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Dusko Popov “era o clássico sociopata que não mede as consequências”

Dusko Popov é um dos protagonistas de “Estoril”, um romance centrado no Hotel Palácio. Conversámos com o autor, Dejan Tiago-Stankovic, um sérvio que vive há décadas em Portugal

Luís M. Faria

Jornalista

Dusko Popov, talvez o espião duplo mais importante na II Guerra Mundial, também aparece noutro livro publicado recentemente em Portugal. "Estoril" (edição e-Primatur) venceu em 2016 o prémio de Romance da Academia Sérvia de Artes e Ciências.

Conforme o titulo indica, centra-se no lugar próximo de Cascais, onde durante a II Guerra Mundial confluíam os espiões de ambos os lados do conflito. Ao contrário de "Na Toca do Lobo" (ver aqui), aqui trata-se de um romance, mas a ficção mantém-se tão próxima da realidade que partes do livro podem ser lidas quase como textos de História.

O autor, Dejan Tiago-Stankovic, tem uma ligação bastante pessoal ao tema dos refugiados e da imigração. Sem contar aqui toda a sua história, digamos apenas que a certa altura conheceu uma portuguesa e que esteve no Peso da Régua antes de viver em Lisboa. Não teve problemas de adaptação, diz. Começou por trabalhar como tradutor não literário. Depois traduziu José Saramago para sérvio, e, tendo ganho coragem, passou a traduzir para português.

Os seus primeiros textos como autor surgiram nuns blogues literários, que lhe deram algum nome. Escreveu contos, e de um deles nasceu agora este romance. O seu tema recorrente são os refugiados e os imigrantes, ou não fosse ele próprio um de meio milhão de pessoas formadas que deixaram a Sérvia na sequência das guerras terríveis dos anos 90. “Só na minha geração foram 250 mil, mas agora fala-se em meio milhão", explica. "Perdeu-se a conta. Há um brain drain [fuga de cérebros]. Ficámos muito mal servidos de pessoas formadas. Temos muitos professores catedráticos, por exemplo, nos Estados Unidos. Exportámos mão de obra qualificada".

Em que língua escreveu "Estoril"?
Fui fazendo o manuscrito em sérvio e português ao mesmo tempo. Um serviu como controlo do outro, pois enquanto traduzo revejo muito bem o texto original, que tenho de ler com muita atenção. Quando terminei, enviei o texto para a editora sérvia que já tinha, a qual o publicou no prazo de um mês. Em Portugal, ninguém respondeu aos emails durante um ano. Até que o Hugo [Xavier, editor da E-primatur] teve o gesto de misericórdia de ler o manuscrito. A minha ideia original era publicar os dois em simultâneo.

Como define o enredo? Apesar de Popov ser um dos protagonistas, não podemos dizer que seja um thriller.
Não, isto não é um romance de espionagem. É, imagino eu, o retrato de uma época e de um país que até hoje foi pouco abordado. Essa foi a minha ideia. A espionagem é só uma das vertentes.

Mesmo essa não entra muito. Embora Popov esteja na raiz do livro, acaba por ser um romance de juventude, pois trata de uma criança que chega a Portugal, o Gabi. Entretanto, uma série de outras histórias metem-se pelo meio, e só no fim sabemos o que lhe acontece. Acaba por ser quase uma parada de celebridades.
Eu deixei fora muitas celebridades. Havia muitas mais. Deixei fora governos inteiros, o Salvador Dali, o Jean Renoir... Muitos ficaram só como uma nota de rodapé.

Claro. Mas uma boa parte do livro, tirando as cenas com o Gabi, acaba por ser com esse tipo de pessoas.
Acaba, porque a vida deles foi melhor estudada. As vidas pequenas pouca gente escreveu. Já o Saint-Exupéry deixou bastante escrito sobre si, tal como outros escritores que lá menciono ou parafraseio, ou até cito. Quando eles falam em discurso direto, são palavras deles, não minhas.

Há um, Milos Crnjanski...
Que é, juntamente com o (Ivo) Andric, o nosso maior escritor do século XX.

E aquelas são mesmo as palavras dele. Encontrei–as na net. O senhor integrou alguns dos seus textos.
Sim, e também desenvolvi alguns apontamentos sobre a sua vida no Estoril.

