Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

A mesma empresa que alimenta a fúria dos liberais dá fogo à ira dos conservadores na era Trump

Investigação do BuzzFeed apurou que um conjunto de sites americanos de barricadas opostas, apostados no hiperpartidarismo e nas divisões políticas com manchetes incendiárias, pertencem à mesma empresa com sede em Miami. Há muito dinheiro em jogo e o nicho de sites alternativos pode ser muito lucrativo na era da pós-verdade, do clickbait e dos "factos alternativos", aponta o autor de outro estudo sobre propaganda e notícias falsas que ajudaram a eleger Donald Trump

À primeira vista, os sites "Liberal Society" e "Conservative 101" não podiam ser mais diferentes. Nas últimas semanas, o primeiro publicou manchetes como "WOW, Sanders acabou de EVISCERAR brutalmente Trump em direto na televisão, Trump está a espumar-se", com uma clara nota de apoio ao senador democrata Bernie Sanders; o segundo títulos como "Nancy Pelosi acabou de ter um esgotamento mental e proferiu a declaração mais louca da sua carreira", referindo um discurso recente da líder da minoria democrata na Câmara dos Representantes e condenando o seu "extremismo de esquerda". Na semana passada, contudo, a linha que separa as duas moradas cibernéticas esbateu-se.

Na quarta-feira, a CNN avançou, com base em fontes anónimas da Casa Branca, que Donald Trump quer impedir mais aparições televisivas de Kellyanne Conway após uma série de controvérsias a envolver a sua conselheira, entre elas ter feito publicidade ilegal à linha de roupa de Ivanka Trump em direto na televisão depois de uma série de cadeias de venda a retalho terem cancelado as encomendas à marca da filha mais velha do Presidente porque não estavam a ter saída junto dos consumidores. (A administração anunciou entretanto que Conway não vai ser disciplinada pelo sucedido.)

De imediato, os dois sites publicaram artigos sobre o alegado plano, o primeiro sob o título "A Casa Branca FINALMENTE afastou Kellyanne Conway, está satisfeito?" e o segundo com a manchete "A Casa Branca acabou de afastar Conway, prepare-se para ficar furioso". Novamente, e a julgar pelos títulos, cada site parecia oferecer textos distintos sobre a história do momento. Mas na verdade o artigo publicado pelo "Liberal Society" e o artigo publicado pelo "Conservative 101" não eram dois mas apenas um, o mesmo, salvo uns ajustes aqui e ali.

Nos dois títulos foi usada a mesma expressão corriqueira para indicar o alegado afastamento de Conway — "give the boot", 'dar um chuto no rabo' numa tradução mais ou menos literal. Podia ser uma coinidência não fosse o facto de o conteúdo dos dois textos ser praticamente igual e estar organizado da mesma forma, aparte a mensagem que cada site pretende passar: no caso do site liberal, a entrada do texto aponta que "Kellyanne Conway tem sido uma diretora de comunicações terrível para Donald Trump"; no outro a assessora é apresentada como "a diretora de comunicações favorita de Donald Trump". Ambos usam os mesmos tweets de Conway e do apresentador da MSNBC Mika Brzezinski sobre o assunto, as mesmas citações da história da CNN e frases idênticas para falar de como a ministra da Propaganda (como Conway é descrita pelo jornalista veterano Carl Bernstein) foi "banida" dos grandes canais televisivos. Na versão conservadora, as referências às televisões foram feitas com recurso à expressão "media liberais do sistema", como Trump e a sua equipa se referem à generalidade dos órgãos de comunicação social dos EUA, que o Presidente também já classificou como "inimigos do povo americano".

As semelhanças gritantes alimentaram dúvidas e suspeitas em Craig Silverman, editor do BuzzFeed, que esta semana acabaria por apurar que os dois sites são detidos pela mesma empresa da Florida. De acordo com uma análise dos registos dos domínios cibernéticos cruzados com dados do Google Analytics e do AdSense, o BuzzFeed determinou na longa investigação que tanto o "Liberal Society" como o "Conservative 101" são ambos propriedade da American News LLC.

As duas moradas em questão integram um crescente número de sites hiperpartidários associados a algumas das páginas de Facebook que mais tráfego online atraíram durante a divisiva campanha eleitoral de 2016. E a empresa com sede em Miami não é só dona desses dois sites como de vários outros que competem entre si, incluindo o liberal "Democratic Review", o conservador "American News" — que no rescaldo das eleições publicou uma notícia falsa sobre o alegado apoio do ator Denzel Washington a Trump — e o "GodToday", um site prolífico em artigos religiosos publicados em modo "clickbait" (quando os títulos crípticos obrigam os leitores a dar cliques aos sites para poderem saber o que está, ou não, a ser noticiado).

Na era da pós-verdade e dos "factos alternativos" — a expressão cunhada por Conway para defender a administração com mentiras — são estes sites que, através de retóricas explosivas que falam diretamente às emoções dos descontentes, quer sejam liberais quer sejam conservadores, continuam a atrair muitos utilizadores e a alimentar a demonização do partido que cada leitor odeia, em artigos sem contraditório que muitas vezes sacrificam os factos em prol dos seus objetivos. Isto já tinha sido revelado pelo BuzzFeed numa análise publicada em outubro, na qual Silverman apurou que três das maiores páginas de Facebook da direita americana publicaram 38% de artigos falsos e informações enganadoras antes das eleições contra quase 20% de artigos da mesma natureza disseminados por três das principais páginas de esquerda naquela rede social.

Dez dias depois de Trump ter vencido as presidenciais em novembro, Jonathan Albright, da Universidade de Elon, publicou um outro relatório detalhado sobre o modus operandi neste ecossistema de media alternativos hiperpartidários e notícias falsas, num artigo intitulado "A micro-máquina de propaganda das eleições de 2016". Consultado pelo BuzzFeed sobre a recente descoberta de que vários dos sites são detidos por uma mesma empresa, independentemente de serem liberais ou conservadores, Albright diz não estranhar que assim seja tendo em conta o dinheiro que está em jogo, sobretudo em receitas publicitárias. "Um dos problemas que é um bocado ignorado é que não estamos a lidar com um lado contra o outro, estamos a falar de pessoas que se unem para porem [as pessoas com] certos tipos de [visões] políticas umas contra as outras."

"Agora que já tem pelo menos dois sites liberais e dois conservadores", adianta Silverman, "a American News LLC parece investida em expandir a sua presença no espaço de clickbait religioso". A 17 de fevereiro, John Crane, funcionário da empresa segundo os registos de propriedade, registou dois novos domínios cibernéticos, um a pender para os conservadores religiosos, o DevoutAmerican.com, e outro, o EthicalAmerican.com, virado para os liberais. Para já ainda nenhum está ativo.