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Internacional

Olho por olho: Coreia do Norte impede malaios de saírem do país e Malásia responde na mesma moeda

As autoridades malaias continuam a proteger a morgue do hospital de Kuala Lumpur após um grupo de homens ter tentado roubar o cadáver de Kim Jong-nam

Rahman Roslan

As tensões entre os dois países continuam a aumentar desde que Kim Jong-nam, meio-irmão do líder norte-coreano Kim Jong-un, foi assassinado no aeroporto de Kuala Lumpur a 14 de fevereiro, alegadamente com recurso a uma arma química banida que será produzida nos laboratórios estatais de Pyongyang. Regime norte-coreano continua sem confirmar a identidade da vítima e acusa os malaios de terem “objetivos sinistros” e de estarem a colaborar com a Coreia do Sul

A Coreia do Norte anunciou que, a partir desta terça-feira, os cidadãos malaios no seu território estão temporariamente impedidos de sair do país e a Malásia respondeu com uma proibição semelhante, num adensar das tensões entre os dois países por causa do homicídio de Kim Jong-nam, meio-irmão do líder norte-coreano Kim Jong-un, no aeroporto de Kuala Lumpur, há três semanas.

Esta terça-feira de manhã, a agência estatal norte-coreana KCNA cita um comunicado do Ministério dos Negócios Estrangeiros. onde se anuncia que todos os malaios atualmente na Coreia do Norte "vão ser temporariamente proibidos de abandonarem o país até que o incidente que aconteceu na Malásia seja devidamente resolvido".

O primeiro-ministro malaio Najib Razak classifica a decisão como "um ato aberrante, que corresponde a manter os cidadãos [malaios] reféns" em claro desrespeito da lei internacional. Em comunicado, o chefe do governo refere que vai dar instruções à polícia para que impeça todos os cidadãos norte-coreanos na Malásia de partirem até que a segurança dos malaios na Coreia do Norte esteja assegurada.

No âmbito da investigação ao homicídio de Kim em meados de fevereiro, as autoridade malaias já nomearam sete norte-coreanos suspeitos de envolvimento que a polícia quer interrogar, o que enfureceu Pyongyang. esta terça-feira, o chefe da polícia malaia disse que dois dos suspeitos – um funcionário da companhia aérea estatal norte-coreana e o segundo-secretário da embaixada – convocados a prestar declarações na esquadra não apareceram e que estão escondidos na embaixada norte-coreana em Kuala Lumpur.

Nos últimos três dias, a Coreia do Norte declarou o embaixador malaio persona non grata e a Malásia respondeu com uma atitute semelhante; os dois representantes já foram convocados pelo seu respetivo governo. Kang Chol, o embaixador norte-coreano, é acusado de tentar bloquear a investigação das autoridades malaias e também de querer impedir uma autópsia ao corpo de Kim Jong-nam, depois de um grupo de homens ter tentado roubar o cadáver da morgue do hospital de Kuala Lumpur para onde o corpo foi levado.

A história do homicídio continua envolta em mistério: uma das mulheres detidas poucos dias depois da morte de Kim disse inicialmente que não sabia que estava a envenenar a vítima e que tinha apenas aceitado participar num programa de televisão, a pregar partidas às pessoas que estavam no aeroporto da capital malaia àquela hora. Essa versão foi rejeitada pelas autoridades após terem consultado as imagens do circuito CCTV do aeroporto, que mostram que as duas mulheres que atacaram Kim acorreram imediatamente à casa de banho para lavar as mãos, uma atitude incriminatória para as autoridades malaias.

Análises preliminares à pele da cara de Kim revelaram na semana passada que o meio-irmão do líder norte-coreano terá sido morto com recurso a uma arma química banida pelas convenções internacionais, o agente nervoso VX, que é produzido nos laboratórios estatais norte-coreanos. Especialistas em armas químicas consultados pela "New Scientist" há duas semanas disseram ter dúvidas de que esse agente nervoso tenha sido usado. O VX, aponta a revista, é a substância mais tóxica que é conhecida – apenas 10 miligramas do líquido oleoso em contacto com a pele, menos que uma gota, é letal. Kim demorou algum tempo a demonstrar sintomas após a alegada exposição; e de acordo com imagens das câmaras de segurança do aeroporto de Kuala Lumpur, as pessoas responsáveis pelo ataque não estavam devidamente protegidas e mais ninguém parece ter sido contaminado pelo VX.

A agência estatal da Malásia avança que há nove malaios atualmente na Coreia do Norte impedidos de sair, três funcionários da embaixada do país em Pyongyang e uma família de seis pessoas. A Coreia do Norte continua a acusar a Malásia de ter "objetivos sinistros" com a investigação à morte de Kim e diz que as autoridades do país estão a colaborar com a Coreia do Sul, que já acusou diretamente Pyongyang de ter enviado agentes secretos para Kuala Lumpur a fim de assassinarem o meio-irmão de Kim Jong-un.

Naquele que foi o primeiro comunicado oficial publicado pela KCNA desde o ataque de 14 de fevereiro, o governo da Coreia do Norte acusa a Malásia de violar a lei internacional por conduzir uma autópsia a um homem com passaporte diplomático e por manter o corpo cativo no seu território. Até agora, Pyongyang ainda não confirmou que o morto se trata de Kim Jong-nam, que estava a viajar com um passaporte registado em nome de Kim Chol. "Isto prova que o lado malaio vai politizar a transferência do corpo em absoluto desrespeito pela lei internacional e pela moralidade."