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Brexit Blues

foto Luke MacGregor/Bloomberg

A poucas semanas do início do processo formal de saída da União Europeia, uma viagem à Inglaterra real. Uma Inglaterra xenófoba, insular e desafiadora, que não se arrepende de ter votado ‘Brexit’

Paulo Anunciação

Paulo Anunciação

em Londres

Correspondente em Londres

Os guias turísticos das ilhas britânicas ignoram a estância balnear de Canvey Island e percebe-se porquê. Aparentemente, este pedaço do condado de Essex, a cerca de meia centena de quilómetros de Londres, foi um dos destinos de verão preferidos dos londrinos na primeira metade do século XX. Mas depois das grandes cheias de 1953 — que causaram a morte de 58 pessoas, encurraladas nas suas casas —, Canvey Island não recuperou. Hoje em dia, o passeio à beira-mar, com vistas sobre o enorme estuário do Tamisa e os tanques da indústria petroquímica que ocupam uma das extremidades da ilha, está cavado entre um muro alto (de defesa contra as marés) e uma praia com alguns centímetros de areia, muitas algas, excremento de cão, pedregulhos e água suja.

A ilha, separada do resto do Essex por uma rede de pequenos riachos, já conheceu dias melhores. Na avenida Eastern Esplanade, ao longo da costa, os turistas podem visitar casinos rascas, clubes de bilhar e outras diversões. Bebem cerveja num pub malcheiroso e a precisar de renovação, comem pie and mash (empada com puré de batata) ou fish and chips, a posta de peixe com uma cobertura grossa e oleosa de fritura que constitui há décadas o centro da gastronomia popular da Inglaterra. Os visitantes devem ser tão raros que o parque de estacionamento não custa mais do que duas libras (2,35 euros) por um dia inteiro.
Canvey Island tem uma população de 38 mil pessoas e pouquíssima diversidade religiosa, étnica ou cultural. Mais de 98% dos habitantes são brancos e britânicos, muitos deles antigos residentes da zona Leste de Londres. Nos parques de rulotes e caravanas e nas casas pouco atraentes da terra, muitas delas com barras nas janelas, veem-se bandeiras com as cruzes de São Jorge da Inglaterra. A ilha faz parte de Castle Point, o distrito — de acordo com o ONS, o Instituto Nacional de Estatística britânico — “mais etnicamente inglês” do Reino Unido, com uma percentagem de forasteiros muitíssimo abaixo da média nacional. A Inglaterra em estado puro.

Canvey Island foi, também, um dos bastiões da vitória do ‘Brexit’ no referendo do passado dia 23 de junho. Quase 73% dos eleitores que se deslocaram às mesas de sufrágio votaram a favor da saída da União Europeia. Esta percentagem registada em Canvey Island (72,7%) foi mesmo a terceira maior em todo o país, apenas batida por Boston (75,6%) e South Holland (73,6%), dois distritos no condado de Lincolnshire que nos últimos anos receberam um influxo muito significativo de imigrantes provenientes da UE (sobretudo da Polónia).
Ao contrário destes, porém, Canvey Island praticamente não tem imigrantes. Na ilha mais inglesa das ilhas britânicas, a votação em massa no ‘Brexit’ foi movida, sobretudo, pelo medo do estrangeiro. “O referendo foi sobre a devolução da Inglaterra aos ingleses, foi sobre deixar de receber ordens de estrangeiros que vivem em países estrangeiros”, diz Craig Layton, de 72 anos, residente na ilha há mais de quatro décadas. “Votei [pelo ‘Brexit’] e não me arrependo. Os reformados neste país estão a ser maltratados e a maior parte dos problemas tem que ver com a imigração.” Sentado ao seu lado, numa mesa do “Lobster Smack” — um pub simpático onde aparentemente Charles Dickens terá escrito algumas páginas de “Grandes Esperanças”, no século XIX —, Paul Stacey, de 55 anos, alinha pelo mesmo tom: “Tenho orgulho no meu país e na escolha que foi tomada no referendo. Votei ‘Brexit’ porque estou farto de ver o meu país a receber a toda a hora leis e regulamentos do estrangeiro. E a imigração tem de acabar!” Clare Pharro, uma mulher de 62 anos, junta-se à conversa: “Porque será que eles [estrangeiros] querem todos vir para cá? Eles querem os nossos ordenados e as nossas pensões. E nós somos demasiado brandos.”

