Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

“Se a sociedade fosse o Twitter, eu já tinha desistido dela”

tiago miranda

Holandês a residir nos EUA, o politólogo Cas Mudde está na posição ideal para perceber como os excessos de correção política ajudaram a gerar a onda populista atual. Esta semana veio a Portugal

Luís M. Faria

texto

Jornalista

Tiago Miranda

Tiago Miranda

fotos

Fotojornalista

O cientista político holandês Cas Mudde, professor na Universidade da Georgia (EUA), há muito que se ocupa do fenómeno dos extremismos. A sua obra “Populismo – Uma Brevíssima Introdução” acaba de sair na editora Gradiva. Oriundo de um país onde durante décadas a correção política proibia discutir certos assuntos – por exemplo, dificuldades culturais com imigrantes – Mudde viu essa proibição favorecer populistas como Geert Wilders, os quais promovem respostas antiliberais a angústias legitimas, dizendo o que não poucas pessoas gostariam de poder dizer. Mudde esteve esta semana em Portugal a convite da Fundação Francisco Manuel dos Santos e deu uma conferência na Culturgest subordinada ao tema “O que é o populismo?”. O Expresso aproveitou para falar com Cas Mudde, começando por um aspeto que ganhou renovada atualidade com Donald Trump.

Como vê a relação entre o populismo e os social media? Desde logo, há o facto de se ultrapassarem os media tradicionais e não haver contraditório…
Sim. Controla-se completamente a mensagem. Mesmo que alguém responda, pode escolher-se responder-lhe ou não. Os social media são úteis para afirmar um ponto, mas só se tornarão relevantes se os media mainstream lhes derem atenção. Donald Trump não venceu por causa do Twitter. Venceu porque todos os principais media nos EUA hoje em dia respondem ao que acontece no Twitter. E isto é um problema mais geral. Porque muitos jornalistas atualmente vivem no Twitter. Acham que a sociedade é aquilo que vivem lá. E claro que não é. Se fosse, eu já tinha desistido da sociedade. Um dia no Twitter e fico logo deprimido. O que acontece no Twitter torna-se um grande tema das notícias. Trump teve imensa vantagem com isso. Ainda assim, acho que foi uma eleição ‘freak’. Passaram-se tantas coisas que nunca se tinham passado. Desde logo, ele estava num campo com 17 candidatos, nenhum dos quais era popular ou muito conhecido. De facto, ele era a única pessoa sem uma carreira política, mas mais famoso do que qualquer dos outros, por causa do seu programa de televisão. Num campo que fosse diferente, com quatro ou cinco pessoas conhecidas, ele não teria tido a mesma importância. Mas ali, para manter aquilo relevante, precisavam da sua presença. E focaram-se nele, o que mudou o modo como os debates tiveram lugar. A seu favor. Ele tornou-se a grande atração. Sim, o Twitter desempenhou um papel, mas se ele só tivesse tido o Twitter e os media mainstream tivessem feito o seu trabalho e reportado sobre os verdadeiros temas e os outros candidatos, talvez o resultado fosse diferente.

Com a indústria dos media enfraquecida, vai-se muito para audiências e Trump era (ainda agora é) garantia de audiências.
Exatamente. Ele garante audiências e percebe perfeitamente a fraqueza dos media. O outro fator, lamento dizê-lo, é a obsessão dos media consigo próprios. A melhor forma de aparecer neles é atacá-los. Ataque os hispânicos e alguns jornalistas - e bem - dirão que você não devia. Mas ataque um jornalista e a democracia fica em perigo. Portanto, durante meses tivemos de ouvir quão terrível era ser jornalista. A maioria de nós não estamos assim tão interessados, mas os media estão. Isso mantém a história e mantém a convicção de superioridade moral por parte do establishment em relação a Trump. O que por sua vez alimenta a base dele.

Como vê a evolução do populismo em 2017?
Quem fizer previsões ou é ingénuo ou narcisista. A única coisa que é absolutamente certa é que os populistas não vão ser particularmente relevantes na Alemanha. Por mais que inflacionemos a AFD [Alternativ für Deutschland], no seu pico tinham 15%. Le Pen pode ganhar. É altamente improvável, mas pode acontecer. O PPV [o Partido da Liberdade, de Geert Wilders] pode tornar-se o maior partido na Holanda. Se isso se confirmar, a narrativa permanecerá: populismo em ascensão, status quo ameaçado, etc etc. Se Marine Le Pen chegar à segunda volta e se sair razoavelmente bem, será um empurrão no mesmo sentido. Mas se Wilders tiver bastante menos votos do que as sondagens chegaram a sugerir, isso mudará a narrativa. E não é impensável que Marine Le Pen seja convincentemente derrotada na segunda volta. Se Juppé voltasse à corrida – ele garante que não o fará – existe mesmo a possibilidade de Le Pen não passar à segunda volta. Se eu apostasse nalguma coisa, e não o farei, diria que no fim de 2017 a moda do populismo será menor do que ao início. Mas o quadro mental dos media é forte e não se vai quebrar com facilidade.

tiago miranda

Que quadro mental dos media é esse a que se refere?
O que diz que o establishment liberal vive numa bolha e perdeu contacto com o povo real, levando o povo a erguer-se e a votar na direita radical. Isto é factualmente incorreto. Há pelo menos duas bolhas: a da direita radical e a do mainstream. Esta ultima corresponde à vasta maioria das pessoas. Não se verifica nenhuma subida geral do populismo, seja à esquerda ou à direita. Mas todas as eleições são vistas a essa luz. Na Alemanha, segundo todas as sondagens, vamos ter uma eleição entre o centro-direita e o centro-esquerda. Juntos, têm dois terços da população. E, no entanto, boa parte da cobertura fala em Merkel versus AFD.

É uma história mais dramática.
Sem dúvida. Mas é autodestrutivo. A maioria dos jornalistas são na verdade democratas liberais, por um bom motivo: só conseguem fazer o seu trabalho numa democracia liberal. Quadros mentais criam narrativas e narrativas criam realidades. Se a ideia é que o establishment perdeu o contacto e a direita radical é a verdadeira voz do povo e fala dos assuntos importantes, isso joga a favor dela.

Em termos gerais, e ao contrário do que dizem outros autores, para si o populismo é mais negativo do que positivo?
Sim. É positivo sobretudo quando está na oposição. Porque obriga os partidos estabelecidos a lidarem com problemas que parte da população acha não estarem a ser tratados. Mas quando os populistas chegam ao poder, seja como partido sénior numa coligação ou até como único partido no governo – o caso da Hungria – tendem a minar as garantias liberais da democracia. Limitam os direitos das minorias, atacam o poder dos tribunais e da imprensa.

E acabam fatalmente mal?
Bom, a Hungria já está mal e a Polónia também, embora a outro nível. Por outro lado, a maioria dos países que votam nos populistas não estavam assim tão bem à partida. O Syriza pode ser um desastre para a Grécia, mas não é como se eles tivessem pegado num país em ótimo estado e o tivessem estragado.