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Internacional

A ironia do servidor de Clinton. Pence usou email privado enquanto governador e alguém roubou os seus dados todos

Joe Raedle

A campanha presidencial norte-americana foi ensombrada pelo alegado escândalo relacionado com o uso de um servidor privado pela candidata democrata quando esta chefiava a diplomacia norte-americana. Agora, foi revelado que o atual vice-presidente dos EUA também usou uma conta privada de email "de forma recorrente" enquanto governador do Indiana e que, através dela, discutiu informações sensíveis de Segurança Nacional com os seus conselheiros

Não há nada na legislação do estado do Indiana que proíba políticos eleitos de manterem o seu email privado quando assumem cargos públicos. Mas existem regas de boa conduta que os impedem de discutir temas confidenciais através dessas contas pessoais. Foi este o motor do caso do servidor privado que Hillary Clinton usou enquanto secretária de Estado no primeiro mandato de Barack Obama, um que dominou a corrida à Casa Branca em 2016 e que, pelo menos em parte, contribuiu para a derrota da candidata democrata, apesar de, em última instância, o FBI não ter encontrado quaisquer provas de que Clinton tenha cometido ilegalidades ao usar o seu email privado. (Ontem, os democratas voltaram a acusar James Comey, diretor do FBI, de ocultar informações sobre as alegadas ligações da equipa de Trump a autoridades russas do governo de Vladimir Putin antes das eleições, optando por voltar a questionar a transparência da democrata apesar de não haver indícios de crime.)

Não é esse o caso com Mike Pence, o atual vice-presidente dos Estados Unidos, que de acordo com registos públicos consultados pelo jornal "IndyStar" também usou um email privado "de forma rotineira" enquanto governador do Indiana, através do qual discutiu questões sensíveis de Segurança Nacional com os seus conselheiros. O facto ganhou destaque esta semana após um jornal do Indiana, o "IndyStar", ter acedido a parte desses emails privados, num caso que ganha redobrada importância considerando que, no verão passado, a conta AOL do governador foi alvo de um ciberataque.

Com base nos emails consultados, o "IndyStar" revelou esta semana que Pence usou a conta privada para discutir temas corriqueiros, por exemplo sobre como reforçar a segurança dos portões da sua vivenda, mas também questões de outra índole, como as respostas do estado à onda de ataques terroristas em todo o mundo. Num dos emails, o principal conselheiro de Segurança Nacional do então governador enviou ao chefe informações confidenciais do FBI relacionadas com as detenções de vários homens sob acusações federais de terrorismo.

Especialistas em cibersegurança dizem que o facto de Pence ter usado um servidor privado é preocupante porque contas pessoais como a dele ou a de Clinton não têm as mesmas garantias de segurança que os emails oficiais do governo. A comunidade global de hackers sabe-o e no verão, já depois de Trump ter anunciado Pence como seu parceiro na corrida à Casa Branca, alguém entrou na conta do governador republicano e roubou todos os seus dados.

Em resposta ao jornal local, o gabinete do vice-presidente disse esta quinta-feira em comunicado que, "tal como aconteceu com os anteriores governadores, durante o seu mandato como governador do Indiana, Mike Pence manteve uma conta de email estatal e uma conta de email privado" e, "enquanto governador, Pence cumpriu todas as leis do Indiana que dizem respeito ao uso e à retenção de emails".

Confrontada com a falta de transparência do republicano, a assessoria de Pence sublinhou que "os emails do governo que envolvem a conta pessoal e a conta estatal [do ex-governador] são arquivados pelo estado de acordo com a lei do Indiana e estão a ser geridos de acordo com a Lei de Acesso a Registos Públicos do Indiana". Fontes da equipa do vice-presidente dizem que um conselheiro externo foi contratado para gerir os emails privados de Pence quando este abandonou o cargo de governador e que todas as mensagens que envolvam questões públicas foram transferidos para as autoridades estatais.

Esta semana, o gabinete do novo governador daquele estado, Eric Holcomb, respondeu ao pedido do "IndyStar" e revelou 29 páginas de emails da conta AOL de Pence, recusando-se contudo a divulgar outros emails de conteúdo para já desconhecido sob o argumento de que o estado os considera confidenciais e demasiado sensíveis para serem tornados públicos — um facto particularmente preocupante, aponta ao jornal Justin Cappos, professor de cibersegurança na Escola Tandon de Engenharia da Universidade de Nova Iorque. "Uma coisa é ter uma conta AOL e usá-la para mandar postais de parabéns aos netos, outra coisa é usá-la para enviar e receber mensagens que são delicadas e que podem ter um impacto negativo se entrarem em domínio público."

Enquanto governador de um dos 50 estados norte-americanos, é improvável que Pence tenha gerido tantos emails sensíveis quanto Clinton quando esta chefiava a diplomacia norte-americana. Mas ao contrário do caso Clinton, cuja conta privada não terá sido alvo de qualquer ataque cibernético, o email de Pence no servidor AOL foi. Para Marc Lotter, porta-voz do atual vice-presidente, as comparações entre os dois casos são "absurdas" precisamente porque Pence nunca geriu informação federal confidencial que pudesse ser roubada por hackers. Especialistas em cibersegurança dizem, contudo, que a conta privada do governador era tão insegura como a de Clinton e que isso reveste-se de redobrada importância quando se sabe que esse email foi invadido.