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Uma fuga espetacular: a história que pode inspirar o mundo num tempo de desunião

Ellen e William: quando precisar de se sentir forte nos dias em que a força falhar, pense na história destes dois. Ellen e William: quando se sentir angustiado nos dias em que a angústia prevalecer, pense na história destes dois

A data estava marcada: 21 de dezembro de 1848, poucos dias antes do Natal e a altura perfeita para se poderem ausentar por alguns dias. No dia anterior, William Craft cortou o cabelo da mulher, Ellen, bem curto, como se de um homem se tratasse. Depois, ela vestiu as calças de modelo masculino que tinha cosido e colocou o braço ao peito, como se estivesse magoada, e ligaduras no rosto, tapando as suas feições. Estavam prontos para embarcar no que provavelmente seria a maior aventura das suas vidas: a fuga à escravatura.

A história de William e Ellen Craft, dois escravos negros no sul dos Estados Unidos que conseguiram escapar aos seus “donos” graças a um intrincado plano de fuga, é uma das mais conhecidas histórias de libertação daquela época. E tudo graças a uma ideia que ocorreu a William: afinal, se Ellen tinha apenas um quarto de ascendência africana e uma pele extremamente clara, a ponto de muitas vezes ser confundida com uma branca, esse poderia ser o disfarce que os levaria à liberdade.

O elaborado plano foi possível porque Ellen, que nascera em Clinton, Geórgia, em 1826, era filha do homem que era dono da sua mãe, por sua vez também filha do dono de uma plantação. Isto fazia com que a pele de Ellen fosse muito clara, quase branca, pelo que era regularmente confundida com mais um dos membros da família branca do seu dono, relata a “Smithsonian Magazine” (a publicação dos museus com o mesmo nome). Quem não gostava destas semelhanças era a esposa do dono, que decidiu enviar a jovem Ellen para casa da sua filha Eliza, em Macon, Geórgia, e livrar-se assim das comparações e insinuações sobre o parentesco – real - entre Ellen e o marido.

Era ali, em Macon, que vivia também William – um escravo de pele muito mais escura que já tinha pertencido a um primeiro dono e, depois de um leilão para resolver as dívidas deste, acabara por ser comprado por um bancário local e ver toda a sua família (os pais, o irmão, a irmã de apenas 14 anos) igualmente vendida. William, que aprendera numa oficina a fazer trabalhos como carpinteiro, continuava, no entanto, a praticar o seu ofício, embora a maior parte dos ganhos procedentes do seu trabalho fossem entregues ao seu dono.

Foi em Macon, onde William trabalhava e onde Ellen se dirigia para fazer recados, que o casal se conheceu e se apaixonou. O casamento foi permitido pelos donos de ambos, mas não podiam viver juntos. Um pensamento afligia os dois, especialmente Ellen: o de não poderem ter filhos, sob pena de os ver também afastados e vendidos a donos de escravos, tal como os próprios William e Ellen tinham sido afastados das respetivas famílias. “O mero pensamento enchia a sua alma de horror”, escreveria William, anos depois, sobre a esposa.

Apaixonados e afastados pela forma humilhante como viviam, William e Ellen começaram a pensar num plano de fuga. A chave seria a cor clara da pele de Ellen, facilmente confundível com a de uma pessoa branca. William teve a ideia: ela poderia passar por sua dona, uma vez que a lei permitia na altura que os donos dos escravos viajassem com eles para qualquer estado, livre ou não. Mas, dado que era pouco habitual que donas de escravos viajassem com acompanhantes masculinos, a cor de Ellen não chegaria: ela teria de mudar o seu género e encarnar de forma convincente o papel de um homem dono de uma plantação e do escravo William.

A ideia era obviamente arriscada e em primeira instância aterrorizou Ellen, que posteriormente acabou não só por ficar convencida como por se empenhar, costurando o seu fato masculino e colocando o braço ao peito – para ficar impedida de assinar quaisquer registos ou documentos na viagem, uma vez que a lei da Geórgia impedia que os escravos pudessem aprender a ler ou escrever – e as ligaduras na cara, para disfarçar a cor e as feições e impedir que alguém quisesse conversar com ela durante a travessia.

Uma fuga espetacular

Há muitas histórias de fuga nesta altura – da célebre Harriet Tubman, que viajou no escuro da noite e voltou para levar tantos outros escravos consigo, a de Henry “Box” Brown, que se fez passar por uma encomenda de correio e se fechou numa caixa de madeira – mas a de William e Ellen tem várias particularidades, entre elas a de terem viajado em plena luz do dia e parado nos melhores hotéis, mantendo sempre o disfarce.