Nas décadas de 80 e 90 do século passado, Antony Miall, autor de uma série de livros divertidos sobre a sociedade e a cultura da Inglaterra, descreveu a xenofobia como o “desporto nacional inglês” e “expressão cultural mais vincada do país”. E existe uma razão para esse facto, escreveu ele. “Os ingleses têm uma desconfiança natural por tudo o que seja estranho ou desconhecido. Eles estão convencidos de que as coisas melhores da vida tiveram origem (ou, pelo menos, foram melhoradas) na Inglaterra. No que diz respeito aos ingleses, todos os problemas mais graves da vida podem ser justificados com uma única palavra: estrangeiros.” Se fosse vivo, Miall iria gostar de Canvey Island.

Medo do medo

Na Furtherwick Road, uma das ruas principais da ilha, apertado entre as lojas Poundland (onde tudo custa apenas uma libra), dos fish and chips e das casas de apostas, de tatuagens ou de penhor, o restaurante Douro Valley parece estar completamente dessintonizado com a vizinhança. A casa tem colunas de estilo clássico, um menu sofisticado, toalhas de linho e enormes fotografias, a preto e branco, do rio Douro. O dono, Luís Pereira, é um português de 49 anos que vive em Canvey Island desde 1990, praticamente sem interrupção. A comunidade portuguesa, com cerca de uma centena de pessoas, é uma das mais numerosas entre os (poucos) estrangeiros que vivem na ilha. Tal como a família Pereira, eles trabalham quase todos em restaurantes ou em lojas de fish and chips. O resultado do referendo não foi uma surpresa. “A campanha a favor [da manutenção na UE] foi muito mal conduzida, com muitas mensagens negativas e a tentar meter medo. Os ingleses não gostam disso. Mas eu já estava à espera da vitória do ‘Brexit’”, diz Luís Pereira. “Os ingleses têm uma mentalidade muito xenófoba e racista. Uma vez, perguntei a um cliente o que faria se uma mulher estrangeira lhe batesse à porta a pedir pão porque estava a morrer de fome. Ele respondeu-me: ‘Não dava pão, não ajudava, mandava-a embora e dizia-lhe que o país dela é que tem de a ajudar!’ Fiquei chocado, mas na realidade pouco surpreendido”, diz ainda Luís Pereira. O cliente nunca mais voltou ao Douro Valley.

Divórcio. Apesar das juras de amor eterno, a Grã-Bretanha vai abandonar a União Europeia

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foto JORG CARSTENSEN/AFP/Getty Images

Têm sido apontadas as razões mais variadas para a vitória do ‘Brexit’ no referendo de junho. A Inglaterra tem mais ou menos 85% da população do Reino Unido e o sentimento antieuropeu é dominante no país (na Escócia e na Irlanda do Norte, esse sentimento é minoritário). Populistas demagogos como Nigel Farage, antigo líder do partido nacionalista UKIP, ajudados pelas primeiras páginas sensacionalistas da imprensa tabloide, passaram com muita eficácia uma mensagem simples: a soberania, a independência, os valores e a identidade da Inglaterra estavam a ser colocadas em risco pelo influxo descontrolado de imigrantes e pela subordinação aos burocratas de Bruxelas. Quem lesse jornais como o “Daily Mail” ou o “Daily Express” nos meses que antecederam o voto, ficaria convencido de que todos os males da Inglaterra — ou, talvez, todos os males do mundo — tinham origem na UE.

Orgulho e nostalgia

Houve quem votasse a favor do ‘Brexit’ por acreditar, talvez, no slogan principal da campanha: uma promessa demagógica de transferir para o debilitado NHS, o serviço público de saúde, as contribuições britânicas atualmente enviadas para Bruxelas (350 milhões de libras por semana, ou seja, 410 milhões de euros ao câmbio atual). Outros votaram, simplesmente, por ter uma aversão profunda a David Cameron, o primeiro-ministro que com um misto de imprudência e arrogância anunciou, em 2013, a realização deste referendo cujo objetivo principal era arrumar com uma questão interna antiga, uma maçadora pedra no sapato que continuava a dividir as fileiras do Partido Conservador (a derrota no referendo acabaria por custar-lhe a carreira). Muitos votos, na província, foram simples votos de protesto contra as elites de Londres ou contra o centralismo da política ditada a partir dos gabinetes da capital.

