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Rússia, China e Daesh: Rex Tillerson enfrenta primeiros testes em encontro do G20

ERIC PIERMONT / AFP / Getty Images

Novo secretário de Estado norte-americano estreia-se hoje no palco diplomático, na reunião de trabalho das 20 grandes potências mundiais em Hamburgo para preparar a cimeira do grupo que terá lugar naquela cidade alemã em julho

O novo chefe da diplomacia dos Estados Unidos vai estar esta quinta e sexta-feiras reunido com os parceiros do G20 naquele que é o seu primeiro grande teste internacional desde que foi nomeado secretário de Estado da administração Trump. Representantes das 20 potências mais poderosas do mundo vão estar reunidas hoje e amanhã em Hamburgo, na Alemanha, para preparar a cimeira que terá lugar naquela cidade no início de julho. Estes são os temas que deverão dominar o encontro — os maiores desafios enfrentados pelo homem do petróleo com ligações à Rússia de Vladimir Putin e duro crítico da China, cujo processo de confirmação para a pasta foi um dos mais difíceis no Senado desde que Donald Trump foi eleito Presidente. As verdadeiras dificuldades, apontam especialistas, começam agora.

Tillerson vai encontrar-se em privado com Lavrov à margem da reunião do G20

Tillerson vai encontrar-se em privado com Lavrov à margem da reunião do G20

© Sergei Karpukhin / Reuters

Rússia

Tillerson deverá encontrar-se em privado com Sergei Lavrov, o chefe da diplomacia russa, à margem da reunião de trabalho do G20, para discutir os planos de reaproximação ao Kremlin como Donald Trump tem sinalizado. Para Moscovo, só há benefícios a retirar da estratégia planeada pela nova administração norte-americana, depois de várias empresas e personalidades do país terem sido alvos de sanções impostas pelos EUA e pela União Europeia no rescaldo da anexação da península da Crimeia em 2014.

A última ronda de sanções aconteceu em dezembro, já depois de Trump ter vencido as eleições presidenciais, e incluiu a expulsão de 35 diplomatas russos e respetivas famílias, após as agências de espionagem norte-americanas terem revelado que existem “fortes indícios” de que o governo de Putin orquestrou uma campanha de ciberataques, sobretudo contra o Partido Democrata, para influenciar os resultados das eleições de novembro.

O encontro de Tillerson com Lavrov e a reunião do G20 acontecem no rescaldo da demissão de Michael Flynn, um controverso general na reforma que Trump nomeou seu conselheiro de segurança nacional e que foi forçado a resignar ao cargo ao final de 24 dias da nova administração por ter contactado o embaixador russo em Washington para discutir as sanções de que é alvo antes de o governo tomar posse. As ligações do próprio Tillerson a Putin, sobretudo enquanto CEO da ExxonMobil, também deverão ensombrar as reuniões.

“[Trump] quer claramente alcançar um acordo com [o presidente russo], o que não é claro é o que é que Putin está disposto a oferecer em troca”, refere à CBS News Chris Brown, professor de relações internacionais da London School of Economics. “O que pode bloquear ambos [os governos] é Putin não estar disposto a oferecer nada que seja viável.”

Há um mês, dias antes de tomar posse, o então Presidente eleito Trump sugeriu que poderá avançar com a suspensão das sanções à Rússia. Esta semana, o potencial acordo EUA-Rússia ficou em xeque após fonte do Pentágono ter revelado que quatro aviões militares russos sobrevoaram de forma “insegura e pouco profissional” um contratorpedeiro norte-americano estacionado no Mar Negro, em violação de um tratado de controlo de armas assinado pelos dois países durante a Guerra Fria.

Em janeiro, no Fórum de Davos, o Presidente chinês Xi Jinping alertou para os riscos de uma guerra comercial

Em janeiro, no Fórum de Davos, o Presidente chinês Xi Jinping alertou para os riscos de uma guerra comercial

© Bogdan Cristel / Reuters

China e Coreia do Norte

Apesar de ser a Rússia a angariar quase todo o protagonismo desde que Donald Trump chegou à Casa Branca há quase um mês, vários especialistas apontam que são as relações sino-americanas que representam o maior desafio à nova administração dos Estados Unidos.