Para esta fuga contribuíram vários fatores, entre eles o estatuto de “escravos favoritos” que ambos haviam conquistado junto dos seus donos. “Os ‘donos’ de Ellen, Robert e Eliza Collins, viam-na como alguém extremamente leal e obediente e recompensavam-na com privilégios que normalmente não eram oferecidos a outros africanos escravizados (…). Eles conseguiram ausentar-se durante alguns dias porque era a época das férias do Natal, quando os donos dos escravos relaxavam as restrições sobre os escravos e muitas vezes deixavam-nos viajar para visitar amigos e familiares, com passes de permissão dos seus donos brancos”, explica ao Expresso a docente da universidade da Geórgia Barbara McCaskill, que ajudou a completar a mais recente edição do livro que os próprios Crafts chegaram a publicar sobre a intrincada fuga, com manuscritos e cartas da época.

“William era ‘emprestado’ para usar as suas capacidades na carpintaria para ajudar outras pessoas brancas na cidade e arredores de Macon, Geórgia, e era costume escravos que eram ‘contratados’ desta forma poderem ficar com uma parte dos salários que tinham conseguido para os seus mestres. Ellen era uma costureira experiente e pode muito bem ter conseguido dinheiro extra cosendo para brancos e negros depois de completar os seus deveres. É provável que William tenha usado algum do tempo livre para trabalhar em projetos de carpintaria para comprar e vender”, adianta McCaskill.

Um homem branco, rico, dono de escravos e… surdo

Com as autorizações especiais para se ausentarem na quadra festiva e o dinheiro que ambos teriam conseguido juntar – e, especialmente, com Ellen disfarçada de homem branco, rico e dono de escravos, tudo o que na realidade não era -, William e Ellen deram início ao plano de fuga, motivados pela vontade de chegar a um estado livre no norte do país e de ali terem direito a um casamento católico e filhos livres da escravatura: foi um “salto desesperado para a liberdade”, escreveriam poucos anos depois.

O primeiro desafio aconteceu logo na estação de Macon, onde Ellen se encarregou de comprar os bilhetes de comboio para Savannah, a 321 quilómetros de distância. William, já sentado na sua carruagem separada – viajava no espaço destinado a negros, separado daquele em que estaria sentado o seu “dono”, na realidade sua esposa –, viu o dono da oficina em que trabalhava, que estava naquele momento a espreitar o interior de todas as carruagens. Finalmente, quando estava prestes a olhar para a carruagem em que William se encolhia, a campainha que sinalizava a partida do comboio apitou.

Mesmo dentro do comboio, houve novos desafios a ultrapassar – desta vez para Ellen, que assim que se sentou reparou que ao seu lado seguia um grande amigo do dono da plantação em que trabalhava. Viu-se obrigada a inventar uma nova solução: fingiria que era surda para evitar grandes conversas. Conforme cita a “Jezebel”, num artigo escrito pela historiadora nova-iorquina Angela Serratore, o homem fez menção de a cumprimentar: “Está uma bela manhã, senhor”. Sem resposta. Depois de várias tentativas, irritado, prometeu: “Vou fazê-lo ouvir-me”. Ellen replicou, finalmente, com uma pequena vénia, um tímido “sim”, o que fez com que os ocupantes da carruagem concluíssem que sofria de surdez e deixassem de tentar comunicar com ela.

Toda a história da viagem dos Craft está recheada de obstáculos e peripécias inacreditáveis. Em Savannah, o casal tomou um barco a vapor para Charleston, na Carolina do Sul, e o capitão elogiou o “rapaz muito atento” – o escravo William – e avisou Ellen de que deveria ter cuidado com abolicionistas que o poderiam incentivar a fugir, por entre ofertas de negociantes de escravos que queriam comprar William.

“Ficarem separados um do outro com frequência durante a viagem foi particularmente angustiante”, explica McCaskill. Embora, devido ao estatuto inventado de Ellen e à sua aparente condição física, muita gente os ajudasse e desse os melhores quartos de hotel e mesas nas salas de jantar, houve quem duvidasse do disfarce e os pusesse à prova.

Uma dessas situações aconteceu logo de seguida, quando tentaram comprar bilhetes de barco a vapor que os levassem da Carolina do Sul a Filadélfia, um estado livre, e o vendedor se recusou, como até aí acontecera, a assinar pela suposta inválida, obrigando-os a provar que de facto eram escravo e dono. Na altura, perante as suspeitas de que alguns abolicionistas se estavam a fazer passar por donos de escravos para os levarem à liberdade, os controlos aumentavam e era preciso provar que de facto se era dono de um deles para poder viajar. Nessa ocasião, o capitão acabou por passar por ali e defender Ellen, assinando os documentos necessários por ela.

