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A semana da revolta dos espiões

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Agora é preciso que o Partido Republicano se mobilize no Senado para investigar o Presidente pelas suas alegadas ligações à Rússia de Putin. Trump continua a garantir que há “zero caos” na sua Administração mas o cerco está a apertar. O republicano que dirige a comissão de relações externas já admitiu que está “a debater a melhor forma de perceber o que se está a passar”

Ao 27.º dia do novo governo norte-americano, em pouco mais de uma hora, a Administração de Donald Trump tornou-se alvo de três potenciais investigações.

Primeiro veio a recomendação feita pelo gabinete de ética governamental sobre Kellyanne Conway, que “deve ser alvo de uma ação disciplinar” por ter feito publicidade à linha de roupa de Ivanka Trump, a filha mais velha do Presidente.

Meia hora depois, o republicano que dirige a comissão de supervisão da Câmara dos Representantes, Jason Chaffetz, anunciava que o Presidente pode vir a ser alvo de um inquérito por ter discutido informações confidenciais com amigos e aliados na sua casa de férias em Mar-a-Lago durante o fim de semana (um encontro no qual alguém terá denunciado, através da publicação de uma fotografia nas redes sociais, a identidade do homem que mantém seguros os códigos das bombas nucleares dos EUA).

RECOMENDAÇÃO. Kellyanne Conway será alvo de uma ação disciplinar”

RECOMENDAÇÃO. Kellyanne Conway será alvo de uma ação disciplinar”

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Logo a seguir, o líder da maioria republicana no Senado, Mitch McConnell, sublinhava que é “altamente provável” que o Senado investigue a fundo as alegadas ligações de membros do governo à Rússia, de Vladimir Putin, após o general na reforma Michael Flynn ter sido forçado a demitir-se do cargo de conselheiro de segurança nacional por ter ocultado do vice-presidente Mike Pence que discutiu o levantamento das sanções a empresas e personalidades russas com o embaixador do país em Washington em dezembro, antes de o governo tomar posse.

MITCH MCCONNELL. É “altamente provável” que o Senado investigue a fundo as alegadas ligações de membros do governo à Rússia

MITCH MCCONNELL. É “altamente provável” que o Senado investigue a fundo as alegadas ligações de membros do governo à Rússia

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Flynn, um caso particularmente bicudo

São três controvérsias distintas, três potenciais dores de cabeça para uma Casa Branca onde Trump garante estar a haver “zero caos”, apesar da acumulação de escândalos, potenciais ilegalidades, conflitos de interesse e o fantasma russo a pairar sobre as cabeças dos homens do Presidente e dele próprio. O caso de Michael Flynn é particularmente bicudo e, apontava esta semana a “Foreign Policy”, está só a começar.

“A Casa Branca diz que Mike Flynn agiu à revelia” quando contactou Sergei Kislyak para discutir como anular as sanções impostas pela administração Obama, “mas não há boas razões para acreditar nisso”, refere a revista. “Dado que a história de Flynn tem um princípio, um meio e um fim, é tentador tratar este escândalo como estando essencialmente encerrado e virar as atenções para a avalancha de outras controvérsias a envolver a Casa Branca de Trump” mas isso “seria um erro grave” — “os ficheiros Trump-Rússia, que dizem respeito a questões fundamentais de segurança nacional, merecem muito mais escrutínio do Congresso, dos media, das autoridades e do público, mais do que qualquer outra das muitas alegadas transgressões” do Presidente e da sua equipa. As chamadas de Flynn, aparentemente ilegais porque a lei proíbe contactos diplomáticos de cidadãos privados com membros de governos estrangeiros, são apenas o início, não o fim, do escândalo em questão.

MICHAEL FLYNN. Há razões para acreditar que agiu à revelia da Casa Branca?

MICHAEL FLYNN. Há razões para acreditar que agiu à revelia da Casa Branca?

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Trump continua empenhado em desacreditar a imprensa, que a cada dia destas primeiras semanas foi recebendo novas informações privilegiadas avançadas por fontes internas da Casa Branca sobre os desvarios e querelas do governo e por fontes das agências de espionagem sobre as ditas relações Trump-Putin.

Funcionários em “modo de sobrevivência”

Dizem que Flynn só foi afastado porque o secretário de Defesa, James Mattis, e o diretor da CIA, Mike Pompeo, se recusaram a trabalhar com ele (um homem que até membros do Partido Republicano, como o antigo chefe da diplomacia Colin Powell, descrevem como um “louco de direita”). Dizem que, neste momento, há já vários funcionários da Casa Branca em “modo de sobrevivência” e “com um medo de morte” do que pode vir a acontecer ao leme de Trump. Dizem que membros da campanha do candidato republicano mantiveram “contactos recorrentes” com agentes das secretas russas ao longo da corrida presidencial.

