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Internacional

Os bravos da Divisão Dourada

A análise da forma como o Daesh defendeu Mossul oriental diz-nos muito sobre o que se pode esperar do ataque em curso ao resto da cidade

Ricardo Garcia Vilanova, em Mossul

O terraço do Hotel Ninive na parte meridional de Mossul, só está acessível através da parte lateral de um muro semidestruído. Para lá chegar é preciso subir intermináveis escadas que só se veem no pequeno ecrã da câmara de vídeo que emite luz infravermelha. O hotel foi, noutros tempos, um dos melhores da cidade que chegou a ser a capital do autoproclamado califado no Iraque mas as bandeiras do Daesh à entrada desapareceram.

Do terraço avista-se, à esquerda, o rio Tigre, interrompido por uma pequena ilha e ladeado, em ambas as margens, por estradas vazias. Quando dois soldados decidem tirar uma selfie a fazer o sinal da vitória pela libertação daquela zona, um oficial da Divisão Dourada repreende-os: estão a expor-se aos mortíferos atiradores ocultos do Daesh.

Civis no meio de uma guerra

À direita e à frente do terraço, helicópteros de ataque metralham pequenos focos de resistência. Ouvem-se morteiradas, e jatos que mal se distinguem largam bombas. Dos locais das explosões elevam-se grandes colunas de fumo. O barulho dos tiros de armas ligeiras é constante. É um cenário dantesco.

No meio deste cenário de guerra, visto de cima, há civis que tentam sobreviver. São forçados a fazer escolhas impossíveis, em circunstâncias que escapam ao seu controlo. No terraço, o tenente-general iraquiano Abdul-Wahab al-Saad afirma estar preparado para continuar a ofensiva até à tomada de Mossul ocidental, na outra margem do rio.

O capitão Ali, da Divisão Dourada (unidade especial iraquiana), sai de uma das casas que servem de quartel junto à qual há dois humvees [jipes de fabrico americano com blindagem] de cor preta, que os identifica como pertencentes à primeira brigada das Forças Especiais Iraquianas, que dependem do Serviço de Contraterrorismo Iraquiano (ICTS). São a ponta de lança da ofensiva, com tripulações de quatro homens, e penetram nas ruas praticamente desertas de cidade.

O Daesh encontra-se a 100 m. Conduzidos pelos militares visitamos uma das prisões do grupo. Enquanto observamos uma coluna de fumo nas proximidades, aparece um miúdo de bicicleta. “Os meus pais morreram, estão em minha casa. Podem ajudar-me?”, pergunta. “Desculpa, mas agora não podemos fazer nada. Talvez daqui a umas horas possam entrar os serviços médicos”, responde o capitão.

Uma das casas vazias está marcada com a sigla NUN, um semicírculo com um acento, símbolo da vigésima quinta letra do alfabeto árabe, que faz referência à palavra “nazareno”. É assim que o Corão chama aos cristãos, e é esse sinal que identifica as casas kaffir (infiéis). Numa destas o Daesh tinha uma fábrica caseira de minifoguetes (minigrad, de patente soviética). Por isso os aviões se encarniçaram contra estas casas, poupando as que estão à volta.

Havia instalações pela cidade com funções específicas. A que agora visitamos tem material distribuído por várias divisões, para construir armamento. Numa sala vemos esqueletos de minigrad, longos tubos metálicos amontoados do lado esquerdo; noutra, material para explosivos, espoletas, manuais de fabrico... Na cave, muitos projéteis vazios de grande calibre, fabricados na Rússia (deixou-os o exército iraquiano, quando saiu à pressa da cidade em junho de 2014, acossado pelo Daesh).

Guiados pelo capitão Ali chegamos, por fim, à prisão do Daesh. Vista de fora parece uma casa normal, mas lá dentro é um pesadelo. As janelas foram entaipadas com placas de aço, o que impede qualquer vislumbre de luz. As celas do piso de baixo têm porta dupla. A primeira dá acesso a uma exígua casa de banho, que tem outra entrada e, a seguir a ambas, uma grande porta, metálica cinzenta.

Uma sinistra prisão

Havia quatro celas repartidas pelos dois andares. Nas de cima, a casa de banho é no exterior, facto irrelevante, dado que o Daesh só permitia que os presos lá fossem uma vez por dia, na melhor das hipóteses. Em todas as celas ainda há vestígios dos anteriores ocupantes, embora estejam vazias.

À saída da cidade, um homem esbraceja para fazer parar a coluna de humvees negros numa rua cheia de pessoas com malas e carrinhos de bebé. Estão a regressar a casa. O homem diz que ao voltar à sua descobriu um cinturão de explosivos no quarto dos filhos.

Só entra um soldado, não vá tratar-se de uma armadilha. Acaba por encontrar o cinturão explosivo. Levam-no para um pequeno montículo longe das casas, onde abrem fogo a uma distância prudente. Apesar de vários impactos, não rebenta. A caravana retoma a marcha, enquanto, à distância, um homem filma com o telemóvel soldados e viaturas. Ao ver-se descoberto, saúda. Será sincero ou prepara alguma?