Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Comportamento “perturbador” de Trump leva porta-voz do Conselho de Segurança Nacional a demitir-se

Trump foi acusado de contratar pessoas para estarem nas filas da frente a aplaudi-lo durante o seu discurso na sede da CIA

MANDEL NGAN

Edward Price, agente da CIA há 11 anos, serviu as administrações de George W. Bush e de Barack Obama mas recusa-se a trabalhar para o novo governo norte-americano. Decisão do Presidente de dar a Steve Bannon um lugar na comissão diretora do CSN foi a “última gota” que levou o espião a decidir abandonar a agência

Edward Price decidiu juntar-se à CIA em 2006 "convencido de que era o sítio ideal para servir o país e dar uso à licenciatura em Relações Internacionais que de outra forma seria abstrata". Diz que não ficou desapontado com a decisão mas que, face aos comportamentos e políticas do novo Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que tomou posse a 20 de janeiro, não pode continuar a trabalhar na comunidade de espionagem norte-americana. "Apesar de ter trabalhado com orgulho para um Presidente republicano e um democrata, concluí com relutância que não posso, em boa fé, servir esta administração enquanto profissional dos serviços de informação", referiu esta semana ao confirmar que se demitiu dos cargos que ocupava.

A decisão foi explicada num artigo de opinião publicado no "Washington Post" na segunda-feira, sob o título "Nunca pensei que teria de abandonar a CIA mas por causa de Trump demiti-me". No texto, o agente que até há pouco tempo foi porta-voz do Conselho de Segurança Nacional (CSN) dos Estados Unidos, explica que foi ficando preocupado com uma série de ações controversas do novo Presidente norte-americano, entre elas o o facto de ter denegrido a comunidade de espiões do seu próprio país, quando esta concluiu que a Rússia levou a cabo ciberataques para influenciar os resultados das presidenciais de novembro, e também o controverso discurso que proferiu na sede da CIA logo após tomar posse, um discurso político que deixou os espiões norte-americanos "desconfortáveis" e apreensivos em relação ao novo governo, numa altura em que a nova administração continua em pé-de-guerra com os espiões.

"As ações de Trump [desde que chegou à presidência] têm sido cada vez mais perturbadoras. A visita dele à sede da CIA no seu primeiro dia no poder foi uma abertura destinada a reparar as relações [entre o Presidente e a comunidade de espionagem] que ficou desfeita pelo seu ego e ruído, a gabar-se da multidão que esteve na tomada de posse no dia anterior. Quer tenham sido ilusórias ou enganosas, as suas declarações não foram o que muitos dos meus antigos colegas e eu queríamos ouvir do novo comandante supremo" dos EUA, depois de o lugar deixado vago por Michael Flynn na direção do CSN ter sido ocupado pelo tenente-general do Exército H. R. McMaster.

A "última gota", refere Price, foi a nomeação de Steve Bannon para a comissão diretora do CSN. O controverso estratega chefe da Casa Branca tem comprovadas ligações à extrema-direita, através do site "Breitbart News" que fundou e que dirigiu até ao ano passado, e já foi acusado de antissemitismo e xenofobia. Na terça-feira, o porta-voz de Trump, Sean Spicer, disse que o Presidente está disposto a reconsiderar o papel de Bannon no conselho se assim lhe for pedido.

"A reação condenatória do público levou a administração a fazer inversão de marcha", reconhece Price, "mas a inclinação da Casa Branca é clara: não quer profissionais dos serviços de informação que, ao dizerem a verdade aos que detêm o poder, possam desafiar a chamada ortodoxia 'América primeiro' [slogan de Donald Trump] em que a Rússia é vista como aliada e a Austrália é um saco de boxe", denuncia o ex-agente da CIA, referindo-se à conversa de Trump com o primeiro-ministro australiano, que segundo fontes internas da Casa Branca acabou abruptamente com o Presidente norte-americano a desligar o telefone na cara de Malcolm Turnbull e a queixar-se do "pior telefonema" daquele dia, na sequência de desavenças sobre o acolhimento de refugiados. "É por isso que os conselheiros da Casa Branca em quem Trump confia, e não profissionais de carreira [das agências de informação], é que parecem ter a palavra final sobre que informações é que chegam à sua secretária."

No artigo, o agente demissionário garante que a sua decisão "não tem nada a ver com política" nem é partidária. "Teria tido todo o orgulho em voltar a trabalhar para uma administração republicana que demonstrasse abertura às análises dos serviços de informação", sublinha. Contudo, e embora assuma que chegou a ter diferenças políticas tanto com George W. Bush como com Barack Obama, Price diz que a situação agora é diferente. "Se esta administração quiser seriamente construir uma relação de confiança com a comunidade de espionagem, será preciso mais do que discursos na sede da CIA e comunicados de imprensa. O que os profissionais dos serviços de informação querem acima de tudo é saber que os frutos do seu trabalho, muitas vezes recolhidos pondo a vida em risco, merecem devida deferência no processo de decisões políticas." Até que isso aconteça, sublinha o americano, "o Presidente Trump e a sua equipa vão continuar a prejudicar os homens e mulheres dedicados [das agências de espionagem] e a nação que eles servem com orgulho, mesmo que em silêncio."