É um exercício de reconstrução, mas incorporando material real.
Quando é citação nota-se sempre. Embora nem sempre eu ponha numa lista final. Há escritores que escreveram bastante sobre a sua estadia cá, e esses textos foram bastante úteis para mim.

Alguma vez teve o receio de o facto de ter incluindo todas essas pessoas conhecidas, umas após as outras, poderia tirar coesão ao livro? Como concebeu a orgânica?
Fiz o livro como eu gosto. É cem por cento meu. Não tento agradar ao gosto de ninguém. O livro tem histórias, a maior parte das quais não são inventadas, e que surgem contadas de uma forma que de alguma forma tem a ver com a tradição de narrativa oral nos Balcãs. Nós contamos histórias uns aos outros.

Há uma história, e depois outra, e depois outra.
É isso que nós fazemos. E não vejo que o livro não seja coeso. É um livro sobre uma época, sobre um espaço de tempo bem determinado, com acontecimentos reais. Nada sai da realidade. Tudo era possível. E até há algumas questões sobre como se faz literatura. Por exemplo, a génese de um poema de Crnjanski surge descrita no livro. O Carol é o rei sem súbditos do Pequeno Príncipe (O Principezinho).

Quem conhece o Pequeno Príncipe reconhece muitas coisas como possíveis matrizes para personagens literárias. Para ter literatura uma pessoa não precisa de inventar coisas. Basta olhar a vida e já tem histórias demais. Eu não sou teórico de literatura. Só sei escrever.

A história do Popov dava de certeza para muito mais, como aliás a do Gabi. Gostaríamos de os ter acompanhado alguns dos personagens mais longamente.
O melhor que os leitores me podem dizer é que sentiram pena de acabar o livro. Eu tinha material para muito mais. Fiz 350 páginas porque acho que no século XXI é um livro decente, não exagerado.

O que aconteceu ao Popov depois da guerra?
Casou-se duas vezes, teve uma casa de repouso para velhos nas Bahamas, e morreu de cancro do pulmão em Franca, na Côte d'Azur.

Se quisesse resumi-lo em duas frases, o que diria?
Era o clássico sociopata que não mede às consequências, faz o que lhe apetece. Põe a família e toda a gente em perigo. É um jogador. Não é uma personagem positiva.

Nós, na Sérvia, temos muito disso. Gente com muito charme que faz muito mal. Todos os nossos tiranos tinham muito charme. O Slobodan Milosevic era muito engraçado. Tito era ultraengraçado. Quem o conhecia pessoalmente não resistia ao charme. Como se diz do Byron, era doido, bom (não mau) e perigoso de conhecer. O Slobodan foi superior do meu pai num banco durante dez anos. Diz que ele sabia lidar igualmente com o presidente do World Bank e com o porteiro. E que toda a gente o adorava.

A ideia que ficou nos anos 90, pelo menos a quem estava de fora, não foi exatamente essa.
Bom, se alguma coisa nós temos que toda a gente conhece é o permanente gozo – na brincadeira, gozo – com coisas sérias. Como os judeus. Quem tem uma história difícil muitas vezes recorre à piada.

Se o inspetor Cardoso (um PIDE que aparece no livro) fosse sérvio, como é que seria diferente?
Seria violento. Os portugueses não vão a extremos em nada. E consideram extremas poucas coisas. Por isso, são muito mais fáceis de governar. São homogéneos. Todos se comportam com as mesmas normas, que não são lei mas moral, ética. Lá é diferente. As pessoas dão-se a vários luxos a que aqui não se dão. Por exemplo, matarem-se uns aos outros quando se zangam. Entrarem em guerra.

Se não me engano, no Tarrafal morreram catorze pessoas, ao longo de muitos anos. Durante o nosso governo comunista do pós-guerra, 3400 pessoas morreram nos campos de concentração em quatro anos.

Já agora, qual é a opinião sobre Tito?
Se eu tivesse de dizer, diria que é positiva. Comparado com os que viriam antes e depois dele, foi ótimo.

Porque manteve a unidade do país?
Porque manteve a paz. A unidade não importa. O que importa é a estabilidade. Apesar de alguns crimes cometidos logo após a guerra – as vinganças que acontecem nessas alturas – depois ficou tudo mais brando. Tito era um hedonista. Como tinha medo dos russos, nunca nos tornámos um país ocidental como devia ser. Mas tínhamos aquele exército enorme, que não nos defenderia deles mas nós permitiria morrer até ao último homem.