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Escócia quer novo referendo à independência antes do Brexit

ANDY RAIN / EPA

Primeira-ministra escocesa quer nova consulta entre outono de 2018 e primavera de 2019. Nicola Sturgeon acusa o Governo britânico de intransigência e lembra que 62% dos escoceses votaram para ficar na União Europeia

Pedro Cordeiro

Pedro Cordeiro

Editor da Secção Internacional

O Governo escocês quer novo referendo à independência, a realizar entre o outono de 2018 e a primavera de 2019, isto é, antes de o Reino Unido sair da União Europeia (UE). O anúncio foi feito esta manhã pela primeira-ministra escocesa Nicola Sturgeon, que explica que a votação teria de realizar-se quando já se soubesse mais sobre o putativo acordo entre Londres e os 27 parceiros europeus, mas não tão tarde que a Escócia se visse arrastada pela posição britânica.

Sturgeon recordou que foi reeleita, em 2015, com um programa que admitia novo referendo em caso de “alteração material de circunstâncias”. Considera que essa mudança existe devido à divergência de resultados no referendo sobre o Brexit, a 23 de junho de 2016. O Reino Unido escolheu a porta da saída, por 52-48%, mas os escoceses tinham outra opinião: 62-38% a favor de ficar na UE. O Governo britânico já se pronunciou contra este referendo, mas não excluiu a hipótese de o autorizar.

A primeira-ministra britânica Theresa May prometeu consultar os governos dos três países que, com a Inglaterra, formam o Reino Unido (País de Gales, cuja população votou pelo Brexit, e Escócia e Irlanda do Norte, que preferiam a permanência). “Não escolhemos estar nesta posição e, como a maioria das pessoas deste país, gostava de não estar”, afirmou, para depois acusar May de “intransigência” nas conversações com Edimburgo sobre os termos em que a saída do bloco irá ocorrer. “Para bem ou mal, o futuro do Reino Unido parece muito diferente hoje do que era há dois anos”, frisou.

O Governo escocês pediu a May que admitisse a hipótese de a Escócia ficar com uma relação com a União Europeiaq diferente da do resto do Reino Unido, podendo até permanecer no mercado único. Face à negativa do Governo britânico, Sturgeon defende que os escoceses devem escolher o seu próprio rumo. Trata-se, explica, de “tentar o mais possível controlar os acontecimentos e não estar à mercê dos mesmos”, até porque Londres “não se mexeu uma polegada na direção do compromisso”.

Conclusão da líder escocesa: “Se a Escócia pode ser ignorada numa questão tão importante [como o Brexit], a nossa voz e o nosso interesse podem ser ignorados em todos os momentos e em todos os assuntos”.

Nicola Sturgeon acredita que o separatismo poderá vencer a nova consulta, mas alerta: “Não podemos assumir que alguém que votou para ficar na UE irá votar pela independência”. Em setembro de 2014, a Escócia rejeitou a secessão por 55-45%

Nicola Sturgeon acredita que o separatismo poderá vencer a nova consulta, mas alerta: “Não podemos assumir que alguém que votou para ficar na UE irá votar pela independência”. Em setembro de 2014, a Escócia rejeitou a secessão por 55-45%

Matt Cardy / Getty Images

Sturgeon acredita na vitória

Enquanto durarem as conversações sobre o Brexit, diz Sturgeon, o seu Governo continuará disponível para dialogar com Theresa May, embora um acordo não lhe pareça “remotamente possível”. “Se excluísse o referendo, estaria a decidir unilateralmente que a Escócia seguirá o Reino Unido para fora da Europa, independentemente das condições”, sublinhou.

Sturgeon acredita que o separatismo poderá vencer a nova consulta, mas alerta: “Não podemos assumir que alguém que votou para ficar na UE irá votar pela independência”. Em setembro de 2014, o país rejeitou a secessão por 55-45%.

A também líder do Partido Nacional Escocês (SNP, no poder em Edimburgo desde 2007 e representado no Parlamento britanico por 56 deputados) defendeu que, em qualquer caso, deverá estar garantida a livre circulação na fronteira entre a Escócia e a Inglaterra e o comércio bilateral. Não quis adiantar que moeda utilizaria uma hipotética Escócia soberana e realçou que não lhe passa pela cabeça que Londres (que tem poderes para tal) procure impedir a realização do referendo. A pergunta e as regras, afirma, até podiam ser iguais às de há dois anos.

A reação oficial de Theresa May deixa a porta entreaberta à realização da consulta, embora a contragosto. Garantindo que terá em conta “todas as nações do Reino Unido” na negociação do acordo futuro com a UE, a primeira-ministra afirmou, em comunicado, que “a maioria das pessoas na Escócia não quer um segundo referenco à independência”. Este criaria divisões, avisa, além de “enorme incerteza económica na pior altura possível”. May não disse, contudo, que Londres negaria a autorização (indispensável) para Edimburgo convocar o referendo.

Também o Partido Trabalhista britânico diz que “não há apetite por mais um referendo”. Logo, os seus deputados no Parlamento escocês votarão contra. Se, ainda assim, a proposta passar em Edimburgo (o que é quase certo, pois o SNP forma maioria com o Partido Verde, também pró-independência), os deputados trabalhistas na Câmara dos Comuns do Parlamento britânico não impedirão a convocatória.