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“Efeito-Schulz” altera ambiente na Alemanha

Jens-Ulrich Koch/GETTY

SPD revive com novo líder enquanto a chanceler se mantém discreta. Daqui até às eleições de setembro ainda muito poderá mudar

Cristina Peres

Cristina Peres

Jornalista de Internacional

Não poderia ter tido melhor efeito a aposta do SPD em Martin Schulz para candidato a chanceler nas eleições gerais de 24 de setembro e novo líder do partido por inerência. Mesmo que as sondagens de opinião indicassem que o ex-presidente do Parlamento Europeu seria melhor candidato à disputa da chancelaria com Angela Merkel do que o ex-líder do SPD, Sigmar Gabriel, à direita e à esquerda, a surpresa mantém-se: pela primeira vez em muito tempo, os social-democratas deram um salto nas percentagens das intenções de voto e ultrapassaram os democratas-cristãos da CDU (em 1%).

Fizesse Gabriel (vice-chanceler e ministro dos Negócios Estrangeiros) o que fizesse, nos últimos anos, o SPD não ia além de 23% nas aferições. Agora, os institutos de sondagens apuram unanimemente que 31% do eleitorado alemão está pronto a votar “vermelho”. A hipótese de o SPD ganhar um mandato para governar fora de uma coligação com a CDU passou a ser equacionado neste cenário político de “grande coligação” sem uma verdadeira oposição política desde 2013.

Por agora, a “recuperação milagrosa” do SPD parece de pedra e cal, mas assim como nada a fez prever, não há nenhum indicador de que se mantenha até aos escrutínios do outono. A escolha de Martin Schulz criou no eleitorado social-democrata a sensação de um novo SPD e de que o seu candidato pode realmente derrotar Angela Merkel. Mais conhecido em Bruxelas do que em Berlim, como escreve a revista “The Economist” num artigo intitulado “A esquerda alemã está de volta”, Schulz está livre da erosão da política nacional dos últimos anos.

A grande dúvida é o modo como este reconhecido orador vai lidar com a herança do ex-chanceler Gerhard Schröder. Trata-se de “sarar a ferida” da Agenda 2010, as reformas do mercado de trabalho aplicadas pelo Governo social-democrata de 1998/2005 que é hoje elogiado pela Berlim dos democratas-cristãos. A Agenda 2010, que Martin Schulz agora critica, trilhou o caminho para a economia saudável e competitiva e para a taxa de desemprego mais baixa da Europa. Os sociais-democratas viraram-se contra as suas reformas do passado denunciando a baixa de salários e o distanciamento da justiça social que provocaram. Desde 2005 que governos liderados por Angela Merkel puseram em marcha medidas típicas da esquerda e do SPD como o encerramento das centrais nucleares e a entrada em vigor do salário mínimo.

Votos “roubados” à direita e à esquerda

Os votos agora aparentemente canalizados para o SPD foram captados do eleitorado de esquerda do partido Die Linke, dos populistas da Alternativa para a Alemanha (AfD) e também dos Verdes. Há uma luta interna de liderança no seio da AfD que poderá vir a alterar a orientação do partido, mas é também provável que os adeptos do discurso de revolta deste partido tenham de momento outras prioridades para lá do discurso inflamado da liderança da AfD contra a política de acolhimento de refugiados e migrantes.

“Como se os adeptos da AfD estivessem agora a dizer aos líderes do partido que a AfD nasceu de uma onda de protesto maior” do que aquele tema, diz ao Expresso a partir de Hamburgo Christian Gäff, especialista em política da Norddeutsche Rundfunk, a sucursal sediada naquela cidade da televisão nacional ARD. O eleitor típico da AfD, lembra o jornalista, é alguém a quem a vida corre bem e que tem medo de perder esse bem-estar. Há bolsas de oposição à “grande coligação” porque quando existe este tipo de governo não existe uma verdadeira oposição e, como tal, há mais oportunidades de vingarem partidos populistas como a AfD.

Apesar do barulho pelo sucesso que os populistas alcançaram nas eleições regionais, chegando a prever-se que teriam 14% das intenções de voto nas gerais de 2017, a AfD “não é um fenómeno inédito”. Gräff lembra que sempre houve partidos de direita na Alemanha. Lembrou o fenómeno dos Piratas, que praticamente desapareceram de um ciclo eleitoral a outro, e os ultranacionalistas de extrema-direita do NDP, partidos que chegam a alcançar votações substanciais nos sufrágios regionais, mas não aguentam a corrida. Não será o caso da AfD, diz Christian Gräff, acrescentando que, atualmente com 7%/8% das intenções de voto, para começar, a AfD “vai entrar no Parlamento” [o mínimo é 5%].

A estratégia da CDU

Em termos de campanha eleitoral, a vantagem de ocupar a chancelaria permite argumentar que, se as coisas estão a correr bem, para quê mudar? É pouco provável que invocar o perigo comunista do Die Linke numa coligação desejada pelo SPD ainda assuste eleitores, como aconteceu no passado. A CDU poderá ainda fazer o seu eleitorado temer que uma coligação do SPD com os comunistas e os Verdes venha a pôr em causa tudo aquilo que os governos conquistaram nestes anos. Ou insistir ainda que Martin Schulz é capaz de se virar contra o seu próprio partido como está a fazer com a Agenda 2010...

Para já, Angela Merkel não se manifesta, como se poderia prever. Ainda que nem tudo corra sobre rodas dentro da União, uma vez que o líder dos cristãos-sociais bávaros, Horst Seehofer, não desiste de exigir um teto-limite para a entrada de refugiados e requerentes de asilo na Alemanha, os temas que verdadeiramente mudam as intenções de voto são outros. Os mais importantes dizem respeito a impostos, políticas financeiras, direitos sociais...