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Mas quais escutas?

O fim de semana foi prolífico em acontecimentos na América de Donald Trump. No Twitter, o Presidente lançou-se em ataques contra Barack Obama por alegadas escutas durante a campanha. Os especialistas foram rápidos a apontar que, com isso, o Presidente só está a incriminar-se na investigação à interferência dos russos nas presidenciais. As tentativas de encobrimento continuam a amontoar-se – falta é apurar qual foi o crime

No domingo à noite, depois de Donald Trump ter comprado uma guerra com Barack Obama por alegadas escutas telefónicas que o antecessor teria ordenado durante a corrida à Casa Branca, a página de Twitter “Tea Pain” publicou uma conversa imaginária e futurista entre um avô e um neto. “Avô, o que é que foi o escândalo Trump-Rússia?”, pergunta a criança. “Foi quando um bando de nacionalistas brancos cometeu traição à pátria e tentou culpar o preto.”

As suspeitas de conluio entre a campanha de Trump e elementos próximos do governo de Vladimir Putin continuam a ganhar forma e a tempestade de tweets lançada pelo Presidente no sábado só veio alimentá-las e dar novos contornos à alegada ingerência russa nas presidenciais de novembro.

Tudo começou com Jeff Sessions, o atual chefe do Departamento da Justiça, que por causa de encontros com o embaixador russo em Washington se viu forçado a retirar-se de “qualquer investigação do FBI, em curso ou futura”, à interferência de Moscovo no processo eleitoral. Assim prometeu o procurador-geral na sexta-feira, sem se demitir do cargo, após ter sido provado que mentiu ao Congresso sobre os contactos com Sergei Kislyak.

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Horas depois, às 3h26 da madrugada de sábado, Trump recorria ao Twitter para defender o homem que nomeou para chefiar a Justiça. “O primeiro encontro de Jeff Sessions com o embaixador russo foi planeado pela administração Obama sob um programa de educação com outros 100 embaixadores……” Às 3h35 acrescentaria: “Terrível! Acabei de descobrir que Obama ordenou escutas à minha pessoa na Torre Trump mesmo antes da vitória. Não encontrou nada. Isto é Macartismo!”, acusou, recorrendo a termo que define a prática de acusar alguém de subversão ou traição sem provas.

Às 3h42: “Última hora: o mesmo embaixador russo que se encontrou com Jeff Sessions visitou Obama na Casa Branca 22 vezes, 4 só no ano passado”. Sete minutos depois: “É legal um Presidente em funções ordenar escutas numa corrida presidencial antes das eleições? […] Um novo nível de baixaria!”. Três minutos depois: “Aposto que um bom advogado conseguia abrir um caso já que o Presidente Obama instalou escutas nos meus telefones em outubro, mesmo antes das eleições!”. Às 4h02: “Quão baixo é que o Presidente Obama desceu ao pôr escutas nos meus telefones durante o sagrado processo eleitoral. Isto é Nixon/Watergate. Um tipo mau (ou demente)!”.

Escutas?

Trump não terá ido à cama nessa madrugada. Embora os tweets sobre a alegada conspiração de Obama tenham ficado por aí, pouco depois das 5h o Presidente voltou à carga mas desta vez o alvo foi outro. “Arnold Schwarzenegger não está a abandonar o The Apprentice voluntariamente, foi despedido por causa dos seus maus ratings (patéticos), não por mim. Um fim triste para um programa incrível.”

A caixa de comentários foi inundada por utilizadores a exigirem ao Presidente que se concentre no que é importante, em vez de desperdiçar tempo a escrever sobre o ator e ex-governador que, até agora, apresentava o reality show que Trump criou há mais de uma década — e que, na semana passada, anunciou que está de saída por causa da falta de interesse dos espectadores, que ele atribui a um movimento de boicote a tudo o que diga respeito ao controverso líder.

Quando o sábado raiou, os funcionários da Casa Branca levaram as mãos às cabeças. Ninguém sabia o que se estava a passar nem onde é que o Presidente foi buscar a ideia de que Obama ordenou escutas à sua torre, denunciaram fontes internas sob anonimato. Demorou pouco até a fonte da “notícia” ser encontrada: a especulação foi feita por Mark Levin, um locutor de rádio conservador e populista, e disseminada pelo Breitbart News, site da “direita alternativa” (extrema-direita) que até agosto era chefiado por Steve Bannon, um homem acusado de xenofobia, sexismo e antissemitismo que Trump nomeou estratega-chefe da Casa Branca e a quem deu um assento na comissão diretora do Conselho de Segurança Nacional (CSN).

Na onda das analogias paridas pelas redes sociais, há uma que tem consistentemente atraído as atenções dos media em que Bannon é comparado a Rasputin, o místico que sussurrava teorias da conspiração aos ouvidos de Nicolau II e que, inadvertidamente, contribuiu para a deposição do czar na revolução russa. Há uma certa ironia no facto de o “escândalo Trump-Rússia” acontecer precisamente 100 anos depois dessa revolução e de haver um homem na Casa Branca sem experiência política que tem um poder de influência inimaginável sobre um Presidente que é comparado aos monarcas da antiguidade, adeptos do nepotismo, alheios à realidade da plebe, apenas interessados em riqueza e poder.

