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Milo Yiannopoulos. O agente provocador da era Trump foi ao tapete

Professores de Berkeley dizem que violência nos protestos foi obra de um grupo de extrema-direita que apoia Milo Yiannopoulos e que queria espalhar o caos

Elijah Nouvelage / Getty Images

Define-se como um ultraconservador e é definido pelos críticos como um ultraprovocador. Ia participar numa conferência ao lado de Donald Trump mas uma gravação em que parece defender a legalização da pedofilia já levou à retirada do convite e ao cancelamento de um contrato literário para lançar a autobiografia “Perigoso”. Há um mês, a coqueluche da “direita alternativa” já tinha protagonizado um incidente na Universidade de Berkeley; estudantes mobilizaram-se contra a presença de Yiannopoulos no campus e o Presidente Trump, a quem o editor do Breibart chama “papá”, ameaçou cortar o financiamento federal ao estabelecimento por não respeitar “a liberdade de expressão”

Milo Yiannopoulos garante que condena a pedofilia mas uma gravação ressuscitada na internet por estes dias passa outra imagem do ultraconservador, atualmente uma das mais notórias figuras da chamada “direita alternativa” dos Estados Unidos (leia-se, extrema-direita). Antes de o podcast ter sido repescado na internet, a União Conservadora Americana (ACU) tinha anunciado no sábado que Yiannopoulos, editor do “site” Breitbart News (fundado e até há alguns meses dirigido pelo atual estratega e conselheiro de Segurança Nacional da Casa Branca, Steve Bannon) ia discursar na sua conferência (CPAC), um encontro anual da direita conservadora que este ano contará com a participação do Presidente Trump. “Achamos que a liberdade de expressão passa por ouvir a importante perspetiva de Milo”, disse no Twitter Matt Schlapp, atual diretor da ACU.

Ainda antes de a gravação ressurgir, Yiannopoulos já tinha angariado atenções no rescaldo da vitória eleitoral de Donald Trump, a quem chama “papá”. Foi por essa altura que deu início a uma espécie de périplo por universidades norte-americanas para “mostrar aos estudantes que o discurso de ódio é fixe”. Assim noticiou a CNN a 3 de fevereiro, dois dias depois de Yiannopoulos ter estado no centro de uma controvérsia na Universidade de Berkeley, quando estudantes da maior universidade da Califórnia se mobilizaram contra a presença do nacionalista no campus, em protesto contra o facto de a instituição ter endereçado um convite a um homem que defende abertamente discursos de ódio, xenofobia e sexismo.

 Milo Yiannopoulos

Milo Yiannopoulos

Drew Angerer / Getty Images

O caso Berkeley

O evento foi cancelado por pressão dos alunos, depois de alguns manifestantes terem usado bombas de fumo e lança-chamas durante o protesto na noite de 1 de fevereiro. Na altura Robert Reich, um dos mais proeminentes professores da UC Berkeley, que foi ministro do Trabalho no governo de Bill Clinton e que esteve presente nos protestos contra Yiannopoulos, disse suspeitar que as ações violentas de alguns manifestantes foram, na verdade, executadas por membros da extrema-direita que apoiam o editor do Breitbart e que queriam espalhar o caos na universidade.

“Estive lá uma parte da noite passada e sei o que vi”, denunciou Reich à CNN. “Aquelas pessoas não eram estudantes de Berkeley, eram agitadores externos. Há rumores de que eram membros da extrema-direita, que integram um grupo que se organizou para criar tumultos e perigo como o que vimos, forçando a polícia a cancelar o evento.” (O Breitbart acusou o professor universitário de disseminar uma teoria da conspiração sem fundamento. Cinco dias depois, o FBI abriu uma investigação ao caso, para apurar a identidade dos responsáveis.)

