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“As crianças do pecado”: descoberta de uma vala comum em antigo orfanato irlandês

AIDAN CRAWLEY/ EPA

Numa vala comum foi descoberta “uma quantidade significativa” de restos mortais de crianças. Todas elas tinham menos de três anos. Eram órfãs ou então filhos e filhas de mulheres solteiras. Estavam numa casa de freiras. Na escola, tinham um tratamento diferente. Não se sabe ao certo quantas crianças foram enterradas na vala comum, estima-se que possam ser perto de 800

Eram conhecidas como as “crianças do pecado”. Algumas não tinham pais. Outras eram filhos de mães solteiras. Em comum, tinham o facto de terem vivido na Mother and Baby Home, um orfanato gerido pela congregação de freiras Bon Secours, que funcionou na cidade de Tuam, na Irlanda, entre 1925 e 1961. Mais de 50 anos depois, foi descoberta uma vala comum no local onde funcionou a instituição. Foram encontrados os restos mortais de centenas de meninos e meninas com menos de três anos. Embora os números ainda não sejam certos, estima-se que sejam 796.

“Nas escavações encontrámos duas grandes estruturas. Uma parece ser um grande sistema de contenção de esgoto ou então um fossa sética que foi desativada, enchida com entulho e, em seguida, coberta com terra. A segunda estrutura é longa e dividida em 20 compartimentos, mas parece estar relacionada com o tratamento/contenção de esgotos ou água”, informou na sexta-feira a Comissão de Investigação, que ainda não conseguiu determinar ao certo qual a função do local.

Foi na segunda estrutura, “nos últimos 17 compartimentos”, que foram encontrados os restos mortais de bebés e crianças com idades compreendidas entre as 35 semanas de gestação e os três anos. A maioria será dos anos 50 do século passado.

“Estas são notícias muito tristes e perturbadoras. Não é totalmente inesperado, porque ao longo dos últimos anos ouviam-se burburinhos sobre restos mortais enterrados no local. Havia rumores. Agora, temos a confirmação que os restos humanos estão lá e que estão datados do período em que a Mother and Baby Home funcionavam em Tuam, entre 1925 e 1961”, confirmou Katherine Zappone, ministra da Infância e Juventude da Irlanda.

Embora não sejam conhecidas as razões da morte destas crianças, existe um relatório governamental, datado de 1944, que descreve que algumas das 271 crianças que ali viviam na época mostravam sinais de má nutrição.

AIDAN CRAWLEY/ Reuters

Na primeira metade do século passado, a Irlanda atingiu recordes na taxa de mortalidade infantil, principalmente devido à tuberculose. Entre as causas da morte, estavam ainda outras doenças, mal formações e o nascimento prematuro.

Naquela época, os bebés eram muitas vezes deixados à porta da instituição. Uns era dados para adoção, outros ficavam ao cuidado das freiras. Era também em orfanatos como este que muitas mães solteiras pediam apoio.

Hoje, Kevin O’Dwyer está reformado. Trabalhou no ensino toda a vida. Lembra-se bem dos tempos em que era menino e das crianças do orfanato, que nunca podiam chegar à escola ao mesmo tempo que os colegas. Eram forçadas a atrasarem-se para não se misturarem e, por chegarem tarde, eram também castigadas.

“Por volta dos seis ou sete anos, eram mandadas embora. Iam para lares de acolhimento ou eram enviadas para escolas industriais. Eram olhadas como as crianças do pecado”, recordou o antigo colega, citado pelo “The Irish Times”.

No recreio, havia uma área exclusiva para os meninos do orfanato, que usavam “obrigatoriamente um uniforme” que mais ninguém vestia. “Nunca chegámos a saber os seus nomes”, lamentou Kevin O’Dwyer.

“Estava tudo escondido e esquecido”

A revelação vem confirmar as suspeitas com décadas de que um grande número de crianças que morreram na instituição foram enterradas no local sem qualquer identificação. Esta era uma prática relativamente comum.

Em 2013, algumas pessoas interessadas em História juntaram dinheiro para fazer um pequeno memorial no local. Apesar dos rumores, não havia confirmação de que realmente estavam ali pessoas enterradas. Só no ano seguinte, a historiadora Catherine Corless tornou pública a sua investigação: descobriu o certificado de óbito de 798 crianças, mas nenhuma delas tinha sido enterrada no cemitério da cidade. Os corpos estavam desaparecidos.

“Perguntaram-me o que estava a fazer. Disseram-me que já tinha sido há muito tempo. Para esquecer e que já não interessava”, contou ao jornal “The Guardian” a historiadora, atualmente com 62 anos. “Estou aliviada pelo resultado da investigação. Poderia não ter dado em nada. Poderia ter sido encoberto tal como foi nos anos 70, quando esta investigação deveria acontecido. Nessa altura, a Câmara Municipal sabia que havia restos mortais, as autoridades sabiam, as ordens religiosas sabiam. Estava tudo agradavelmente escondido e esquecido”, acusou.

Stringer/ Reuters

A mãe de Catherine Corless foi uma das crianças que sobreviveu a uma infância naquela casa. Segundo a investigação, mais restos morais podem ainda não ter sido descobertos. “Toda aquela área precisa de ser escavada”, defendeu.

Em 2014, quando a investigação foi tornada pública, a congregação negou que naquele local houvesse material de investigação. Numa carta enviada nessa altura para a France 2, que tentou entrar em contacto para realizar um documentário, Terry Prone, relações públicas responsável pela comunicação da congregação, assegurou que não seria encontrada nenhuma vala comum.

“Várias televisões internacionais cancelaram os planos de fazerem documentários aqui porque, essencialmente, o que podemos dizer é que na primeira metade do século XX, a Irlanda era um país moralista, egocêntrico, antifeminista e exageradamente religioso”, lê-se no documento.

Após a Comissão de Investigação ter revelado as descobertas, esta sexta-feira, Prone sublinhou que agora há muitos mais dados do que havia quando escreveu a carta. Em declarações à rádio pública irlandesa, a RTÉ admitiu estar fascinada com o tom do comunicado dos investigadores.

“Ninguém esperava os números que foram revelados. Claramente houve um enterro extensivo”, comentou. “Tenho algumas questões. Do que é que morreram? Foi má nutrição, foi falta de cuidado? O que é que matou as crianças?”, acrescentou, perguntando ainda se o número de crianças que morreram naquela casa era desproporcional ao número de bebés e crianças que morreram, naquela época, no geral.

Nas décadas de 30 e 40 do século passado, segundo o “Irish Times”, a taxa de mortalidade infantil em casas de acolhimento aumentou entre 30% e 50%. A Comissão de Investigação criada em 2015 pelo Governo está a investigar denúncias de abusos em 14 instituições em quatro cidades, entre 1922 e 1998. O relatório final deverá ser publicado no próximo ano.