomatas holandeses aterrem na Turquia ou usem o nosso espaço aéreo", disse em conferência de imprensa.

Mustafa Akyol, um jornalista turco que integra o Freedom Project da Universidade Wellesley, nos EUA, sublinhou à Al-Jazeera que os dois lados, Turquia e UE, estão a ser movidos por emoções nacionalistas por causa das votações que se aproximam – esta quarta-feira é dia de legislativas na Holanda; a esse plebiscito vão seguir-se o referendo turco a 16 de abril, presidenciais em França uma semana depois, a 23 de abril, e eleições federais para o Bundestag alemão no outono. "Dentro da Turquia isto está certamente a alimentar ambições e sentimentos nacionalistas. Os que apoiam abertamente o Presidente Erdogan estão a dizer que isto vai ajudá-lo no referendo de abril."

Em última instância, defende o analista, a querela vai acabar por prejudicar os interesses de todos os envolvidos. "Isto está a criar uma brecha entre a Turquia e o Ocidente combinada com elementos anti-Turquia e anti-Islão na política europeia, no caso da Holanda com a extrema-direita e [o seu líder] Geert Wilders", bem colocado nos inquéritos de opinião para as eleições de amanhã. "Isto é mau para os dois lados."