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Um guião político para o Carnaval

SAMBA NO PÉ Uma escola de samba nos ensaios do Carnaval deste ano

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O Presidente Michel Temer, o processo judicial Lava Jato e o estatuto que protege os políticos animam os festejos carnavalescos. Mas o ambiente de folia não faz esquecer a angústia de muitos políticos quanto ao previsível levantamento do sigilo das denúncias, que pode acontecer assim que acabar o Carnaval

Quando são apenas conhecidas três das 77 denúncias feitas pela construtora Odebrecht no âmbito da operação Lava Jato, o maior processo de corrupção da história do Brasil, o país entra no Carnaval. A tal época que são três dias de delírio “para tudo se acabar na quarta-feira”, como sintetizaram há quase sessenta anos Vinicius de Moraes e Tom Jobim.

O ambiente de folia não faz esquecer a angústia de muitos políticos quanto ao previsível levantamento do sigilo das denúncias da maior construtora brasileira, conhecida como a “delação do fim do mundo”. O Presidente Michel Temer é citado, tal como seis dos seus ministros. E multiplicam-se as apostas para saber quantos mais membros do seu governo serão denunciados na operação Lava Jato.

A marchinha dos codinomes (alcunhas)

O que têm em comum o “Primo”, o “ Vizinho”, o “Angorá, o “Babel” e o “Kafta”? A resposta correta é: são cinco ministros de Michel Temer, identificados segundo as alcunhas que constam na lista de pagamentos da Odebrecht . O grupo de investigados pela Lava Jato inclui assim, respetivamente, Eliseu Padilha (Casa Civil - PMDB), José Serra (Negócios Estrangeiros - PSDB), Moreira Franco (Presidência - PMDB), Geddel Vieira de Lima (Secretaria do Governo - PMDB) e Gilberto Kassab (Ciência – PSD). A lista fica completa com o nome do ex-bispo da IURD Marcos Moreira (Cidades – PRB).

Com letra e música do maestro Jorge Antunes, professor da Universidade de Brasília, esta “marchinha” é a descodificação da lista de pagamentos da Odebrecht feita em dezembro por Claúdio Mello Filho, antigo vice-presidente de Relações Institucionais da construtora. Mais de 200 políticos de 18 partidos constam na lista de pagamentos da empresa.

Michel Temer não tem alcunha conhecida, mas as suas iniciais surgem no refrão: "Não quero MT/ Eu quero é meter toda a quadrilha na prisão".

De cunho menos político e mais satírico, Temer é também “homenageado” com “O Presidento da Transilvânia“ (que satiriza o facto de ter sido comparado a “um mordomo de filme de terror”) e com “Haagen Dasz”, a propósito de um concurso milionário para fornecimento de mantimentos para o avião presidencial onde constava a marca de gelados.

Denúncias chegam ao topo da hierarquia

Se bem que muitos elementos do Partido dos Trabalhadores estejam referenciados na lista da Odebrecht e mesmo presos a aguardar julgamento no âmbito da operação Lava Jato, esta “Marchinha dos Codinomes” põe a tónica no topo da hierarquia do Estado. “Botafogo” é o nome dado a Rodrigo Maia (DEM), atual presidente da câmara dos deputados. Sendo 2.º na lista de sucessão, Maia será o primeiro a substituir Temer, pois o cargo de vice-presidente ficou vago desde que o atual Presidente substituiu Dilma Rousseff. Maia teve como antecessor “Carlos Trivoli”, alcunha de Eduardo Cunha (PMDB), considerado por muitos o arquiteto da destituição de Dilma.

Seguem-se na hierarquia o recém-eleito presidente do Senado, Eunício do Amaral, e o seu antecessor, Renan Calheiros, o “Índio” e o “Justiça”. Ambos do PMBD, de Michel Temer, estão a ser investigados por corrupção. Calheiros é mesmo um “campeão” de processos na Justiça: é réu em 11 processos. Mas como goza do chamado “foro privilegiado”, uma prerrogativa constitucional que protege detentores de cargos públicos da alçada dos tribunais comuns, só pode ser julgado no Supremo Tribunal Federal, com rituais e tempos diferentes. Um dos processos contra Calheiros corre desde 2007.

“Blindagem” e “foro privilegiado” (Marchinha dos Tucanos)

Apesar de dedicada ao PSDB, partido cujos membros são conhecidos por Tucanos, é o PMDB, de Temer, o protagonista da polémica mais recente. A promoção a ministro de Moreira Franco (o “Angorá”) para o proteger da Lava Jato desencadeou uma controvérsia que ainda hoje, quinta-feira, se faz sentir na imprensa brasileira. É uma manobra de “blindagem” igual à que aconteceu com Lula da Silva há quase um ano mas com desfecho diferente. Franco (PMDB) é ministro e goza de foro privilegiado. Lula, não.

A 17 de março de 2016 e em poucos minutos a tomada de posse do ex-presidente como membro do gabinete de Dilma foi anulada por um juiz, após uma semana de fugas de informação para a imprensa arquitetadas por Moro, conhecidas como “vazamentos”.

“O Brasil é o país, entre as nações democráticas, com o maior número de autoridades com foro privilegiado: são 32 mil pessoas. E isso é uma herança da ditadura”, disse esta terça-feira o senador Randolfe Rodrigues (Rede) citado pela Agência Senado. Na audição no Senado que confirmou Alexandre de Moraes como juiz do Supremo Tribunal Federal (STF), Randolfe Rodrigues lembrou ainda que 68% dos casos com foro especial prescrevem e que só há condenações em 0,74% dos processos. Recorde-se que o ex-ministro da Justiça (PSDB) foi nomeado por Temer para substituir Teori Zawascki, o relator da Lava Jato no STF que morreu numa queda de avião a 17 de janeiro.

FAMOSO O agente Lucas, da Polícia Federal (em segundo plano, de barba), tornou-se um fenómeno e vai ser uma das figuras deste Carnaval

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O lenhador da Federal

A marchinha “O lenhador da Federal” deverá ser um dos grandes êxitos do Carnaval de 2017. O agente Lucas Valença da Polícia Federal ganhou notoriedade no dia da prisão do ex-deputado Eduardo Cunha (na foto). De barba crescida e com o cabelo apanhado, Valença foi um fenómeno das redes sociais e ficou conhecido por “Lenhador” ou “Hipster” da Federal.

E tudo leva a crer que a “marchinha” que o toma por personagem em 2017 venha a destronar a popularidade de um dos grandes êxitos do Carnaval do ano passado: “O japonês da Federal”. Mais de 2,5 milhões de pessoas ouviram a “marchinha” dedicada ao agente Newton Ishii, que surgia nas fotografias da prisão de Marcelo Odebrecht.

Enquanto o “hipster” é uma das vedetas do Carnaval deste ano, Eduardo Cunha perdeu a notoriedade carnavalesca de anos anteriores. No entanto, é uma das maiores fontes de ansiedade para o governo de Temer. Para muitos analistas, a hipótese de um acordo de Cunha com a Justiça ganha peso à medida que o tempo de prisão vai correndo. Cunha comandava um exército de mais de 200 deputados de vários partidos. Foi a eminência parda de Temer e as questões que tem levantado sobre o Presidente junto das autoridades nestas últimas semanas causam cada vez mais dores de cabeça no Planalto.