Yiannopoulos queixou-se no Facebook de ter sido vítima de uma multidão de “extrema-esquerda” enraivecida. “Fui retirado do campus de Berkeley após manifestantes violentos da extrema-esquerda terem destruído barricadas, ateado incêndios, atirado pedras e foguetes contra as janelas e invadido o piso térreo do edifício” onde a conferência ia ter lugar. Logo a seguir, o Presidente Trump ameaçava no Twitter com o corte de fundos federais à universidade por ter impedido Yiannopoulos de falar. “Se a UC Berkeley não autoriza a liberdade de expressão e pratica violência contra pessoas inocentes com pontos de vista diferentes — FICA SEM FUNDOS FEDERAIS?”

O caso acabou por ficar a marinar até hoje (o FBI ainda não divulgou conclusões preliminares da investigação) e Yiannopoulos pareceu retirar-se temporariamente de cena — até este fim-de-semana. Há alguns dias, já depois de Matt Schlapp ter anunciado que o editor do Breibart era um dos convidados da conferência da ACU no Maryland, cibernautas desenterraram uma gravação que está disponível na internet há vários anos mas que só agora ganhou destaque.

“Apoio à pedofilia”

Nela, Yiannopoulos faz alusão, em tom jocoso, a um encontro de cariz sexual entre um adolescente e um padre católico para argumentar que as leis de consentimento e as que protegem menores de abuso sexual devem ser alteradas. Num dos excertos postos a circular no Twitter, diz que a idade para consentimento sexual “não é uma questão preto no branco” e que as relações “entre rapazes jovens e homens mais velhos pode gerar experiências altamente positivas”. Novamente, como no caso Berkeley, recorreu ao Facebook para se defender, garantindo que não apoia a pedofilia — “é um crime nojento e vil, talvez o pior que existe” — e que só é “culpado de usar linguagem imprecisa”, uma coisa de que se “arrepende”.

Desta vez a retórica de pouco lhe serviu. Na segunda-feira, Schlapp disse que a explicação dada por Yiannopoulos é “insuficiente” e que por isso a ACU decidiu retirar o convite que lhe foi feito para participar na CPAC (onde estarão presentes Bannon, Trump, o seu vice-presidente Mike Pence, o seu chefe de gabinete Reince Priebus, o governador republicano Scott Walker e o senador evangélico Ted Cruz). “Por causa da revelação de um vídeo ofensivo nas últimas 24 horas em que [Yiannopoulos] apoia a pedofilia, a União Conservadora Americana decidiu rescindir o convite”, anunciou o diretor da organização.

Pouco depois, era a vez da editora Simon & Schuster, uma das maiores do mundo, fazer o seu próprio anúncio sobre o editor do Breitbart. “Após cuidadosa reflexão, a Simon & Schuster e a Threshold Editions [ramo de publicações conservadoras da editora] decidiram cancelar a publicação de ‘Perigoso’ de Milo Yiannopoulos.” O livro já tinha feito correr tinta pelas piores razões no final do ano passado, quando a editora enfrentou duras críticas e algumas consequências por ter aceitado publicar a autobiografia de um homem que diz que o “feminismo é um cancro” e que foi permanentemente bloqueado do Twitter por insultar uma atriz negra.

A escritora feminista Roxane Gay esteve entre os autores que decidiram cancelar contratos de publicação com a Simon & Schuster, já depois de o “Chicago Review of Books” ter anunciado que ia boicotar todos os livros da editora “em resposta a esta nojenta validação do ódio”. No Facebook, Yiannopoulos confirmou na segunda-feira que o contrato do livro, pelo qual terá recebido um avanço de 250 mil dólares, foi suspenso. “Cancelaram o meu livro. Já passei coisas piores. Isto não vai derrotar-me”, prometeu. Este é o terceiro projeto de livro anunciado por Yiannopoulos que não se concretiza. De acordo com a sua página de Facebook, “Perigoso” ia chegar às bancas norte-americanas a 13 de junho.

Quem é Milo?

