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Trump baralha e volta a dar em primeiro discurso ao Congresso focado na imigração

AFP

Horas depois de ter dito aos jornalistas que está a ponderar atribuir cidadania a imigrantes clandestinos que vivem nos Estados Unidos e que não têm cadastro, o Presidente prometeu uma reforma “real e positiva” no discurso “mais moderado” que já fez desde que anunciou a sua candidatura à presidência em junho de 2015

Passaram 40 dias entre Donald Trump pintar a imagem de "carnificina americana", de um país ameaçado pelos imigrantes, pelo crime generalizado, pela pobreza e a falta de emprego no seu discurso de tomada de posse e, esta terça-feira à noite quando, no seu primeiro discurso no Congresso, prometeu a "renovação do espírito americano" num tom otimista dirigido aos dois partidos e aos cidadãos, no que a maioria dos media e analistas classificaram como "o mais moderado" que já proferiu desde que entrou de rompante na política americana em junho de 2015.

Na terça-feira à noite, madrugada desta quarta em Portugal, o Presidente americano tomou o púlpito no Capitólio para sublinhar aos legisladores e aos cidadãos que acredita ser possível aplicar uma reforma "real e positiva" das políticas de imigração, acompanhada do fomento do crescimento económico e de mais poderio militar para "inaugurar um novo capítulo de grandeza americana".

Horas antes, num almoço com jornalistas na Casa Branca, Trump tinha dito que estava a ponderar uma reforma que poderá passar pela regularização de milhões de imigrantes clandestinos que vivem nos Estados Unidos e que nunca cometeram crimes graves, um volte-face em relação à sequência de promessas de campanha e das estratégias que já seguiu desde que tomou posse a 20 de janeiro – entre elas tentar avançar com um decreto que impediu temporariamente a entrada nos EUA de cidadãos de sete países de maioria muçulmana e que previa também a suspensão dos programas de acolhimento de refugiados e a redução do número de requerentes de asilo a quem o país vai abrir as portas anualmente, dando prioridade aos cristãos que fogem do Médio Oriente. O decreto foi suspenso sob ordens de um tribunal federal de São Francisco e os planos do governo para o substituir passam alegadamente por "flexibilizar" o sistema de deportações de imigrantes sem documentos que tenham cometido crimes, sem fazer distinção entre não pagar uma multa de estacionamento e crimes mais graves como homicídio.

"Estamos no momento certo para adotar um projeto-lei de imigração desde que haja compromisso dos dois lados", disse o Presidente aos principais apresentadores de televisão presentes no almoço de terça-feira, de acordo com pessoas que participaram no encontro ao "New York Times". Pouco depois, antes do seu antecipado discurso na sessão conjunta do Congresso, a União Americana pelas Liberdades Civis (ACLU) condenava publicamente os planos da administração de divulgar informações privadas de imigrantes e estrangeiros que visitam o país, isto depois de várias empresas do setor turístico terem avançado que a indústria está a sofrer bruscas quedas na procura de voos e nos preços do ramo hoteleiro desde que Trump foi eleito.

Já à noite, no antecipado discurso para o qual convidou familiares de norte-americanos mortos por imigrantes (os democratas convidaram imigrantes clandestinos), Trump não faria qualquer referência à possível amnistia discutida com os jornalistas, uma política parcialmente implementada por anteriores administrações que tanto ele como os seus apoiantes condenaram durante a campanha presidencial. Pelo contrário, voltou a reforçar a ideia de que a vasta comunidade de imigrantes que vivem nos EUA é responsável por uma onda de crimes que o seu governo vai erradicar.

"Enquanto estamos aqui a falar, membros de gangues, traficantes de droga e criminosos que ameaçam as nossas comunidades e os nossos cidadãos estão a ser removidos. Tal como prometi,os maus estão a sair de cena enquanto eu falo aqui esta noite. […] Não podemos permitir que a América se torne uma praça de armas para o terrorismo. Não podemos permitir que a nossa nação se torne um santuário para os extremistas", acrescentou mais para o final, fazendo questão de usar a expressão "terrorismo radical islâmico" contra os conselhos do seu novo chefe do Conselho de Segurança Nacional, para gáudio dos republicanos presentes e perante o silêncio impenetrável da bancada da oposição, cujas mulheres se vestiram de branco em protesto contra os ataques da administração à igualdade de género.

