Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Malásia suspende regime de isenção de vistos a cidadãos norte-coreanos

TOSHIFUMI KITAMURA/AFP/GETTY

Trata-se do mais recente revés nas relações entre a Malásia e a Coreia do Norte, que estão em cheque desde que o meio-irmão de Kim Jong-un foi assassinado no aeroporto de Kuala Lumpur, a 13 de fevereiro

Helena Bento

Helena Bento

Jornalista

A Malásia vai suspender o regime de isenção de vistos a todos os cidadãos norte-coreanos a partir da próxima semana. A decisão é encarada como mais um revés nas relações diplomáticas entre a Malásia e a Coreia do Norte, em cheque desde que o meio-irmão do Presidente Kim Jong-un foi assassinado no aeroporto de Kuala Lumpur. As autoridades malaias anunciaram ainda que vão deportar esta sexta-feira o norte-coreano Ri Jong Chol, que chegou a ser dado como suspeito da morte de Kim Jong-nam, por não existirem indícios suficientes do seu envolvimento no assassínio.

Kim Jong-nam morreu a 13 de fevereiro enquanto aguardava o embarque com destino a Macau, onde vivia com a família sob proteção do governo chinês. Terá sido abordado por duas mulheres que, munidas de um spray, lhe terão borrifado um líquido para o rosto. Procurou de imediato ajuda junto de funcionários do aeroporto, mas acabaria por morrer a caminho do hospital. Investigações posteriores revelaram a existência de vestígios do agente nervoso VX, uma substância altamente tóxica classificada pelas Nações Unidas como arma de destruição em massa e que está proibida pela Convenção de Armas Químicas.

Este agente nervoso foi utilizado por Saddam Hussein na guerra Irão-Iraque, na década de 1980, e por Shoko Asahara, líder do culto japonês Aum Shinrikyo, num ataque em Osaka em 1994. Em contacto com o corpo humano, o líquido de cor âmbar pode provocar sintomas como confusão, sonolência, dor de cabeça, visão turva, espasmos musculares, náuseas, convulsões e alteração do ritmo cardíaco.

A Coreia do Sul não tem dúvidas de que o ataque foi perpetrado por agentes norte-coreanos. As duas mulheres que interagiram com a vítima – a indonésia Siti Aisyah e a vietnamita Doan Thi Huong – e que negam desde o início ter tido conhecimento da substância contida na embalagem de spray, uma vez que, dizem, estariam apenas a participar num programa de televisão – continuam detidas e vão ser acusadas de homicídio.

Ri Jong Chol, um norte-coreano nascido em 1970, foi também dado como suspeito da morte de Kim Jong-nam e detido pelas autoridades da Malásia dias após o assassínio – na altura, tinha consigo um cartão de identificação malaio (“Malaysian i-Kad”) emitido para trabalhadores estrangeiros, válido até dia 6 de fevereiro. Vai ser deportado esta sexta-feira por não existirem provas suficientes do seu envolvimento no crime, disse à Reuters o procurador-geral da Malásia Mohamed Apandi Ali.

O regime de Pyongyang continua a negar o seu envolvimento na morte de Kim Jong-nam. Questionado pelos jornalistas sobre a utilização do agente nervoso VX, Ri Tong II, antigo embaixador da Coreia do Norte nas Nações Unidas, que chegou à Malásia no início desta semana acompanhado de uma delegação norte-coreana, disse apenas que vão ser enviadas amostras dos vestígios encontrados para a Organização para a Proibição das Armas Químicas (OPAQ). “Se dois laboratórios independentes chegarem à conclusão de que foi essa a substância usada, então teremos de encontrar o responsável, que deverá ser trazido para a Malásia”.

A Malásia é um dos poucos países que permite a entrada de cidadãos norte-coreanos sob o regime de isenção de vistos, do mesmo modo que é permitida a entrada sem restrições de cidadãos malaios na Coreia do Norte.