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Colombiano de 74 anos executado por tráfico de droga na China

LUIS ROBAYO/ Getty Images

Preso em 2010, foi condenado à morte por ter tentado introduzir no país quatro quilos de cocaína

Luís M. Faria

Jornalista

"Deus abriu os seus portões para mim. Recordem-me com calor e amor. Vou-me embora tranquilo, muito relaxado. Nada me preocupa". Foi com estas palavras que Ismael Arciniegas, um jornalista colombiano de 74 anos, se despediu da sua família numa chamada telefónica a partir da China. Arciniegas, preso em 2010 e condenado à morte por ter tentado introduzir no país quatro quilos de cocaína, foi executado esta terça-feira.

A quantidade de droga em causa, muito superior ao limite de cinquenta gramas que o teria protegido da sanção última, tornou o seu caso bastante problemático desde o início. Ao longo dos anos todos os recursos judiciais falharam, bem como as iniciativas diplomáticas a seu favor levadas a cabo por Bogotá. No final, tudo o que a Colômbia pôde fazer foi reiterar a sua oposição à pena capital, embora explicando que respeita o "direito soberano" dos outros países a aplicarem as suas leis penais.

Para a família de Arciniegas, não é a primeira tragedia causada pela droga. Juan José Herrera, filho do jornalista, explicou que um tio seu já morrera de doença na cadeia há uns anos. Parte da mensagem enviada pelo agora executado não se dirige apenas à família: "O tráfico de drogas não compensa. As leis na China são severas, e se pensam viajar para este país fazendo essa atividade, não viajarão apenas com as vossas vidas mas com as das vossas famílias", disse ele, através do filho, que é tatuador de profissão e tem o rosto do pai gravado no peito.

Latrinas limpas de três em tres dias

Segundo Herrera, o seu pai envolveu-se com a droga nos anos 80, quando estava a preparar um livro sobre o tema. A obra, que se intitula "Guerra Satânica", deverá ser publicada brevemente, talvez com um capítulo sobre a China, onde Arciniegas viveu em condições terríveis. "As latrinas só eram limpas a cada três dias, só havia uma hora de sol e estavam amparados à cama", contou Herrera.

Na véspera da execução, ele falou com o pai durante meia hora e notou que estava em paz, pedindo aos familiares que não chorassem. "Ficámos com a tranquilidade de saber que ele estava muito tranquilo. Muito feliz, porque dizia que ir encontrar-se com os familiares que já morreram". Herrera agradeceu igualmente ao Ministério dos Negócios Estrangeiros e à embaixada do seu país na China "pelo seu trabalho durante estes longos seis anos de cativeiro".

Explicando que só escapou a sofrer o mesmo destino graças à arte, Herrera homenageou o seu pai no Facebook: "Adeus, velho, ver-nos-emos em breve. Deixas-me muitos valores como pessoa e uma grande lição de vida. Um guerreiro, um lutador, um ídolo para um pais inteiro que se uniu em oração pela tua alma".

"A vida é uma comédia e acabou"

A despedida de Arciniegas não foi menos elegante: "A vida é uma comédia e esta comédia acabou. Dou graças a Deus pela família que me permitiu ter. Bênçãos".

Na China, continuam presos outros 163 colombianos, dos quais 147 por tráfico de droga. Catorze deles estao condenados à morte, dos quais dez com pena suspensa. Outros quinze cumprem condenações a prisão perpétua.

Dos cerca de quinze mil colombianos presos em todo o mundo, mais de metade, 56,7%, foram acusados de crimes de narcotráfico. Com uma produção anual superior a 640 toneladas (números de 2015), a Colômbia é o maior produtor mundial de cocaína.

Arciniegas deverá ter sido cremado logo após a execução. As cinzas serão repatriadas para a Colômbia, onde a família as espalhará no ar. Ele já esteve preso tempo demais, justificaram.