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Sánchez volta e quer guinar à esquerda

Susana Vera / Reuters

O ex-líder do PSOE concorre às eleições internas de maio e propõe alianças com o Podemos

Pedro Sánchez quer voltar a dirigir o Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE). Forçado a demitir-se de secretário-geral numa tumultuosa sessão do comité federal, a 1 de outubro de 2016, Sánchez desmentiu os adversários internos, que o davam como morto, e renasceu das cinzas.

O ex-líder sempre esteve contra a decisão socialista de facilitar, através da abstenção, a investidura de Mariano Rajoy (Partido Popular, direita) como primeiro-ministro, pondo fim a um ano de crise política. Demitiu-se quando o PSOE optou por essa via, mas regressa para as primárias marcadas para maio, antes do decisivo congresso nacional.

Os seus colaboradores mais próximos asseguram que volta mais maduro, formado e seguro, decidido a defender uma opção de esquerda que reivindique os valores clássicos da social-democracia europeia. Também aspira a sarar as graves divisões do PSOE. Os seus primeiros comícios mostram que Sánchez continua a contar com o apoio de amplos sectores da militância socialista.

Outro aspirante a secretário-geral é Patxi López. Foi lehendakari (presidente do governo regional do País Basco) entre 2009 e 2012 e presidente do Congresso dos Deputados em 2016. Nos próximos dias deve avançar Susana Díaz, líder do governo regional da Andaluzia e “esperança branca” (moderada, face aos “vermelhos”) de muitos adeptos do PSOE.

Na senda de Costa

Sánchez parece convencido de que a decadência da social-democracia na Europa se deve à ausência de respostas radicais às políticas neoliberais de inúmeros governos, incluindo alguns que se dizem “progressistas”. Também critica a acomodação do centro-esquerda à voracidade com que o capitalismo reagiu à mais grave crise económica europeia dos últimos 80 anos.

O ex-líder adota o tom que vão assumindo, timidamente, dirigentes socialistas que querem governar os seus países. O alemão Martin Schulz, o francês Benoît Hamon e o italiano Gianni Pittella procuram ser verdadeiras alternativas, com uma mensagem renovada e mais à esquerda. Há que somar a estes nomes a experiência portuguesa, bem-sucedida até à data: uma aliança de esquerda, impensável há dois ou três anos, sustenta o Governo de António Costa e dá um exemplo de convivência entre socialistas, comunistas e populistas radicais.

Até no Reino Unido, um Tony Blair que parece pedir perdão pelos pecados neoliberais do passado apela, agora, à recuperação dos valores clássicos da social-democracia, encabeçando um movimento (com fracas hipóteses, reconheça-se) para reverter a decisão britânica de abandonar a União Europeia.

Muitos destes políticos consideram que vivemos uma hora decisiva para travar a ascensão do populismo xenófobo e de extrema-direita, visível em França (Marine Le Pen), Holanda (Geert Wilders), Áustria (Norbert Hoffer), Alemanha (Frauke Petry), Reino Unido (Nigel Farage) e Itália (Matteo Salvani). A perda de votos socialistas nalguns destes países foi vertiginosa entre 1989 e 2016: na Grécia, 86,9%; na Alemanha, 40,01%; em Espanha, 53%; na Suécia, 32%; em França, 19,5%; no Reino Unido, 29,5%. Em paralelo, a extrema-direita cresce em todo o continente, com as exceções de Portugal e Espanha.

A nova visão de Sánchez inclui alianças com outros partidos de esquerda. Um novo PSOE dirigido pelo secretário-geral ressurrecto teceria acordos com o Podemos (P’s, esquerda populista). Foi por insistir nessa via que Sánchez se viu apeado há cinco meses.

Manuel Escudero, dirigente histórico do PSOE transformado em principal assessor de Sánchez, reconhece: “Só conseguiremos derrotar à direita na medida em que pudermos entender-nos com a nova esquerda”. Não fala sozinho. Pablo Iglesias, reeleito e reforçado como líder do P’s num recente congresso, afirmou há dias: “A única possibilidade de governarmos é entendermo-nos com o PSOE”.