Todos estes fatores terão tido alguma influência, mas, no final, a vitória do ‘Brexit’ — fundada sobretudo nos votos recolhidos nos distritos não metropolitanos da Inglaterra — envolveu um misto de orgulho nacional e de nostalgia pelo passado. Um sentimento de que algo precioso estava a ser destruído com a entrada em massa de imigrantes de outros países da UE — que podem entrar no país livremente, sem necessidade de visto — e que vêm viver e trabalhar para a Inglaterra, atraídos pelo mercado de trabalho e pela economia pujante. Mais de 800 mil polacos vivem no Reino Unido. O país acolhe igualmente comunidades significativas de cidadãos da Roménia, Portugal, Lituânia, Itália e França (com cerca de 200 mil imigrantes cada). “A partir de certa altura, o debate centrou-se mais em emoções do que em factos. A campanha praticamente deixou de ser sobre a Europa”, explicou o historiador Robert Tombs, professor do St. John’s College (Universidade de Cambridge) e autor do livro “The English and Their History”. “[A campanha] Passou a ser unicamente sobre nós, ingleses, e sobre a identidade nacional inglesa. Criou-se uma convicção muito forte de que os cidadãos têm o direito de tomar decisões e de não ser comandados por uma elite e, sobretudo, têm o direito de não receber ordens de estrangeiros.”

Para a família de Luís Pereira (mulher, quatro filhos, irmão, cunhado, primos e sobrinhos — ao todo, cerca de 30 portugueses), o futuro nas ilhas britânicas é uma incógnita. A Câmara dos Lordes deverá aprovar até ao final do mês (ou já no início de março) a “Brexit Bill”, a lei previamente votada e aprovada por larga maioria na Câmara dos Comuns. A primeira-ministra Theresa May poderá então ativar o artigo 50º do Tratado de Lisboa e desencadear o processo formal de saída da União Europeia. May afirmou que o pedido será apresentado até ao final de março, mas é provável que aconteça em meados do mês. Só depois desse pedido começarão as negociações entre o Reino Unido e o bloco dos restantes 27 países da UE.

As mensagens passadas pelos membros do Governo britânico relativamente ao futuro dos imigrantes europeus têm sido ambíguas e por vezes contraditórias. Theresa May nada fez para eliminar a incerteza relativamente aos direitos futuros dos residentes — como a família Pereira — oriundos de países da UE. O Reino Unido tem cerca de 3,3 milhões de imigrantes com passaporte europeu. Cerca de 1,2 milhões de britânicos, por outro lado, vivem em Espanha, na França ou num dos restantes países da União. Esta pasta muito sensível será certamente usada como moeda de troca na mesa de negociações das futuras relações comerciais com a UE.

O resultado do referendo levou alguns imigrantes a fazer as malas e voltar aos países de origem. Nos últimos meses multiplicaram-se os casos de racismo e xenofobia contra os europeus, algo que não era habitual (os incidentes antissemitas, por sua vez, aumentaram mais de 36% em 2016). O edifício da Associação Social e Cultural Polaca, em Hammersmith, na zona Oeste de Londres, por exemplo, foi coberto com graffiti com frases como “Go home!” (Vão para casa!). Os jornais de bairro noticiam incidentes frequentes, como o de um alemão, banqueiro na City, que em janeiro se queixou do facto de os filhos serem insultados na escola e apelidados de “nazis”, ou simplesmente “continentais”. Na primeira linha das agressões e insultos xenófobos, no entanto, estão os polacos, romenos e búlgaros, acusados durante a campanha do referendo de serem um fardo para os serviços públicos e de ocuparem demasiado espaço no mercado de trabalho.

Processo longo e complicado

Milhares de imigrantes, como a lisboeta Filipa Jesus, não querem esperar pelo desfecho da negociação do ‘Brexit’ e tentam regularizar, de imediato, a situação através da obtenção de um cartão de residência permanente no Reino Unido. O processo é extremamente longo e complicado. Inclui o preenchimento de 85 páginas de documentação e a apresentação de recibos, faturas, bilhetes de avião e outra papelada que prove a residência efetiva há pelo menos cinco anos. “Comecei a pensar nisto logo em julho, depois do referendo”, diz Filipa, que trabalha em marketing e gosta de partilhar as suas experiências londrinas no blogue popular “Tuga”, em Londres. “Tenho náuseas só de pensar no tempo que vou perder com isto, mas tenho náuseas ainda maiores quando penso na possibilidade de o Estado britânico não conseguir fazer uma acordo favorável com a UE que permita aos atuais residentes europeus no Reino Unido permanecerem no país sem outras burocracias, que poderão ser ainda mais difíceis de ultrapassar.”