De acordo com a Reuters, e apesar da postura dura que Tillerson demonstrou em relação a Pequim nas suas audiências de confirmação, o novo secretário de Estado já conseguiu convencer o Presidente Trump a comprometer-se com a política de uma só China, um dos grandes tópicos de controvérsia entre os dois países imediatamente antes e logo a seguir à sua tomada de posse — sobretudo depois de Trump ter quebrado um protocolo de décadas e ter telefonado à líder de Taiwan, a ilha que Pequim quer reunificar ao território chinês.

Antes disso, Trump apostou forte numa retórica anti-globalização e namorou a ideia de uma guerra comercial com o gigante asiático, acusando os chineses de criarem o “embuste das alterações climáticas” para roubarem postos de trabalho aos norte-americanos e de manipularem a sua divisa para se tornarem mais competitivos no mercado global. Quando Trump anunciou Pete Navarro para a pasta do Comércio, jornais ligados ao regime chinês criticaram a escolha de um economista com visões “apocalípticas” sobre a China para gerir os negócios dos EUA.

Tudo isto reveste de redobrada importância a participação de Tillerson nos encontros do G20, até porque Pequim é o principal aliado dos EUA no combate à proliferação nuclear da Coreia do Norte; conseguir manter o apoio do Partido Comunista Chinês para pressionar Pyongyang, numa altura em que o regime norte-coreano já testou pelo menos um míssil balístico desde que Trump chegou ao poder, é um dos grandes desafios que o chefe da diplomacia norte-americana enfrenta.

Tillerson encontrou-se com Federica Mogherini este mês para tentar suavizar as relações com a UE

Tillerson encontrou-se com Federica Mogherini este mês para tentar suavizar as relações com a UE

MANDEL NGAN

NATO e Europa

Os líderes da União Europeia podem não assumi-lo oficialmente mas estão preocupados com o rumo que a nova administração norte-americana vai seguir, depois de Donald Trump ter escolhido para embaixador dos EUA na UE Ted Malloch, um homem que compara o bloco europeu à URSS e que já foi alvo de objeções formais por parte das principais famílias políticas do Parlamento Europeu.

A isto acresce o facto de, durante a campanha presidencial, Trump ter apoiado publicamente o Brexit e provocado “espamos de ansiedade” entre os parceiros da América na NATO, como refere a CBS, ao dizer que a aliança é uma organização “obsoleta” e ao sugerir que os EUA vão cortar nos apoios aos aliados se estes não começarem a pagar mais pela defesa comum. Ontem, o novo secretário da Defesa, James Mattis, participou no seu primeiro encontro com os parceiros da NATO, na sede da organização em Bruxelas, e fez uma espécie de ultimato em linha com a postura de Trump, embora tenha classificado a aliança como um “alicerce fundamental” da segurança transatlântica.

“Ainda não estamos num nível de alarme máximo, porque para já é só retórica, depois disto é que virão políticas concretas”, refere Adam Quinn, especialista em política internacional da Universidade de Birmingham. “Os europeus vão estar ansiosos por ver se conseguem direcionar a administração [de Trump] para uma solução negociável.”

Recentemente, na cimeira dos líderes europeus em Malta, os Presidentes e chefes de governo dos países europeus alinharam-se nas críticas a Trump e aos seus comentários e postura em relação à Europa, que consideram “extremistas”. O encontro de Tillerson com Federica Mogherini, chefe da diplomacia da UE, em Washington há uma semana deixou nas entrelinhas que o chefe da diplomacia está em modo de controlo de danos depois das declarações de Putin e a tentar suavizar as relações dos EUA com o continente europeu.

