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Dois “erros”, um pedido de desculpa e uma questão: “Estaremos nós sozinhos?”

PHILIPPE WOJAZER/REUTERS

No comício deste domingo em Paris, François Fillon, o candidato da direita às eleições presidenciais francesas, assumiu ter cometido “erros”, deu a entender que não ia desistir e pediu aos seus apoiantes para também não desistirem. Partido republicano francês deverá, no entanto, reunir-se na próxima segunda-feira para discutir a sua eventual substituição

Helena Bento

Jornalista

No comício mais decisivo desde o início da sua corrida às eleições presidenciais francesas, François Fillon, o candidato da direita que está a ser investigado pelo alegado uso de fundos parlamentares para pagar à mulher e a dois filhos por empregos fictícios, deu a entender, mais uma vez, que não vai desistir, mas admitiu ter cometido dois “erros”. “Pedi à minha mulher para trabalhar para mim porque ela conhece o terreno, porque era conveniente... Não deveria tê-lo feito”. Esse foi o primeiro “erro”. O segundo foi “ter hesitado na hora de falar aos franceses sobre esta situação”.

“Sei bem, creiam-me, qual é a minha parte de responsabilidade nesta provação. Além das traições, do calendário judicial, da campanha de difamação, é culpa minha que este projeto (...), em que vocês acreditam, se depare com tantas dificuldades”, referiu Fillon. O candidato da direita às presidenciais, que nos últimos dias viu centenas de apoiantes retirarem-lhe o seu apoio por causa do escândalo dos empregos fictícios (são já mais de 300 deserções, entre políticos próximos de Bruno Le Maire, seu antigo assessor e primeiro a abandonar a candidatura, de Alain Juppé e de Nicolas Sarkozy, de acordo com o contador que o jornal francês “Libération” tem disponível no seu site), garantira na sexta-feira, de acordo com uma fonte próxima do candidato, citada pelo “Politico”, que iria abandonar a corrida ao cargo caso não sentisse, no comício deste domingo, na praça do Trocadero, em Paris, apoio e força suficientes por parte dos seus apoiantes.

Ainda não é claro se os terá, mesmo que no comício se tenham ouvido muitas palavras de apoio. “Fillon, continua, a França precisa de ti”, gritavam alguns apoiantes. Uma mulher que se levantou às seis da manhã deste domingo para viajar para Paris, vinda da região este do país, disse aos jornalistas que acredita em Fillon, “que de todos os candidatos é o que tem o melhor programa político”. Outro apoiante do candidato da direita, citado pelo “The Guardian”, disse não estar preocupado “com o que Fillon fez” e que o candidato da direita nem sequer precisa de “pedir desculpa”. “Não a mim, pelo menos”, disse.

Num comício “em que estiveram presentes dezenas de milhares de pessoas, muitas delas com bandeiras tricolores em punho”, segundo descreveu a BBC, François Fillon não só pediu desculpa aos seus apoiantes, como deixou algumas palavras de desafio. “Eles pensam que eu estou sozinho. Eles querem que eu esteja sozinho. Estaremos nós sozinhos?”, questionou Fillon. “Eles atacaram-me em todo o lado e eu devo, em consciência, ouvir-vos, ouvir esta imensa multidão a gritar por mim. Mas eu devo também questionar-me a mim próprio sobre aqueles que duvidaram e decidiram abandonar o barco. Eles têm uma responsabilidade imensa, tal como eu”, acrescentou o candidato.

“Mesmo que as acusações contra mim sejam injustas, revoltantes e abusivas”, disse ainda Fillon, “devo pedir desculpa por ter defender a minha honra e a honra da minha mulher quando, para vocês, o importante é que eu defenda o meu país”. “O meu exame de consciência já está feito. E, acreditem em mim, não desejo a ninguém que o faça nestas circunstâncias. Peço agora a cada membro da minha família política para fazer o seu próprio exame de consciência”.

Penelope Fillon admite ter trabalhado para o marido

Numa entrevista publicada este domingo pelo “Journal du Dimanche”, Penelope Fillon admitiu ter trabalhado para o marido, desempenhando “diferentes tarefas”, todas elas “legais e declaradas”.

“O meu trabalho era ajudá-lo na relação com as pessoas. O meu marido precisava de alguém. Se não tivesse sido eu, ele teria pago a outra pessoa para o fazer. Por isso decidimos que seria eu”, esclareceu Penelope, enumerando depois as “diferentes tarefas” que então desempenhava: “Tratava do correio com a secretária. Preparava para notas e fichas sobre as manifestações locais, para que ele pudesse, a partir destas notas, escrever os seus discursos. Fazia-lhe também uma espécie de revista de imprensa local. Representava-o nas manifestações. Relia os discursos dele”.

Sondagem: 71% dos franceses não quer que Fillon mantenha a sua candidatura

Segundo uma sondagem do Instituto Francês de Opinião Pública (IFOP) divulgada este domingo, 71% dos franceses não deseja que François Fillon mantenha a sua candidatura às presidenciais. O comité político do partido Os republicanos deve reunir-se na segunda-feira para avaliar a situação e discutir a eventual substituição do candidato.

Uma sondagem divulgada na sexta-feira indica que Alain Juppé - que há dias, pela primeira vez, ter-se-á mostrado disponível para avançar com uma nova candidatura caso Fillon desista - venceria a primeira volta das presidenciais francesas e poderia afastar a candidata da extrema-direita Marine Le Pen da segunda volta. O estudo de opinião, realizado pelo instituto Odoxa para a France 2, concluiu que Juppé, ex-primeiro-ministro e atual presidente da câmara de Bordéus, reuniria 26,5% das intenções de voto, o centrista independente Emmanuel Macron 25% e Marine Le Pen 24%. Segundo a mesma sondagem, se Fillon mantiver a candidatura será eliminado na primeira volta, com 19% das intenções de voto, atrás de Macron (27%), que surge pela primeira vez em primeiro lugar, e de Le Pen (25,5%).

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