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Internacional

Houve dez ataques por dia contra refugiados e centros de asilo na Alemanha em 2016

Sean Gallup

Entre janeiro e dezembro do ano passado, pelo menos 560 requerentes de asilo ficaram feridos em ataques xenófobos, incluindo 43 crianças, avança o Ministério do Interior alemão

Mais de 3500 refugiados acolhidos pela Alemanha nos últimos anos foram alvos de ataques xenófobos em 2016, de acordo com um relatório do Ministério do Interior divulgado este domingo. Em comunicado, o Ministério cita números da polícia, que entre janeiro e dezembro do ano passado registou mais de 3500 ataques contra refugiados, migrantes e os centros de asilo espalhados pelo país, o que corresponde a uma média de quase dez ataques xenófobos por dia. Ao todo, pelo menos 560 pessoas ficaram feridas em ataques desta natureza, incluindo 43 crianças.

"Pessoas que fugiram dos seus países e das suas casas e que procuraram proteção na Alemanha têm direito a abrigo seguro", sublinha o Ministério no comunicado citado pela AFP. Entre os casos denunciados no documento oficial conta-se o de um neonazi alemão que este mês foi condenado a oito anos de prisão por ter ateado fogo a um centro de acolhimento de refugiados, um ataque que não fez vítimas mas que se saldou em estragos no montante de 3,5 milhões de euros. A par desse, as autoridades fazem ainda referência a um dos casos mais chocantes de xenofobia registados no ano passado, quando uma multidão de alemães aplaudiu o incêndio de um hotel transformado em abrigo de requerentes de asilo na Saxónia enquanto via o edifício ser engolido pelas chamas.

"Estamos a assistir a quase dez atos [criminosos] por dia", denunciou este domingo Ulla Jelpke, deputada socialista do partido Die Linke, ao grupo de media Funke. "Será que tem de haver pessoas a morrer por causa da violência de extrema-direita para que isto seja visto como um problema doméstico central e para que o assunto suba para o topo da lista de prioridades da agenda política?"

Do total de ataques registados pela polícia em 2016, 988 foram contra abrigos de refugiados e migrantes, um número similar ao do ano anterior. Em 2014, pelo contrário, houve apenas 199 casos desta natureza. Em 2015, a Alemanha acolheu 890 mil requerentes de asilo, sobretudo refugiados do Médio Oriente e do continente africano, um número que decresceu para 280 mil no ano seguinte, em parte por causa do controverso acordo alcançado pela União Europeia com a Turquia para encerrar a rota dos Balcãs.

A decisão da chanceler Angela Merkel de abrir as portas aos refugiados, fazendo da Alemanha o país europeu que mais pessoas acolheu em anos recentes, polarizou a sociedade. O aumento da retórica populista anti-imigração e essa decisão têm levado à subida de popularidade do partido de extrema-direita Alternativa para a Alemanha (AfD), numa altura em que o país continua a ser inundado por notícias falsas que têm na chanceler o seu principal alvo e que têm contribuído para o aumento da xenofobia e sentimentos anti-imigração.

Há menos de duas semanas, a procuradoria de Frankfurt anunciou a conclusão de um inquérito às alegadas violações em massa perpetradas por requerentes de asilo durante a passagem de ano no final de 2015. "São alegações completamente infundadas", disse o porta-voz da polícia ao jornal "Frankfurter Rundschau" sobre as "notícias" disseminadas por jornais ligados à extrema-direita, que depressa ganharam destaque mediático em todo o mundo. "Entrevistas com alegadas testemunhas, pessoas presentes e empregados elevaram grandes dúvidas sobre a forma como os eventos foram descritos. Uma das alegadas vítimas nem sequer estava em Frankfurt na altura em que os alegados ataques tiveram lugar. Massas de refugiados não foram responsáveis por qualquer tipo de violência sexual em Fressgass na passagem de ano. As acusações são completamente infundadas."

A notícia de que o número de crimes de ódio contra refugiados e migrantes está em crescendo surge numa altura em que os alemães se preparam para uma importante ida às urnas nas eleições federais de setembro. Merkel é candidata a um quarto mandato consecutivo pela CDU mas as mais recentes sondagens indicam que já foi ultrapassada pelo SPD de Martin Schulz. Até à semana passada, a AfD continuava estável no terceiro lugar, com cerca de 12% das intenções de voto, três pontos percentuais abaixo dos 15% registados para o movimento neonazi em setembro. Esta segunda-feira, o "The Guardian" nota que o movimento está em queda, depois de três inquéritos de opinião divulgados na semana passada colocarem o partido abaixo dos 10%.

"A súbita baixa já está a surtir efeitos na liderança do partido", aponta o correspondente do jornal britânico em Berlim. Na sexta-feira, os media alemães noticiaram que, por causa das últimas sondagens, membros do AfD estiveram a recolher assinaturas para forçar a eleição de um novo líder que substitua a atual liderança bicéfala de Frauke Petry e Jörg Meuthen. "Embora a AfD tenha conseguido sempre sair-se melhor do que as sondagens previam no passado, e apesar de o facto de entrar no parlamento [federal alemão] representar um triunfo para um grupo político formado há apenas três anos, analistas dizem que é difícil antecipar que os problemas do partido se resolvam antes de setembro. A atual crise da AfD começou em meados de janeiro com um discurso sem tabus feito por Björn Höcke, que num bar de Dresden pediu uma 'viragem de 180 graus' na cultura alemã de lembrança e reconciliação da era nazi". Desde então, o partido está a braços com uma discussão interna sobre se Höcke deve ou não ser expulso por causa das declarações pró-nazis.