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O Presidente pode não admitir mas parece não haver dúvidas de que o seu governo está envolvido numa “aura Watergate”, como aponta o site “Axios”, alvo de “revelações constantes e complicadas das agências de espionagem e das autoridades federais”, marcado por “desmentidos” em catadupa e enredado numa competição frenética entre as grandes organizações de media para verem qual delas vai conseguir derrubar o Presidente. A julgar pelo que aconteceu até agora, a possibilidade de Pence substituir Trump antes de os quatro anos de mandato terminarem parece cada vez mais inevitável. E a Rússia pode ser o derradeiro prego do seu caixão político.

A pergunta para a qual encontrar respostas

Afinal, quem é que disse a Michael Flynn para ligar ao embaixador russo? Nesse dia ominoso que foi a passada terça-feira, o “Politico” lembrava que é esta a pergunta para a qual se devem procurar respostas. “Vamos parar de nos focar na demissão [de conselheiro] e começar a focar a atenção no que realmente interessa aqui: o mistério das ligações de Trump à Rússia”, pediu Daniel Benjamin. “Estou convencido de que Flynn não ligou ao embaixador Kislyak de livre e espontânea vontade. Flynn é um bit numa história muito maior sobre a relação do Presidente com o Kremlin e é nessa história que a imprensa tem de se focar.”

É um facto que, depois de ter sido despedido por Obama da Agência de Serviços de Informação de Defesa, pelo seu “comportamento errático”, o general na reforma recebeu dinheiro para participar em programas do canal Russia Today, que é financiado pelo governo russo, e que em dezembro de 2015 acabou sentado ao lado de Vladimir Putin num jantar desse canal. Mas também é um facto que, ao longo da sua carreira pós-militar, foi um duro crítico das políticas seguidas pelo Presidente russo, ao contrário de Trump, que por causa da sua aparente predileção por Putin continua às avessas com toda a comunidade de serviços secretos norte-americanos.

Estudar “o que se está a passar”

Perante os renovados ataques do líder norte-americano aos espiões, e a ausência de ataques ao homem que lidera o tradicional arquirrival dos EUA, um antigo analista da Agência de Segurança Nacional disse esta semana que as agências de informação já estão preparadas para destruir Trump. “A guerra [das secretas] está a chegar a um novo nível”, escreveu John Schindler numa série de tweets. “Acabei de receber [um email] de um amigo que é um funcionário destacado [da comunidade de espionagem] que começa: ‘Ele [Trump] vai morrer na prisão.’ O problema não reside nas agências secretas dos EUA. O problema é o conluio do Presidente com as agências secretas russas. Há muitos pormenores, mas o âmago da questão é simples.”

Não se sabe quão simples vai ser comprovar esse âmago. Falta o Partido Republicano embarcar nos esforços para afastar o empresário da presidência. “Toda a gente está enervada com o que tem lido, mas não vamos tomar decisões com base em manchetes da imprensa”, referia esta semana o senador republicano Lindsey Graham em entrevista ao “The Hill”. Ao mesmo jornal, Bob Corker, o republicano que dirige a comissão de relações externas do Senado, admitiu que as exigências para que seja o Presidente seja investigado “ganharam momentum nas últimas 48 horas”, logo a seguir à demissão de Mike Flynn. “[Mas] ainda não estou preparado para isso. Posso dizer que estou a debater, não com uma comissão específica mas com outros [membros do Senado], a melhor forma, a forma mais completa, de entender o que se está a passar.”

  • Já toda a gente percebeu que a suspeita de Moscovo ter mesmo entrado nas contas da Convenção Democrática e dos serviços secretos de Putin terem sido um instrumento fundamental na campanha de Donald Trump não é apenas uma possibilidade. É uma fortíssima probabilidade. E apesar da loucura que parece estar a atravessar a Améria, os EUA ainda são os EUA e a Rússia ainda é a Rússia. Até Trump já percebeu que se for visto como marioneta de Putin a sua administração entrará em guerra aberta com militares e serviços secretos. Apesar de resultar de uma mentira e de uma deslealdade para com o vice-presidente, a demissão de Michael Flynn, suspeito de excesso de proximidade a Moscovo, é sinal de que Trump e Pence perceberam que as relações com a Rússia os podem pôr em muitos maus lençóis. Travar a caça ao amigo de Putin é o principal objetivo desta demissão. E se assim é, espera-se que este seja um filão que os seus opositores vão explorar mais.

  • O “doido de direita” já não está à solta no Conselho de Segurança Nacional

    Contra todas as críticas e contra avisos de membros da sua equipa, Donald Trump decidiu avançar com a nomeação de Michael T. Flynn como seu conselheiro. Menos de um mês depois de tomar posse, o general na reforma é a primeira baixa do novo governo norte-americano. Foi forçado a demitir-se esta semana — e não por ter recebido dinheiro da Rússia ou por ter alimentado a teoria da conspiração contra Hillary Clinton, o que em dezembro levou um homem a abrir fogo numa pizzaria de Washington DC