Mas mais um perigo os aguardava antes de chegarem a terras livres. Em Baltimore, o controlo era particularmente apertado e o casal foi obrigado a deixar o comboio em que seguia para provar as respetivas identidades, com uma ameaça do funcionário ali presente: “Não os vamos deixar partir”. Segundo as memórias de William e Ellen, o condutor do comboio que tinham acabado de deixar apareceu e confirmou que ambos tinham viajado com ele desde Washington. A campainha de saída do comboio tocou. “Quando a campainha tocou para o comboio partir, se se tivesse tratado do choque de um terramoto, isso não teria provocado uma reação maior em nós”. A pressão do tempo ditou a reação apressada do funcionário, que coçou a cabeça, atrapalhado, e decidiu que seria “uma pena” reter um passageiro doente como Ellen. “Não sei bem o que fazer, mas calculo que esteja tudo bem”, concluiu.

Não suspire já de alívio

Foi na manhã seguinte, a manhã do dia de Natal, que o casal chegou finalmente a Filadélfia, onde eram cidadãos livres. “Graças a Deus, William, estamos a salvo!”, exclamou Ellen, ainda disfarçada de homem, assim que chegaram à estação. Acolhidos por um agricultor daquela zona, onde aliás receberam uma aula de leitura logo no dia de chegada, William e Ellen partiram três semanas depois para Boston, onde se instalariam e retomariam os seus ofícios de carpinteiro e costureira.

Apetece suspirar de alívio, mas a história ainda não acabou e novas dificuldades continuaram a apresentar-se ao casal. Em 1850, escassos anos depois de terem chegado e de as suas histórias terem sido conhecidas pelos abolicionistas da zona e publicadas no jornal “The Liberator”, o Congresso aprovava a lei do Escravo Fugitivo, que poderia ser fatal para William e Ellen: “[O Congresso] ordenou que agentes da lei nos estados do norte ajudassem donos dos escravos a recuperar escravos fugidos e puniu pessoas do norte que ajudassem fugitivos com multas, perda de propriedades e/ou prisão”, diz McCaskill – foi talvez “a maior concessão do norte ao sul” do país, escreve hoje em dia o “Politico”.

Perante a nova lei e a chegada de dois “caçadores de escravos” a Boston, à procura de William e Ellen, a comunidade abolicionista organizou-se para resistir às ordens do Congresso, perseguindo e colocando cartazes com fotografias dos dois homens pelas ruas. No entanto, William e Ellen continuavam a temer que a sua liberdade voltasse a ser roubada, pelo que nesse mesmo ano embarcaram para Inglaterra, onde durante os 20 anos que se seguiram tiveram os desejados cinco filhos, aprenderam a ler e a escrever e publicaram o registo da viagem, “Running a Thousand Miles for Freedom”, em 1860. Finalmente, em 1870, com o fim da Guerra Civil puderam voltar à Geórgia e instalar ali uma escola destinada a escravos negros recentemente libertados.

No fim do livro, uma citação que inquieta: “É sabido em Inglaterra, se não em todo o mundo, que os americanos, enquanto povo, são notoriamente maldosos e cruéis para todas pessoas de cor, quer sejam escravas ou livres”. A história continua a suscitar interesse, com um filme a ser planeado pela Alloy Enterntainment desde o ano passado e com meios como o “Huffington Post” e o “Politico” a lembrarem, este mês, como a comunidade se organizou para desobedecer ao Congresso e defender os direitos humanos na altura, no contexto da resistência que o decreto anti-imigração de Donald Trump tem suscitado nos Estados Unidos.

“A fuga deles da escravatura do sul e de pessoas que os procuravam no norte ilustra a eficácia dos esforços colaborativos para assegurar os direitos de justiça social e civis. Por exemplo, foi uma coligação inter-racial de homens e mulheres de Boston, ricos e da classe trabalhadora, negros e brancos, que conseguiram ajudar os Crafts a fugir de quem procurava escravos”, defende McCaskill, que atualizou “Running a Thousand Miles for Freedom” e se tornou especialista nesta história que mostra o que era a América antes da verdadeira liberdade.

“É uma história inspiradora porque mostra a ideia de que as pessoas têm o direito de exigir aos governos e outros poderes cívicos os princípios morais da justiça, tolerância e compaixão. A história dos Crafts pode inspirar as pessoas num tempo de divisão e desunião a manter a fé de que as suas batalhas e testes serão vencidos com persistência e resiliência.”