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EUA: não são só os fuzileiros que estão a partilhar centenas de fotos de camaradas nuas

Scott Olson

Há uma semana foi denunciada a existência de um grupo de Facebook com mais de 30 mil membros onde soldados da Marinha dos EUA partilham fotos de camaradas do sexo feminino sem roupa. BBC diz ter apurado que partilha escandalosa das imagens, que viola a privacidade e os direitos das mulheres envolvidas, está a acontecer noutros ramos das Forças Armadas norte-americanas. Comissão dos Serviços Armados do Senado vai reunir-se na próxima semana para discutir o caso

Até agora acreditava-se que o escândalo de partilha de fotografias de soldados norte-americanas nuas pelos seus camaradas do sexo masculino nas redes sociais se limitava à Marinha. Mas de acordo com uma investigação da BBC, o mesmo tem estado a acontecer noutros ramos das forças armadas dos Estados Unidos. Neste momento, a Marinha já está a investigar o grupo de Facebook com mais de 30 mil membros cuja existência foi denunciada na semana passada, e que foi entretanto encerrado, onde homens que servem ou que já serviram na Marinha partilhavam imagens das militares nuas sem o seu consentimento. O Pentágono diz que tal comportamento é "inconsistente" com os valores incutidos nas tropas.

A BBC aponta que não é so no Facebook que os homens fardados têm estado a violar a privacidade das mulheres com quem trabalham. No Anon-IB, um website de partilha de imagens, soldados do sexo masculino sob anonimato também têm estado a divulgar imagens das camaradas do sexo oposto sem roupa. O modus operandi, aponta o canal britânico, passa por publicarem fotos das mulheres, vestidas, que vão buscar às redes sociais de cada uma, para depois pedirem aos que integram os fóruns que arranjem e publiquem imagens dessas soldados nuas. Muitas vezes, as fotografias são acompanhadas de detalhes sobre as vítimas, como os seus nomes e as bases militares onde estão destacadas, e quase sempre de comentários obscenos.

Até agora julgava-se que o escândalo estava limitado ao ramo da Marinha, cujo comandante já denunciou o "embaraço" do escândalo. "Ouço as alegações de fuzileiros navais a denegrirem as suas camaradas da Marinha e não penso que tal comportamento corresponda ao que é esperado de verdadeiros heróis e combatentes de guerra", disse o general Robert Neller no início da semana. Apesar de a Marinha já estar a investigar o grupo de Facebook com mais de 30 mil membros, o fórum de partilha de imagens no Anon-IB continua em funcionamento, aberto ao público, e a atividade nele registada sugere que a prática se estende a outros ramos das Forças Armadas.

"Acabei de ouvir que [nome ocultado] e sua bf [melhor amiga, nome ocultado] acabaram", lê-se num comentário postado a 19 de dezembro por um utilizador anónimo, numa cadeia de mensagens que parece envolver pessoal de uma base da Força Aérea no Nebraska. "Talvez ele publique algumas [fotos dela nua]." Noutra publicação, datada de 12 de setembro, um outro utilizador anónimo pede aos restantes que publiquem imagens de soldados do sexo feminino destacadas na base aérea de Wright-Patterson, no Ohio. "Alguns 'wins' de wright patt? Começo eu com alguns." ('Win' é como se referem às imagens das militares nuas.) Logo a seguir, esse mesmo utilizador publica fotos de uma mulher em bikini e depois em topless. Há imagens ainda mais explícitas da mesma mulher publicadas nesse fórum.

Em comunicado, o Departamento da Defesa dos EUA disse esta semana que vai publicar um "guia de boas práticas" para prevenir e lidar com casos de "assédio sexual e humilhação". À BBC, o porta-voz do ministério, Myles Caggins, disse que já estão a ser delineadas "políticas abrangentes de resposta ao e prevenção do assédio no local de trabalho". "O alegado comportamento [das tropas masculinas] é inconsistente com os nossos valores", sublinha a fonte do Pentágono.

Fontes da Marinha norte-americana avançaram entretando à CBS News que, apesar de o grupo de Facebook "Marines United" ter sido encerrado depois da denúncia, há pelo menos mais uma dúzia de grupos e fóruns da mesma natureza na internet. A Comissão de Serviços Armados do Senado vai discutir o caso na próxima semana. Os serviços navais de investigação criminal (NCIS) já abriram um inquérito às revelações e estão a pedir a delatores que forneçam informações relevantes para que os responsáveis sejam castigados.

"Posso dizer que é precisamente este tipo de comportamento que conduz à normalização do assédio sexual e até a casos de violência sexual", sublinha à BBC Erika Butner, 23 anos, que serviu quatro anos na Marinha dos EUA, até junho do ano passado. A atividade na página "Marines United" foi denunciada há uma semana pelo The War Horse, uma organização de notícias sem fins lucrativos dedicada a questões das forças armadas, que é gerida pelo veterano da Marinha Thomas Brennan.

Algumas das fotos partilhadas terão sido tiradas sem o consentimento das vítimas, muitas vezes sem que elas se apercebessem — como um caso denunciado pelo "The War Horse" no site "Reveal News", de uma fuzileira que, sem se aperceber, foi seguida por um militar do sexo masculino em Camp Lejeune, uma base da Marinha na Carolina do Norte, e subrepticiamente fotografada quando saiu do banho e foi buscar o uniforme. Outras imagens terão sido enviadas pelas próprias militares a camaradas com quem mantiveram relações, que depois as partilharam publicamente sem permissão.