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Procurador-geral de Trump encontrou-se com embaixador russo durante a campanha eleitoral

Zach Gibson

Depois de Michael Flynn ter sido forçado a demitir-se do Conselho de Segurança Nacional por ter discutido com Sergei Kislyak como eliminar as sanções à Rússia, democratas acusam Jeff Sessions de "mentir sob juramento" e exigem que abdique da chefia do Departamento da Justiça ou, no mínimo, que se afaste do cargo enquanto o Congresso e o FBI investigam a alegada ingerência russa nas presidenciais

O homem que Donald Trump escolheu para chefiar o Departamento da Justiça encontrou-se duas vezes com o embaixador da Rússia em Washington no ano passado durante a campanha eleitoral. A informação foi avançada pelo "Washington Post" na quarta-feira e de imediato confirmada pela administração norte-americana, horas depois dos membros democratas e republicanos de uma comissão do Congresso terem chegado a acordo para abrir um inquérito à alegada interferência da Rússia nas presidenciais dos Estados Unidos.

Jeff Sessions era senador à data em que os encontros com Sergei Kislyak tiveram lugar e, em janeiro, escolheu manter essa informação oculta durante as audiências de confirmação ao cargo correspondente ao de ministro da Justiça, um para o qual foi confirmado apesar das acusações de racismo e xenofobia por vários membros da oposição e ativistas como a mulher de Martin Luther King Jr., Coretta Scott King.

Confrontado com as revelações, o procurador-geral garantiu ontem que nunca se encontrou "com membros do governo russo para discutir questões da campanha" presidencial. A Casa Branca desmente qualquer comportamento impróprio do seu ministro e não comentou ainda a decisão dos representantes em abrir uma investigação formal ao caso. A Rússia tem consistentemente rejeitado as alegações de interferência nas eleições americanas.

De acordo com o Departamento da Justiça, Sessions encontrou-se com o embaixador Kislyak enquanto membro da Comissão de Serviços Armados do Senado, primeiro no outono a sós e já no verão com outros embaixadores nos EUA. O departamento sublinha que, no espaço de um ano e por causa das suas funções no Senado antes de integrar a nova administração, Sessions encontrou-se com mais de 25 representantes diplomáticos.

Durante as suas audiências de confirmação para o cargo de ministro da Justiça, Sessions foi diretamente questionado sobre se tinha em sua posse quaisquer provas de que membros da campanha de Trump estiveram em contacto com autoridades da Rússia, ao que respondeu "não estar ciente dessas atividades". Ontem à noite, num comunicado enviado à imprensa, garantiu: "Nunca me encontrei com funcionários do governo russo para discutir questões de campanha, nem tenho ideia de onde vem esta alegação, é falsa."

Sarah Isgur Flores, porta-voz do Departamento de Justiça, garantiria logo a seguir que "não há absolutamente nada enganador na resposta" do seu chefe. "Ele foi questionado nas audiências sobre comunicações entre a Rússia e a campanha de Trump, não foi questionado sobre que encontros manteve enquanto senador e membro da Comissão de Serviços Armados."

Nancy Pelosi, líder da minoria democrata na Câmara dos Representantes, acusa Sessions de "mentir sob juramento" e já exigiu a sua demissão. Outros democratas pedem que, no mínimo, seja afastado da liderança do Departamento de Justiça até que uma investigação à alegada ingerência russa nas eleições seja concluída pelo FBI, uma das agências federais que respondem diretamente ao procurador-geral. Entre eles conta-se Adam Schiff, o democrata com mais experiência na Comissão de Serviços de Informação da Câmara dos Representantes, que ontem sublinhou que Sessions deve retirar-se da investigação do FBI.

A notícia dos encontros de Sessions com Kislyak, o embaixador que continua em silêncio apesar de já ter sido acusado de contactos questionáveis com pelo menos dois membros do governo Trump antes de este tomar posse, surgiu horas depois de Schiff e o republicano Devin Nunes, os dois chefes daquela comissão da câmara baixa do Congresso, terem chegado a acordo para escrutinar as alegadas ligações de membros da equipa de Trump a Moscovo. Até agora, a bancada republicana estava relutante em aceitar as exigências da oposição para que fosse aberto um inquérito ao caso, apesar de a comunidade de serviços secretos norte-americanos ter concluído que os ciberataques da Rússia aos sistemas informáticos do Partido Democrata durante a campanha ajudaram a derrotar a candidata do partido, Hillary Clinton, e a eleger Trump.

Citado pela agência russa Interfax, Nikolai Lakhonin, porta-voz da embaixada em Washington, disse apenas que a missão diplomática de Moscovo na capital norte-americana "não comenta os numerosos contactos" mantidos por diplomatas russos com "parceiros locais". De acordo com a Associated Press, na terça-feira os advogados da Casa Branca terão aconselhado a equipa de Donald Trump a manter protegidos quaisquer materiais que possam ligar os seus membros à ingerência russa nas eleições.

A notícia de que Sessions se encontrou pelo menos duas vezes com Kislyak durante a corrida à Casa Branca surge nem um mês depois de Michael Flynn ter sido obrigado a demitir-se da chefia do Conselho de Segurança Nacional (CSN) de Trump após ter sido revelado que, em dezembro, antes de assumir qualquer cargo oficial no governo, manteve contactos telefónicos com o embaixador russo para discutir formas de anular as sanções que a administração Obama impôs a empresas e elementos próximos do governo de Vladimir Putin.

Nessa semana quente, a Casa Branca de Trump alimentou as suspeitas de contactos com a Rússia ao sublinhar que o Presidente soube durante várias semanas que Flynn falou com o embaixador russo e que escolheu nada fazer, apesar de esses contactos serem potencialmente ilegais (a legislação norte-americana proíbe os cidadãos privados de manterem discussões políticas e diplomáticas com representantes de governos estrangeiros). Trump diria depois que só decidiu exigir ao general na reforma que se demitisse da liderança do CSN porque este mentiu ao vice-presidente Mike Pence sobre o conteúdo das conversas com Kislyak.

A defesa do governo perdeu força quando, a 19 de fevereiro, foi revelado que o advogado do Presidente terá delineado um plano com um deputado ucraniano para eliminar as sanções à Rússia através de pressões sobre Kiev para que aceite a anexação da Crimeia por Moscovo — o que, em 2014, abriu um fosso nas relações entre a Rússia e o Ocidente, e levou os EUA e a União Europeia a aprovar sucessivos pacotes de sanções contra elementos ligados ao governo de Putin.