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Jeff Sessions financiou encontro com o embaixador russo com dinheiro da campanha eleitoral

NICHOLAS KAMM/ Getty Images

Um dia depois de o procurador-geral ter anunciado que vai retirar-se de qualquer investigação às presidenciais norte-americanas por causa de contactos com um diplomata russo, o "Wall Street Journal" avança esta sexta-feira que o responsável pela pasta da Justiça na administração Trump não se encontrou com Sergei Kislyak enquanto membro do Senado como a sua porta-voz tinha garantido. Democratas não estão satisfeitos e exigem a demissão do ministro

Quando esta semana o "Washington Post" revelou que Jeff Sessions se encontrou pelo menos duas vezes com o embaixador russo nos Estados Unidos durante a campanha para as presidenciais de novembro, a porta-voz do procurador-geral garantiu que este não ocultou qualquer informação dos senadores durante as audiências de confirmação ao cargo. "Não houve absolutamente nada enganador na resposta dele", garantiu Sarah Isgur Flores na quarta-feira. "No ano passado, o senador manteve mais de 25 comunicações com embaixadores estrangeiros enquanto membro da Comissão de Serviços Armados [do Senado]. Durante a audiência [no início de fevereiro] foi questionado sobre comunicações entre a Rússia e a campanha de Trump, não sobre encontros que ele tenha mantido enquanto senador e membro da Comissão de Serviços Armados."

Ontem, um dia depois de Flores garantir a idoneidade do novo ministro da Justiça, Sessions convocou uma conferência de imprensa para responder aos pedidos de de membros do seu partido para que se afastasse de qualquer investigação das agências federais e do Congresso à alegada ingerência russa nas eleições. "Já decidi que vou abster-me de participar em qualquer investigação em curso ou em futuros [inquéritos] que digam respeito à campanha eleitoral do Presidente dos Estados Unidos”, disse aos jornalistas. (Os democratas não ficaram satisfeitos e esta sexta-feira continuaram a exigir a sua demissão.) A declaração foi um revés face ao dia anterior: quando o "Washington Post" revelou que ele se encontrou pelo menos duas vezes com Sergei Kislyak antes das eleições de novembro, o responsável máximo da Justiça tinha garantido em comunicado: "Nunca me encontrei com funcionários do governo russo para discutir questões de campanha, nem tenho ideia de onde vem esta alegação, é falsa."

Foi uma nova mentira, depois de alegadamente ter mentido sob juramento no início de fevereiro quando, nas audiências de confirmação, o senador Al Franken (democrata) lhe perguntou diretamente o que é que ele pretendia fazer enquanto ministro da Justiça se surgissem indícios fortes de que houve contactos entre a equipa de Trump e indivíduos ligados ao governo russo. "Se existir alguma prova de que alguém afiliado à campanha de Trump comunicou com o governo russo no decurso da campanha dele, o que vai fazer?", questionou o senador. À data Sessions respondeu: "Não estou ciente dessas atividades. Já fui acusado de ser um delegado da campanha [de Trump] uma ou outra vez mas não mantive comunicações com os russos e portanto não posso comentar o assunto."

Hoje, o "Wall Street Journal" veio complicar ainda mais a narrativa vendida por Sessions, ao noticiar que pelo menos um dos encontros do procurador-geral com Kislyak foi pago com fundos de campanha e não com o dinheiro alocado aos congressistas para fazerem o seu trabalho, como a sua porta-voz tinha garantido há dois dias. De acordo com uma pessoa presente no último Congresso Nacional Republicano, no verão passado Sessions viajou até Cleveland, no Ohio, para falar em nome de Trump numa conferência que aconteceu à margem do encontro do partido — uma viagem que, de acordo com registos públicos de financimento de campanhas políticas, foi coberta com dinheiro da sua reeleição para o Senado.

O "Wall Street Journal" consultou esses registos e apurou que, na altura, Sessions fez dois pagamentos de 1395 dólares no Sheraton do aeroporto de Cleveland e que a sua campanha também cobriu 223 dólares por uma estadia no Hotel Westin na mesma cidade; os pagamentos foram considerados "despesas de alojamento" do senador. Ontem, o procurador-geral tinha finalmente assumido aos jornalistas que falou duas vezes com Kislyak durante a corrida presidencial, uma delas durante uma conferência sobre diplomacia que teve lugar em Cleveland à margem do congresso nacional do partido, que viu a candidatura de Trump à Casa Branca ser oficializada.

Antes da aguardada conferência de imprensa do secretário da Justiça, outros media revelaram ontem que não foi só Sessions que se encontrou com aliados de Vladimir Putin antes e depois das eleições presidenciais. De acordo com o "New York Times", Jared Kushner, o genro do Presidente que atualmente desempenha funções de conselheiro na Casa Branca, reuniu-se com Kislyak na Torre Trump em Nova Iorque em dezembro, não sendo claro o que foi discutido nesse encontro. O USA Today apurou entretanto que J. D. Gordon e Carter Page, outros dois funcionários do atual governo, também se encontraram com o embaixador russo na conferência de diplomacia paralela ao congresso republicano em julho.

As notícias vêm adensar a teia de mistérios em torno da campanha de Donald Trump, numa altura em que crescem as suspeitas de que houve conluio entre a equipa do agora Presidente e representantes do governo russo para influenciar os resultados das eleições de novembro, nas quais Trump venceu contra todas as expectativas e sondagens, em parte graças ao sistema eleitoral norte-americano, que prevê a vitória de um candidato com menos votos populares que o rival se conseguir garantir um mínimo de votos no Colégio Eleitoral. Hillary Clinton — cujo partido e diretor de campanha foram ambos alvos de ciberataques alegadamente ordenados pelo governo russo durante a corrida à Casa Branca — angariou mais três milhões de votos populares que o rival republicano, mas em última instância este conseguiu chamar a si os grandes eleitores dos estados do Michigan, Pensilvânia e Wisconsin, e venceu as eleições.

A alegada proximidade da equipa de Trump a elementos do círculo de Putin já tinha levado ao afastamento do diretor do Conselho de Segurança Nacional no mês passado, um homem que Barack Obama despediu da direção de um departamento da Defesa em 2014 e que, apesar das controvérsias que o rodeiam há vários anos, foi nomeado por Trump para presidir ao conselho de homens e mulheres que orientam as estratégias de política externa do Presidente. Ao 25.º dia no poder, Michael Flynn tornou-se a primeira baixa da nova administração norte-americana, depois de ter sido revelado que, em dezembro, se encontrou duas vezes com Kislyak para discutir o levantamento das sanções impostas por Obama a empresas e personalidades russas na sequência da anexação da península ucraniana da Crimeia há três anos.

Na altura, a Casa Branca disse que Trump sabia "há várias semanas" que Flynn se tinha encontrado com o embaixador russo e que só decidiu exigir-lhe que se demitisse porque mentiu ao vice-presidente Mike Pence sobre o conteúdo das conversas anteriores à tomada de posse — proibidas pela legislação em vigor, que impede cidadãos privados de discutirem questões políticas e diplomáticas com representantes de governos estrangeiros. Vários media e analistas têm questionado esta versão dos acontecimentos, apontado que existem maiores probabilidades de Flynn ter sido um mero testa-de-ferro do então Presidente eleito e não um rebelde que decidiu violar as regras de livre e espontânea vontade para negociar o fim das sanções à Rússia.