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Internacional

ONGs que salvam imigrantes no mar estimulam o tráfico humano, diz chefe do Frontex

JANEK SKARZYNSKI/GETTY

As ONGs respondem que se limitam a fazer o que os governos deixaram de fazer. As ações humanitárias são "não a causa mas uma resposta", frisam os Médicos Sem Fronteiras

Luís M. Faria

Jornalista

O chefe da Frontex, a agência europeia de fronteiras, criticou esta semana as organizações não-governamentais que salvam imigrantes no mar ao largo da Libia, acusando-as de estimular as redes de traficantes a carregar um número crescente de viajantes em barcos sem combustível nem água suficiente.

"Temos de evitar apoiar o negócio das redes criminosas e dos traficantes na Libia", disse Fabrice Leggeri numa entrevista ao jornal alemão “Die Welt”. Ao recolherem imigrantes cada vez mais próximo da costa líbia, as ONGs promovem um sistema onde os traficantes já contam com elas para efetuar a parte final da viagem - quase como se fossem táxis, segundo já tinha descrito um relatório publicado em dezembro. "Este ano, apesar do mau tempo, mais de 4500 imigrantes atravessaram o Mediterrâneo e desembarcaram em Itália", afirmou Leggeri.

O chefe da Frontex também acusou as ONGs de não colaborarem com as agências de segurança, dificultando as investigações policiais sobre as redes de tráfico humano. Um tribunal italiano já tinha anunciado a decisão de investigar quem financia os barcos privados que realizam operações hoje em dia muito amplas no Mediterrâneo (mais de 40 por cento dos salvamentos recentes foram efectuados por elas, disse Leggeri). Há quem suspeite que por vezes coordenam as suas atividades com as dos traficantes.

Várias ONGs reagiram imediatamente as declarações de Leggeri. Os Médicos Sem Fronteiras (MSF), por exemplo, consideraram-nas "extremamente sérias e prejudiciais". Negando as acusações de falta de colaboração, disseram que se limitam a fazer aquilo que a UE e os seus governos deixaram deliberadamente de fazer. As forças navais europeias restringem-se a zonas próximas da costa, incluindo ilhas gregas e italianas, e ninguém do outro lado do Mediterrâneo preenche a lacuna.

As ações humanitárias são "não a causa mas uma resposta", conclui a MSF. Um ponto de vista apoiado por uma deputada dos Verdes no parlamento alemão, Luise Amstberg. "O número de mortos seria muito maior sem o compromisso incansável das organizações não governamentais", disse ela.

Entretanto, a ideia de reunir na Líbia os candidatos a asilo, em campos especialmente construídos e devidamente equipados, voltou a ser proposta por Antonio Tajani. O novo presidente do parlamento europeu explicou que é a única forma de evitar que vinte milhões de refugiados acorram à Europa. Mas os campos já existentes, onde se verifica todo o tipo de abusos, não são um precedente encorajador.

Uma estimativa diz que cerca de 60 por cento dos imigrantes são refugiados económicos. Porém, numa parte do mundo onde tantas zonas se encontram em guerra, a distinção em muitos casos será extremamente difícil de fazer.