Não se sabe ainda como é que o avô imaginado pelos gestores da página “Tea Pain” vai complexificar o relato sobre o escândalo quando, daqui a algumas décadas, o neto o questionar sobre o assunto. Para já há muitos indícios de algo que o governo quer manter escondido mas que não se sabe o que é. “As novas revelações sobre contactos entre a campanha de Trump e a Rússia podem representar uma ameaça existencial à Casa Branca de Trump”, referia David Corn na “Mother Jones” este fim de semana.

“A alternativa clara para ele e para o seu gangue é negar, arrastar, distrair, mentir. Trump não explica os contactos pré-eleitorais [com Moscovo]; queixa-se das fugas de informação. Resume todo o interesse nesta controvérsia a um ato de vingança dos perdedores que apoiaram Clinton. Diz que a cobertura das ligações russas corresponde a ‘notícias falsas’ e condena os jornalistas que têm investigado a história Flynn como sendo ‘media falsos’. Isto não é chocante. Ele pode não sobreviver se disser toda a verdade. O veneno da tentativa de encobrir [o crime] pode ser menos letal que o veneno do evento em si. Apenas Trump e as pessoas envolvidas podem sabê-lo com certeza.”

Mas quais escutas?

Neste momento sabe-se que pelo menos seis pessoas da administração Trump mantiveram contactos com o embaixador Kislyak, entre elas Sessions, o genro e conselheiro do Presidente, Jared Kushner, e Michael Flynn, o general na reforma que dirigiu o CSN durante 25 dias antes de ser forçado a demitir-se quando foi revelado que se encontrou com o diplomata russo em dezembro para discutir o levantamento das sanções impostas pela administração Obama à Rússia.

Essas sanções foram aprovadas no rescaldo da anexação da Crimeia por Moscovo em março de 2014 e, na semana passada, foi revelado que o advogado de Trump delineou um plano com um deputado ucraniano que diz querer ser o futuro Trump do seu país para acabar com elas exercendo pressão sobre o governo de Petro Poroshenko para que aceite que a península agora integra o território russo. Há muitas nuances no “escândalo Trump-Rússia” e isto ainda agora começou.

Mas qual é afinal o problema de conversar com o embaixador russo? A pergunta foi colocada pela “New Yorker” no sábado, num artigo que inclui declarações interessantes de Michael McFaul, ex-conselheiro de Obama para as relações com Moscovo. “Quando eu era embaixador dos EUA na Rússia, o governo russo desencorajava as pessoas que não integravam o governo de se encontrarem comigo e quando havia encontros com alguém definido como opositor isso merecia páginas inteiras de notícias terríveis e loucas sobre como eu estava a meter-me nos assuntos internos do país.” McFaul reconhece que a quantidade de contactos da campanha Trump com os russos foi superior aos seus enquanto conselheiro de Obama durante a campanha de 2008 mas diz que, acima de tudo, estranho é que a equipa do Presidente continue a mentir sobre eles e a tentar ocultá-los. “Para mim não faz qualquer sentido.”

Como aponta a revista, “as conversas entre representantes de Trump e Sergei Kislyak foram ocultadas, mas até ver só temos uma tentativa de encobrimento sem um crime”. O que sabe é que Obama nunca poderia ordenar escutas a um candidato presidencial só porque sim: para vigiar alguém, um Presidente precisa da autorização do tribunal FISA, criado em 1978 sob a Lei de Vigilância Secreta Estrangeira; se tivesse havido escutas a Trump, isso quereria dizer que o FISA suspeitou de algum crime. Tanto o porta-voz de Obama como James Clapper, o homem que chefiava as agências de espionagem norte-americanas à data, já desmentiram a teoria.

É por isso que muitos estão convencidos que Trump acabou a incriminar-se. Há quem goze com a situação como o “Tea Pain” e John Favreau, o homem que escrevia os discursos do ex-Presidente e que, no Twitter, apresentou o “grande plano de Barack Obama”: “1) ordenar escutas à oposição; 2) reunir informações prejudiciais; 3) ficar calado; 4) deixá-lo ganhar; 5) cavalgar em direção ao pôr-do-sol”.

Outros há a vaticinar que este escândalo-mistério pode virar-se contra Trump. O Presidente dos EUA já ordenou ao Congresso que investigue as escutas de Obama e o seu porta-voz já garantiu que ninguém do governo vai voltar a falar do caso até esse inquérito estar concluído. A realidade dos factos aponta que as conclusões de um outro inquérito, aquele que democratas e republicanos já aceitaram abrir à alegada ingerência russa nas presidenciais, vão ser muito mais interessantes.

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