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Supremo da Coreia do Sul remove Park Geun-hye da presidência por “traição ao povo”

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Juízes do Tribunal Constitucional aprovam destituição daquela que foi a primeira mulher a ser eleita Presidente do país, suspensa do cargo pelo parlamento na sequência de um escândalo de corrupção. Afastamento pode ter consequências imprevisíveis em toda a região, numa altura de crescentes tensões entre o Ocidente, a Coreia do Norte e a China

O mais alto tribunal da Coreia do Sul aprovou esta sexta-feira a remoção de Park Geun-hye da presidência. A líder tinha sido suspensa em dezembro por uma maioria dos deputados da Assembleia Nacional na sequência dos maiores protestos a que o país já tinha assistido nos últimos 35 anos, sob acusações de tráfico de influência. Ao longo das semanas seguintes, a população continuou a mobilizar-se nas ruas contra Park. No centro da crise política esteve a relação da Presidente, a primeira mulher a ser eleita para o cargo no país, com uma amiga próxima e sua confidente, Choi Soon-sil, que é suspeita de ter usado essas ligações para ganhar influência junto de grandes grupos industriais e empresariais e assim obter benefícios financeiros.

O afastamento de Park acontece numa altura de tensões acrescidas na península coreana e em toda a região asiática. Filha do ditador militar da Guerra Fria, Park Chung-hee, a líder era tida como um ícone do movimento conservador sul-coreano, mais próximo de Washington e favorável ao aumento das pressões sobre a Coreia do Norte face ao desenvolvimento do seu programa nuclear. Agora, a sua queda deverá levar muitos cidadãos e políticos sul-coreanos a mudarem-se para a oposição, cujos líderes defendem uma maior aproximação ao vizinho a norte. Estes dizem querer reexaminar a estratégia conjunta do país com os Estados Unidos face a Pyongyang e defendem também uma aproximação à China, outro país que tem feito soar os alarmes no Ocidente por causa das movimentações militares no Mar do Sul da China, cuja soberania é disputada pelos principais países da região.

Os oito juízes do Tribunal Constitucional decidiram por unanimidade afastar Park da presidência pelo que classificam de "atos que violam a Constituição e as leis" e que "traíram a confiança do povo", o tipo de ações "que não podem ser toleradas a bem da proteção da Constituição", disse o juíz-chefe Lee Jung-mi no veredito, transmitido em direto na televisão. Quando a decisão foi anunciada, os milhares de apoiantes de Park que estavam reunidos numa praça próxima do Supremo em Seul ficaram em silêncio. Pouco depois, tentaram marchar até ao tribunal com intenções de o "destruir", aponta o "New York Times". Quando a polícia os bloqueou, alguns manifestantes mais velhos atacaram os agentes com os mastros das bandeiras nacionais que transportavam, com garrafas de água e pedras da rua. Dois manifestantes, de 60 e 72 anos, morreram na sequência dos breves confrontos.

Chung Sung-Jun

Park também ficou em silêncio assim que o veredito foi anunciado, com o líder do seu partido conservador a garantir que ela "respeita humildemente" a decisão. Agora sem a imunidade que o cargo lhe garantia, Park, 65 anos, deverá enfrentar julgamento pelos crimes de suborno, extorsão e abuso de poder por causa da alegada conspiração com a sua confidente e amiga de infância, que graças à proximidade à líder conseguiu milhões de dólares em subornos de grandes empresas do país como a Samsung.

A lei define que tem de haver eleições presidenciais antecipadas no prazo de 60 dias a contar da decisão desta sexta-feira, ou seja, até meados de maio. O Presidente interino, Hwang Kyo-ahn, aliado de Park, permanecerá em funções até lá e já se reuniu com os ministros do governo para ordenar que as tropas sul-coreanas estejam a postos para responder a qualquer provocação, sob o argumento de que um país sem Presidente corresponde a uma "emergência nacional". Isto acontece numa altura em que a administração norte-americana de Donald Trump está a tentar acelerar a instalação de um sistema de defesa antimísseis no território sul-coreano, um que quer em funcionamento antes das eleições. Hwang também já deixou avisos à Coreia do Norte para que não atente "provocações adicionais" perante a crise política no país.

