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Hungria. De arma em punho, à caça de migrantes

Orbán quer acumular candidatos a asilo em contentores de mercadorias. Comunidade internacional critica

Pedro Cordeiro

Pedro Cordeiro

Editor da Secção Internacional

Após um curso de seis meses ministrado a agentes da polícia húngara, vai entrar em cena até ao verão a nova força de “caçadores da fronteira”. Assim batizada pelo Governo conservador nacionalista, visa reforçar o controlo da imigração. Vai centrar-se nas fronteiras com a Sérvia e a Croácia, limite do espaço Schengen e da União Europeia (UE), por onde centenas de milhares de pessoas entraram no país desde 2015, na maioria para seguir para outros Estados-membros.

O Executivo de Viktor Orbán, que se nega a cumprir as quotas de acolhimento de refugiados ditadas pela UE, mandou erguer uma cerca de arame farpado na fronteira. O Parlamento aprovou na terça-feira — com os votos do partido Fidesz de Orbán e do Jobbik (extrema-direita) — uma lei que prevê a detenção sistemática de imigrantes em campos formados por contentores de mercadorias.

Budapeste recusará entrada a todos os que tiverem passado por outro país “seguro” e poderá cobrar aos candidatos rejeitados os custos da detenção. A Amnistia Internacional pede à UE que “mostre à Hungria que estas medidas ilegais e profundamente desumanas terão consequências”. As Nações Unidas falam de violação do direito internacional. A detenção sistemática de imigrantes existiu na Hungria até 2013, ano em que foi interrompida após pressões de Bruxelas, da ONU e do Tribunal Europeu dos Direitos Humanos.

A ONG Médicos Sem Fronteiras acusa a Hungria de agressões aos imigrantes. “Parece haver um pacote de maus-tratos de boas-vindas à UE”, disse à agência Associated Press o seu dirigente Christopher Stokes. “Inclui, no mínimo, espancamento, quase sempre gás lacrimogéneo a curtíssima distância e outros sprays nos olhos.” O Governo desmente e prepara medidas para limitar a ação das ONG.

Quebra significativa

Orbán considera os muçulmanos “o cavalo de Troia do terrorismo”, embora a maioria dos atentados recentes em solo europeu tenham tido autores nados e criados no Velho Continente. O certo é que o Governo conseguiu reduzir a entrada de migrantes: de mais de 400 mil em 2015, no auge da crise, para cerca de 1000 nos dois primeiros meses do ano corrente. O líder magiar teme, porém, que “milhões de pessoas” se preparem para cruzar a fronteira. “Estamos sob cerco”, assegura.

No ano passado a Hungria acolheu 425 candidatos a asilo, de 29.432 pedidos. Em 2015 aceitara 502. Nos mesmos anos, a Alemanha, com uma população oito vezes maior, acolheu 280 mil e 890 mil refugiados, respetivamente.

Além da contestação internacional às novas leis anti-imigração, Budapeste teve de se defender, esta semana, de suspeitas de favorecimento à Rússia a troco de investimento e empréstimos à Hungria. O ministro dos Negócios Estrangeiros prometeu não impedir o prolongamento das sanções em vigor contra Moscovo se os parceiros europeus tal desejarem, mas é crítico de tais medidas punitivas, adotadas na sequência da anexação da Crimeia (ucraniana) pela Rússia, em 2014.