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“Sim, sou feminista, procuro a mulher em cada projeto em que participo”

ATITUDE. O comissário Neven Mimika defende que os países europeus não devem competir entre si e devem manter a atuação que os caracteriza, independentemente da linha que vier a ser seguida nos Estados Unidos por Donald Trump

FOTO COMISSÃO EUROPEIA

Discreto, há quem diga que sem carisma, mas dedicado à igualdade, o croata Neven Mimika é o comissário europeu da Cooperação Internacional e do Desenvolvimento

O gabinete é amplo e da grande janela vêm-se os telhados da Bruxelas que cerca a bolha da Comissão Europeia. Sorridente, mas tímido, Neven Mimika, 63 anos, abre as portas para receber as visitas. Embaixador de formação, o croata sabe acolher, não fosse ele o atual comissário europeu da Cooperação Internacional e do Desenvolvimento. Antes dele, o lugar coube a Kristalina Georgieva, a búlgara que concorreu contra António Guterres pela liderança das Nações Unidas.

A Neven Mimika cabe assegurar o cumprimento dos compromissos de redução da pobreza assumidos pela União Europeia no âmbito dos Objetivos de Desenvolvimento do Milénio, definir a posição da Comissão e da União Europeia nas negociações sobre a agenda dos Objetivos de Desenvolvimento do Milénio das Nações Unidas pós-2015, colaborar com os governos nacionais com vista a tornar mais eficaz a ajuda ao desenvolvimento concedida pela União.

Nasceu em Split e, depois de estudar economia na capital, Zagreb, entrou para a carreira diplomática, tendo passado pelo Cairo e por Ancara. A primeira vez que Mimika esteve em Portugal foi em 2015 - os seus caminhos passam mais por África e pela Ásia. Homem encarregue de construir pontes de diálogo, preocupa-se pessoalmente com a questão da equidade de género. É assumidamente um homem pelas mulheres. Nos corredores da Comissão, não é um comissário popular e as notícias dos jornais internacionais chegam a referir-se a Neven Mimika como o “comissário misterioso”.

O Expresso visitou-o numa manhã fria, mas de sol e, numa conversa rápida tentou descobrir-lhe alguns detalhes e opiniões. Como a inconfidência contada pelo seu chefe de gabinete de que a grande paixão deste homem reservado são os aviões, fascinado por todos os detalhes das máquinas voadoras. Garantida foi a sua opinião frontal sobre o mandato Trump à frente dos EUA: o político americano não lhe vai facilitar a vida.

É verdade que é feminista?
Sim, pode-se dizer que sim. Tenho a agenda da igualdade e procuro traduzir esta minha atitude pessoal para o meu gabinete e para a minha função política como comissário europeu. Defendo que as mulheres tenham mais poder e noto que tem havido uma alteração de mentalidades, sobretudo nos países parceiros, cada vez mais sensíveis às questões de género.

É mesmo o mais feminista dos comissários?
Posso dizer apenas que procuro a valorização da mulher em todos os projetos em que participo.

Esteve em Portugal em 2015 e vai voltar este ano. Com que prioridades?
Como responsável pela pasta do desenvolvimento, a questão do desenvolvimento sustentável é absolutamente prioritária, assim como a colaboração com África e os países do Pacífico e do Caribe, onde temos um plano internacional de investimento que queremos aprofundar.

CONTATO Em 2015, Neven Mimika veio a Portugal, mas também foi ao Quénia (na fotografia), sempre no âmbito das suas funções como comissário europeu da Cooperação Internacional e do Desenvolvimento

CONTATO Em 2015, Neven Mimika veio a Portugal, mas também foi ao Quénia (na fotografia), sempre no âmbito das suas funções como comissário europeu da Cooperação Internacional e do Desenvolvimento

FOTO COMISSÃO EUROPEIA

Como responsável pela Cooperação Internacional, como tem visto as primeiras declarações do novo Presidente dos Estados Unidos?
Estamos a lidar com os primeiros impactos das declarações de Donald Trump. Temos de perceber melhor a sua abordagem em temas como o comércio internacional, o impacto das alterações climáticas. Já está claro que em toda a agenda do desenvolvimento teremos uma diferente abordagem a partir de agora. Mas certo é que continuaremos a fazer como fazíamos até agora, ou seja, como europeus. Provavelmente temos de fazer mais do que fazíamos e estarmos mais coordenados, sobretudo temos de evitar competir entre nós mesmos.

O seu trabalho como comissário ficará mais difícil?
Provavelmente, mas ainda é cedo para garantir como tudo se vai passar.

Com mais dificuldades no âmbito dos projetos de desenvolvimento, receia pela segurança da União Europeia?
Segurança e desenvolvimento andam em conjunto. Temos de perceber esta realidade. A intranquilidade e os conflitos derivam da falta de desenvolvimento.

Vamos regressar a Portugal. Só nos visitou em trabalho?
Sim, nunca lá estive de férias, embora seja o lugar ideal para se falar de turismo. Mas sinto-me em casa em Portugal, a naturalidade das pessoas recorda-me a Croácia.