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Internacional

Negociações sem progressos no mês em que a guerra na Síria faz seis anos

Bashar al-Jaafari,representante do regime de Damasco nas negociações de paz na Síria.

MARTIAL TREZZINI/EPA

Regime sírio acusa oposição de “sequestrar” as negociações de paz, ao recusar incluir o terrorismo na agenda de trabalhos. Negociações iniciadas formalmente a 23 de fevereiro em Genebra, com vista à implementação da resolução 2254 do Conselho de Segurança, decorrem sem quaisquer progressos. Faz este mês seis anos desde o início da guerra civil na Síria

Helena Bento

Jornalista

A quarta ronda de negociações para a paz na Síria entre o regime e a oposição, mediada pelas Nações Unidas e iniciada formalmente a 23 de fevereiro em Genebra, Suíça, parece estar, à semelhança das rondas anteriores, condenada ao fracasso.

Nos últimos dias, o regime acusou a oposição – organizada em torno do Alto Comité de Negociações (HNC, na sigla em inglês) – de “sequestrar” as negociações de paz, ao recusar incluir o terrorismo na agenda de trabalhos, que inclui três grandes temas: governação, constituição e eleições. “Os progressos na ronda de Genebra não podem ficar reféns da plataforma de Riade", afirmou aos jornalistas o representante do regime de Damasco nas negociações de paz na Síria, Bashar al-Jaafari, referindo-se ao HNC, que é apoiado pela Arábia Saudita. A oposição “será responsável por qualquer falhanço das conversações de Genebra”, disse ainda Jaafari, para quem esta resposta da oposição não foi, porém, uma “surpresa”, uma vez que “muitos dos membros do HNC são considerados terroristas”.

Em conferência de imprensa posterior, o chefe da delegação da oposição síria, Nasr al-Hariri, foi evasivo quando lhe perguntaram sobre a possibilidade de o terrorismo ser incluído na agenda das negociações. A oposição receia que, ao abordar o tema, sejam desviadas as atenções de temas como a transição política (e a saída de Bashar al-Assad, que continua a ser a principal reivindicação) e a realização de eleições num país devastado pela guerra.

Yehya Kodmani, por outro lado, já garantiu que o tema não vai ser abordado. Em declarações aos jornalistas, esta semana, o chefe da delegação do HNC disse que se Staffan de Mistura, mediador da ONU, “decidir incluí-lo nas conversações”, a oposição vai “recusar falar sobre ele”. Numa tentativa de “acalmar os receios da oposição”, de Mistura afirmou esta semana que o uso de bombas de barril e armas químicas sobre a população síria poderá ser igualmente um tema a abordar durante a ronda de conversações, escreve a Al- Jazeera.

As negociações entre o regime e a oposição, com vista à implementação da resolução 2254 do Conselho de Segurança, decorrem há mais de uma semana, mas ainda não houve quaisquer progressos assinaláveis. Esta resolução, recorde-se, apela a um processo político liderado pela Síria, com mediação da ONU, com vista a estabelecer, dentro de seis meses, “uma governação credível, inclusiva e não-sectária”, estabelecendo um cronograma para a elaboração de uma nova Constituição, com eleições “livres e justas” a serem realizadas no prazo de 18 meses, sob a supervisão das Nações Unidas.

O atentado suicida perpetrado em Homs, no passado fim de semana, contra duas bases dos serviços de informação sírios, e que resultou na morte de mais de 40 pessoas, incluindo o chefe dos serviços de informação militar da cidade, muito próximo do Presidente sírio Bashar al-Assad, veio fragilizar ainda mais as negociações e colocar alguns pontos de interrogação sobre um entendimento que se quer célebre. No dia 15 de março passam seis anos sobre o início da guerra que já fez mais de 300 mil vítimas mortais.

Depois do atentado, Bashar al-Jaafari exigiu que a ONU e a oposição condenem o terrorismo. “Pedimos a Staffan de Mistura para fazer uma declaração a condenar os ataques em Homs. Exigimos a mesma declaração por parte de todos os participantes no processo de Genebra”. Jaafari foi ainda mais longe e disse que que “qualquer parte que recuse condenar os ataques de hoje” será considerada pelo regime “como um cúmplice do terrorismo”.