Apesar disto, houve um claro contraste entre este e os seus anteriores discursos, sobretudo em relação ao que proferiu na tomada de posse: desta vez, defendeu a ortodoxia republicana num tom sóbrio, seguindo à linha o texto que foi previamente preparado e introduzido no teleponto para alimentar o otimismo dos norte-americanos ao seu leme e para dar a ideia de que está disposto a trabalhar com a oposição. "Chegou o momento de acabar com as mentes tacanhas e lutas triviais. A partir de agora, a América será fortalecida pelas nossas aspirações e não sobrecarregada pelos nossos medos", declarou sob uma de várias ovações dos legisladores republicanos. "A minha administração quer trabalhar com os membros dos dois partidos para garantir o acesso a cuidados de saúde infantis, para garantir que os pais têm licenças pagas, para investir na saúde das mulheres e para promover ar e água limpos e reconstruir as nossas infraestruturas militares."

Foi um discurso que surpreendeu pela moderação, pela eloquência e pela distância marcada em relação a várias promessas de campanha, a começar pela guerra contra o Affordable Care Act, mais conhecido como Obamacare, o programa de cuidados de saúde universais que prometeu erradicar antes de chegar à presidência, e a acabar numa aparente defesa do ambiente e do combate às alterações climáticas, depois de ter passado meses a sugerir que o aquecimento global cientificamente comprovado não passa de um "embuste" criado por e para a China poder competir no mercado global. "Um conto sobre dois discursos", foi como Dan Balz intitulou a sua análise às palavras de Trump no "Washington Post" na qual sublinhou "as contradições da presidência Trump". "Foi um discurso presidencial convencional, feito de forma convencional", ditou Anthony Zurcher, o correspondente da BBC em Washington. "Em qualquer outro ano, teria sido um discurso pouco marcante. Na era Trump, contudo, em que o ordinário parece improvável, o discurso de terça à noite provou-se decididamente inesperado."

Inesperado, também, que tenha finalmente endereçado a onda de crimes de ódio que está a assolar os Estados Unidos, desde o vandalismo em cemitérios judaicos e centenas de ameaças a centros comunitários de americanos judeus até ao ataque de há uma semana no Kansas, em que um americano matou a tiro um indiano e feriu duas pessoas, um outro imigrante do mesmo país e um conterrâneo que tentou proteger os presentes, gritando que saíssem do seu país. Foi, aliás, assim que Trump inaugurou o discurso no Congresso. "Esta noite, ao concluirmos as celebrações do Mês da História dos Negros, somos lembrados do caminho da nossa nação pelos direitos civis e do trabalho que ainda temos pela frente. Ameaças recentes a centros judaicos e o vandalismo em cemitérios judaicos, bem como o tiroteio da semana passada na Cidade do Kansas, lembra-nos que embora possamos ser uma nação politicamente dividida, somos um país unido na condenação ao ódio e ao mal em todas as suas formas."

As palavras foram suficientes para convencer muitas pessoas até agora desiludidas com a postura do Presidente norte-americano. Numa sondagem instantânea da ORC para a CNN, 57% dos inquiridos disseram ter tido uma "reação muito positiva" ao discurso de Trump, com quase sete em cada dez a declararem que as propostas do Presidente vão pôr os Estados Unidos na direção certa, noticiou o canal. Facto é que houve poucas propostas concretas no discurso ensaiado; esta quarta-feira, os jornalistas e os cidadãos continuam sem saber o que é que o governo pretende fazer em relação a temas fraturantes como a imigração e os cuidados de saúde. Outro facto é que, de acordo com várias organizações de verificação de factos que se debruçaram sobre o mais recente discurso do Presidente, Trump proferiu 61 declarações na noite de ontem e 51 foram total ou parcialmente falsas.

No rescaldo do discurso, as redes sociais dividiram-se entre os que aplaudiram o "tom presidencial" e a forma como Trump finalmente vestiu o fato de líder dos norte-americanos e os que não se deixaram convencer pela sobriedade e a aparente moderação. "A América voltou a ser a América outra vez e Trump acabou de se tornar o líder do mundo livre", escreveu o utilizador Alan B no Twitter. "Não adoro Donald Trump mas não podia concordar mais com ele em tudo o que disse aos membros do nosso congresso esta noite", opinou Manuel Rodriguez na mesma rede. "Se Donald Trump quer condenar o ódio e o mal, devia começar por dar o exemplo e retrair as suas palavras odiosas", contrapôs o antigo Presidente do México Vicente Fox. "É incrível como hoje é notícia que o Presidente discurse contra crimes de ódio", escreveu o economista Justin Wolfers. "Emergiu a estratégia dual da Casa Branca: 1) Trump no Twitter agita e dá fogo à sua base; 2) Trump no teleponto renormaliza e tranquiliza. Goste-se ou não, este foi um discurso político eficaz", acrescentou o jornalista Dave Wasserman.

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