Irão

Teerão e Washington estão em barricadas opostas sobre uma série de assuntos há várias décadas, mas o histórico acordo nuclear alcançado pela administração Obama com o país em 2015 sinalizou um entendimento que Donald Trump não está empenhado em manter. Desde que tomou posse, já impôs sanções ao Irão após três testes de mísseis que, apesar de não violarem a lei internacional, foram tidos como provocações à nova administração norte-americana. O regime iraniano, por sua vez, acusou os EUA de Trump de violarem o dito acordo.

A par disso, o apoio iraniano ao contestado Presidente da Síria, Bashar al-Assad, e aos rebeldes hutis que combatem o governo do Iémen, apoiado pela Arábia Saudita e indiretamente pelos EUA, revestem de maior complexidade este capítulo da diplomacia norte-americana ao leme de Tillerson.

Netanyahu e Trump encontraram-se ontem em Washington

Netanyahu e Trump encontraram-se ontem em Washington

© Kevin Lamarque / Reuters

Israel e Palestina

Continua a ser incerto o que a nova administração norte-americana pretende fazer em relação ao conflito israelo-palestiniano — ou qual é a opinião de Tillerson sobre o assunto. Ontem, no seu primeiro encontro com o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, desde que tomou posse em janeiro, Trump deu a entender que poderá abandonar a estratégia por uma solução de dois Estados seguida pelos EUA há décadas — algo que fontes da Casa Branca já tinham avançado antes da reunião.

Sabe-se que, apesar de continuar a falhar em distanciar-se do antissemitismo manifestado por alguns membros da sua equipa, Trump é favorável a Israel: em determinados momentos pareceu apoiar a expansão dos colonatos hebraicos construídos nos territórios palestinianos ocupados, ilegais aos olhos da comunidade internacional, e continua a estudar a hipótese de mudar a embaixada dos EUA em Israel de Telavive para Jerusalém — a cidade que os dois lados do conflito querem como sua capital e cuja parte oriental, atribuída aos palestinianos pelos acordos de Oslo de 1993, continua sob ocupação das forças hebraicas desde a guerra de 1967.

O Presidente também nomeou para embaixador em Israel David Friedman, um homem que se opõe à solução de dois Estados, que compara os judeus da esquerda progressista aos nazis e que diz que a expansão dos colonatos não é ilegal. Apesar disto, a Casa Branca reconheceu recentemente que “a construção de novos colonatos ou a expansão dos que já existem para lá das atuais fronteiras não ajuda” a causa da paz. Ontem, na conferência de imprensa ao lado de Netanayhu, Trump lembrou o chefe do Governo israelita que os dois lados têm de fazer concessões”.

Daesh

Durante a campanha, Trump prometeu destruir o autoproclamado Estado Islâmico (Daesh), sugerindo até que se deve matar as famílias dos militantes, e acusou a administração Obama de levar a cabo uma “estratégia desastrosa” contra o grupo radical no Médio Oriente. Desastrosa ou não, o facto é que neste momento os extremistas já perderam o controlo de grandes cidades no Iraque e na Síria, onde em junho de 2014 anunciaram a instalação de um califado islâmico, à exceção dos bastiões de Mossul e Raqqa. Facto também é que, apesar dessas derrotas, o grupo continua a representar enormes riscos para a região e para todo o mundo.

Até agora, a administração ainda não sinalizou que estratégia pretende seguir para combater o Daesh e o seu poder de influência, embora tenha apresentado um decreto anti-imigração como sendo uma política de combate ao terrorismo. A ordem executiva que assinou ao final de uma semana na Casa Branca continua suspensa sob ordens de uma série de juízes federais. Vários especialistas apontam que o decreto — que bloqueia a entrada nos EUA de cidadãos do Iémen, Iraque, Irão, Líbia, Síria, Somália e Sudão, que suspende o acolhimento de refugiados e que dá primazia aos cristãos que fogem do Médio Oriente em detrimento dos muçulmanos — é discriminatório.

Tillerson chega a Hamburgo com a missão de discutir o que fazer quanto ao Daesh e a outros grupos radicais, uma estratégia que segundo alguns media norte-americanos poderá passar pelo envio de tropas para o terreno. Trump já disse que se opõe a essa hipótese.