Nascido na Grécia em 1986, filho de pai grego e mãe britânica, Yiannopoulos cresceu em Kent, no sul da Inglaterra, antes de se mudar para os Estados Unidos. Em julho de 2016, foi banido do Twitter pelo que a empresa disse ser “incitamento ou envolvimento em abuso direcionado contra ou assédio de outros [utilizadores]”. A expulsão da rede social aconteceu pouco depois de ter insultado Leslie Jones, atriz negra do “Saturday Night Live” que participou no remake feminino do filme “Ghostbusters” e que foi alvo de uma campanha de insultos e discurso de ódio no Twitter quando o filme estreou.

Yiannopoulos é, em si mesmo, uma contradição e os críticos acusam-no de ser, mais do que um ultraconservador, um ultraprovocador. Apesar de assumir a sua homossexualidade, usa há vários anos a plataforma da extrema-direita americana Breitbart News para denegrir pessoas transgénero, muçulmanos, ativistas do movimento Black Lives Matter, feministas e... gays. Antes de começar a trabalhar para o Breitbart, cofundou a revista digital de tecnologia “The Mekel” em 2011; três anos depois, foi forçado a vendê-la após contrair enormes dívidas e ser posto em tribunal por colaboradores do “site” por não cumprir a sua parte do acordo (leia-se, pagar pelos serviços).

Foi em 2015, meses antes de Donald Trump anunciar a sua candidatura à Casa Branca, que conseguiu trabalho no Breitbart, onde depressa subiu ao cargo de editor, no qual se mantém até hoje. Desde então já assinou peças na sua coluna de opinião como “Os métodos contracetivos tornam as mulheres pouco atraentes e loucas” e “Preferia que o seu filho fosse feminista ou tivesse cancro?” Quando Hillary Clinton recorreu a artigos incendários como estes para denunciar o extremismo da barricada que apoiava o seu rival republicano nas eleições, Yiannopoulos cantou vitória. “Mal sabia quando criei a hashtag #FeminismIsCancer que ela iria parar à boca de uma nomeada democrata para a presidência”, escreveu.

No final da semana passada, Milo protagonizou outro momento de tensão, desta feita no programa da HBO “Real Time with Bill Maher”. O comediante Maher tinha sido criticado por ter convidado Yiannopoulos a participar no programa, numa primeira fase sem contraditório, apenas os dois homens sentados a conversar sobre liberdade de expressão. Logo a seguir, Yiannopoulos foi integrado num painel com mais pessoas, um que o jornalista Jeremy Scahill recusou integrar por achar que a decisão de Maher “dá uma ampla e importante plataforma para ele defender a sua campanha racista e anti-imigração”. Durante esse painel, o editor do Breitbart disse que as pessoas transgénero “têm doenças psiquiátricas” antes de começar a insultar alguns dos convidados de Maher, como o comediante Larry Wilmore. “Convida sempre pessoas tão terríveis para o seu programa, elas são tão estúpidas. Tem de começar a convidar pessoas com QI mais elevados ou isto vai ser um desastre.” Wilmore perdeu o sangue frio e mandou Yiannopoulos “para o c*ralho”.

Na segunda-feira, confrontado com as consequências das suas declarações, Yiannopoulos garantiu que não vai ser derrotado, mas já há movimentações no Breitbart para o afastar do “site”. O cunho de ódio noutros artigos de opinião nunca incomodou os colegas, mas desta vez sentem que a forma como parece desculpar a pedofilia foi um passo mais longo que a perna, como explicou Charlie Gasparino na Fox Business. “Há pessoas de elevado estatuto dentro do Breitbart neste momento que dizem que as últimas declarações [sobre pedofilia] foram longe de mais”, disse o jornalista, explicando que o controverso editor enfrenta “possível despedimento” na sequência do “aceso debate” em curso dentro da empresa de media. “[Yiannopoulos] já fez muitas declarações controversas e esta foi para lá dos limites. Sei que dentro do Breitbart há pessoas a dizer que esta é uma boa oportunidade [de o despedir] — há um debate, há pessoas que querem que ele fique — mas está a ser muito, muito difícil defendê-lo. Vamos ver o que acontece.”

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