O prazo previsto nos tratados para negociar a saída de um país é de dois anos e começará a correr logo que Londres invoque o Artigo 50º. Mas Bruxelas calcula que na verdade não haverá mais do que 18 meses de negociações reais — até outubro de 2018, provavelmente — de forma a que haja tempo de sobra para a ratificação do eventual acordo pelo parlamento europeu e também pelos parlamentos nacionais do Reino Unido e dos restantes 27 membros da UE. Este calendário apertado junta-se à enorme complexidade técnica das negociações e aos entraves e às limitações provocados por um diabólico ciclo eleitoral — o ano de 2017 inclui sufrágios na Holanda, França e Alemanha — que poderão atrasar o processo de divórcio.

E se não for possível chegar a um acordo? No mês passado, a primeira-ministra Theresa May tentou explicar as ideias básicas da posição do seu governo. Tal como num jogo de póquer, o discurso dela não destapou muita coisa. Londres renuncia ao mercado único e desdenha a união aduaneira, mas ao mesmo tempo pede um acordo de cooperação nesta matéria. Não aceita a livre circulação de pessoas, mas propõe acordos por sectores (para a indústria automóvel, por exemplo). May exigiu uma “separação por etapas”, de forma a evitar um ‘Brexit’ traumático. Mas deixou no ar a possibilidade de não se chegar a qualquer acordo, insinuando, inclusive, que nesse caso converteria o Reino Unido num paraíso fiscal.

Oito meses depois da vitória do ‘Brexit’, as consequências económicas e políticas da decisão ainda não são claras nem podem ser quantificadas, embora se saiba que na sua maioria serão negativas. Grande parte dos receios em torno da deserção britânica centram-se no sector financeiro. Em especial na City londrina, a primeira praça financeira do mundo, onde trabalham 730 mil pessoas, muitas delas estrangeiras. A City é o principal centro de inovação financeira da UE, capital mundial da negociação em euros e porta de entrada, na Europa, para as principais firmas mundiais extracomunitárias. Essa posição privilegiada poderá ser posta em causa pelo ‘Brexit’. Bancos como o Goldman Sachs, Citibank, J.P. Morgan ou HSBC deixaram bem claro que largos sectores de negócio — bem como grande parte dos executivos de topo — trocarão Londres por outra sede europeia caso a City perca o passaporte europeu.

Divórcio II. Os habitantes de Canvey Island — um dos principais bastiões do ‘Brexit’ — olham agora para o muro que ajudaram a construir

Divórcio II. Os habitantes de Canvey Island — um dos principais bastiões do ‘Brexit’ — olham agora para o muro que ajudaram a construir

foto Peter Macdiarmid/Getty Images

A libra, por outro lado, caiu de forma acentuada desde junho, atingindo em novembro passado o nível mais baixo das últimas três décadas. A desvalorização terá impacto na inflação prevista para 2017 (2,3%) e 2018 (2,5%). “Provavelmente, a queda acentuada da libra será uma tendência duradoura, tendo em conta o impacto e a incerteza que ainda rodeiam o ‘Brexit’”, diz o professor Andrew Scott, da London School of Economics. “A desvalorização encarece as importações e aumentará a inflação no país. O custo de vida [no Reino Unido] vai aumentar e isso vai afetar, obviamente, os consumidores, que renunciarão a muitos produtos importados.”

Os consumidores, aparentemente, ainda não mudaram grandemente os seus hábitos de compra. A economia britânica parece ter resistido ao impacto inicial do referendo e cresceu mais de dois por cento em 2016, muito acima das previsões. Mas 2017 será diferente. Os empresários estão a reagir ao ambiente de incerteza e adiam ou cancelam investimentos. Nos últimos meses, várias empresas — como a Microsoft, Coca-Cola, Peugeot, Apple, Electrolux, Lego, entre outras — anunciaram aumentos de preços. Num país como o Reino Unido — que produz apenas 60% dos produtos alimentares que consome (e apenas 15% da fruta que come) —, é inevitável que a queda da libra tenha repercussões nos hábitos alimentares e na economia doméstica dos britânicos. Algumas marcas procuram soluções alternativas, como a Toblerone, que preferiu não mexer nos preços e reduziu, em vez disso, o peso das barras de chocolate (de 400 para 360 gramas, por exemplo).

A iminente subida generalizada dos preços desencadeou uma reação alarmada, quase histérica, quando uma guerra entre a cadeia de supermercados Tesco e a gigante anglo-holandesa Unilever — que exigia uma revisão em alta dos preços, por causa da desvalorização — levou à retirada temporária de vários produtos, incluindo os míticos frasquinhos de Marmite — uma geleia de extrato de levedura, pegajosa, castanha, com um odor potente e sabor indescritível que é uma verdadeira instituição nacional. Se os ingleses soubessem que a Marmite estaria em risco, o ‘Brexit’ nunca teria saído vencedor no referendo de 2016.