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Detida senadora filipina que acusou Presidente de ser “assassino em série sociopata”

Leila de Lima passou a noite refugiada no Senado, de onde foi levada pela polícia na manhã de 24 de fevereiro

TED ALJIBE

Oposição e ativistas de direitos humanos denunciam tentativa de silenciar Leila de Lima, a maior crítica interna da sangrenta política de combate às drogas seguida pelo governo de Rodrigo Duterte nas Filipinas. Partido Liberal diz temer pela integridade física da sua senadora, após um outro político, também detido sob acusações de tráfico de droga, ter sido morto pela polícia

Uma das legisladoras que mais tem criticado a brutal guerra contra as drogas seguida pelo Presidente Rodrigo Duterte nas Filipinas foi detida esta sexta-feira sob acusações de tráfico de droga, no que críticos do governo e ativistas de direitos humanos dizem ser uma tentativa de a silenciar. Antes de ser levada pela polícia, a senadora Leila de Lima garantiu aos jornalistas que vai continuar a lutar contra Duterte, um "assassino em série sociopata", numa altura em que enfrenta prisão perpétua caso seja formalmente condenada por tráfico.

"É uma honra ser presa por lutar contra isto. Por favor, rezem por mim", disse a legisladora à porta do seu escritório no Senado, onde passou a noite refugiada após um mandado de detenção ter sido emitido pelas autoridades na quinta-feira. "Eles não vão calar-me nem impedir-me de lutar pela verdade e pela justiça e contra os homicídios diários e a repressão ordenada pelo regime de Duterte."

Esta quinta-feira à noite, De Lima tinha pedido à polícia que não cumprisse as ordens para a capturar: "Se eles respeitam o Senado enquanto instituição, não irão forçar a minha detenção." A senadora acabaria por se render já esta manhã, com dezenas de jornalistas concentrados à porta do edifício a presenciarem a sua detenção. Pouco antes de ser escoltada e levada pela polícia, fez um vídeo onde pede aos filipinos que tenham a coragem de se opor à sangrenta guerra de Duterte contra as drogas, que já se saldou em mais de 6500 homicídios de alegados traficantes bem como de consumidores de droga desde que o controverso político tomou posse como Presidente há oito meses.

"Não há dúvidas de que o nosso Presidente é um homicida e um assasino em série sociopata", diz no vídeo de dez minutos que publicou na sua página de Facebook.

A antiga comissária de Direitos Humanos e ex-ministra da Justiça, eleita para o Senado no ano passado, diz que a sua detenção é um ato de vingança do Presidente por ter passado as últimas décadas a expor os crimes que ele cometeu enquanto autarca da cidade de Davao, um cargo que ocupou durante mais de 20 anos; nesse período, Duterte foi várias vezes acusado, por críticos internos e por organizações não-governamentais, de liderar esquadrões da morte responsáveis por execuções extrajudiciais de suspeitos de tráfico e consumo de drogas.

Em agosto, Duterte tinha acusado a senadora de liderar uma rede de tráfico dentro da maior prisão do país, enquanto ministra da Justiça no anterior governo de Benigno Aquino, tecendo ainda comentários sem fundamento sobre a vida sexual da senadora. "Vou ter de a destruir em público", disse o Presidente quando deu início à campanha de difamação. De Lima foi formalmente acusada de tráfico de droga na semana passada.

Os seus apoiantes acusam o governo de orquestrar as acusações não só para silenciar a sua maior crítica mas também para intimidar qualquer pessoa que pretenda denunciar e criticar publicamente a proclamada 'guerra contra as drogas' que está em curso no país. "As pessoas estão com medo", disse à AFP Robert Reyes, um padre e ativista que passou a noite de quinta para sexta-feira a dar apoio à senadora. "Se o governo pode prender uma pessoa tão poderosa como ela, o que podem os mais pequenos fazer? É esta a mensagem que fica implítica com a sua detenção."

Leni Robredo (dta) foi eleita vice-Presidente das Filipinas numa candidatura distinta da do Presidente Rodrigo Duterte (esq)

Leni Robredo (dta) foi eleita vice-Presidente das Filipinas numa candidatura distinta da do Presidente Rodrigo Duterte (esq)

TED ALJIBE

Leni Robredo, que pertence ao Partido Liberal de Leila de Lima e que foi eleita para a vice-presidência numa candidatura distinta da de Duterte e do seu partido, já classificou publicamente a detenção como "assédio político". Em comunicado, o partido de ambas, que esteve no poder sob a liderança de Aquino entre 2010 e junho de 2016, foi mais longe. "Esta detenção é uma pura vendeta política que não devia ter lugar num sistema judicial que defende o Estado de Direito. Isto é condenável. Reiteramos que uma detenção com base em acusações falsas é ilegal."

No documento, o partido diz temer pela vida da sua senadora, citando o caso de um outro político, Rolando Espinosa, que foi morto pela polícia numa cela de prisão, em novembro, depois de ter sido detido também sob acusações de tráfico. O NBI, correspondente ao FBI das Filipinas, acusa os agentes envolvidos de assassinarem um homem indefeso, mas Duterte defende publicamente a força policial a quem deu carta branca no âmbito da guerra contra suspeitos de tráfico e consumo de droga e garante que ninguém será responsabilizado pelo homicídio.

Esta quinta-feira, a Amnistia Internacional sublinhou em comunicado que caso a detenção de Leila de Lima avançasse a senadora ia tornar-se uma prisioneira de consciência. "A detenção é uma tentativa flagrante do governo filipino silenciar as críticas ao Presidente Duterte e desviar as atenções para longe de sérias violações de direitos humanos cometidas no âmbito da 'guerra contra as drogas'", diz a organização em comunicado.

A equipa de Duterte continua a garantir que as políticas do novo governo não são contrárias à lei, com o porta-voz do Presidente a garantir que as autoridades têm um caso forte contra a senadora e que a sua detenção só demonstra que até as pessoas mais poderosas são levadas à Justiça quando violam a lei. "A guerra contra as drogas ilegais tem como alvos todos os que estão envolvidos [em tráfico] e a detenção de uma senadora em funções demonstra o forte empenho do Presidente em lutar contra os traficantes e vendedores e contra quem os protege", disse Ernesto Abella.