A última vez que a Coreia do Sul assistiu à destituição de um líder aconteceu em 1960, quando a polícia abriu fogo sobre multidões de manifestantes que à data exigiam o afastamento do Presidente Syngman Rhee. O ditador fugiu para o Hawai, onde viveu exilado até à data da sua morte em 1965. Desta vez, num sinal do quanto a jovem democracia sul-coreana evoluiu desde então, não houve episódios de violência grave, com protestos maioritariamente pacíficos pela destituição da primeira mulher a ser eleita Presidente da Coreia do Sul. "Isto é um milagre, um novo marco no reforço e institucionalização da democracia sul-coreana", aponta Kang Won-taek, cientista político da Universidade Nacional de Seul, citado pelo "New York Times".

Park tinha sido eleita em 2012 com o apoio de uma faixa da população mais velha e conservadora, que apoiara o governo do seu pai entre 1961 e 1979. Park Chung-hee foi responsável por alterar o modelo de crescimento económico do país, transformando a nação num dos principais exportadores da região asiática e favorecendo conglomerados de famílias, conhecidos como chaebol, com cortes nos impostos e outras medidas. As ligações da indústria ao poder político acabaram por criar conluios como aquele que ficou a descoberto com o escândalo que levou à destituição de Park — um que também atingiu o líder de facto da Samsung, Lee Jae-yong, que já foi indiciado por subornar Park e Choi.

Lee, filho do dono da Samsung que é tido como o verdadeiro CEO da empresa, vai ser julgado por subornos a Park e Choi

Lee, filho do dono da Samsung que é tido como o verdadeiro CEO da empresa, vai ser julgado por subornos a Park e Choi

Chung Sung-Jun/GETTY

A Samsung, o maior conglomerado empresarial do país, já tinha estado envolvido noutros escândalos de corrupção, mas era tido como demasiado importante para a economia do país, o que até agora tinha poupado a empresa de consequências. A detenção de Lee, que vai ser julgado por corrupção, é mais um sinal de que a velha ordem da Coreia do Sul está em queda. Na sequência das denúncias contra Park, todos os partidos políticos da Coreia do Sul prometeram limitar os poderes do Presidente, até agora autorizado a perdoar os magnatas dos chaebol condenados por crimes de colarinho branco. Da mesma forma, também se comprometeram a combater o nepotismo nos conglomerados, impedindo que os fundadores e diretores das grandes empresas ajudem os seus filhos a acumular fortunas através de meios dúbios, entre eles obrigar fazer negócio exclusivamente com as empresas detidas pelos filhos e outros familiares.

Perante o descrédito face aos conservadores, e sem qualquer figura do partido pronta para tentar suceder a Park nas eleições, a esquerda poderá chegar ao poder pela primeira vez em mais de uma década. A campanha deverá ser dominada pelo programa nuclear da Coreia do Norte e pelas relações com os Estados Unidos e a China. Se a oposição vencer as eleições, poderá tentar reavivar a chamada "política do sol", uma estratégia de aproximação pacífica ao Norte seguida entre 1998 e 2008, favorecida pela China, que passa por uma aposta forte nas trocas comerciais e na ajuda externa a Pyongyang. Se o país voltar a ela, os esforços dos EUA para isolar a Coreia do Norte vão ficar dificultados, numa altura em que nações da região como as Filipinas já estão a aproximar-se de Pequim.

Moon Jae-in, líder do Partido Democrático que neste momento lidera as sondagens de opinião, defende que esta década de políticas agressivas contra a Coreia do Norte falhou e que, apesar de as sanções serem necessárias, "o seu objetivo deve ser atrair a Coreia do Norte de volta à mesa de negociações". Para Moon, a decisão de Park de permitir a instalação do escudo antimísseis dos EUA arrastou o país para uma rivalidade perigosa e crescente entre Washington e Pequim; a China condena a instalação do THAAD na Coreia do Sul, dizendo que ameaça a segurança da região, e tem estado a aprovar medidas para castigar Seul economicamente por abrir o território às forças militares norte-americanas.