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Internacional

Fim da operação militar no norte de Myanmar que obrigou 69 mil Rohingya a fugir para o Bangladesh

Refugiados Rohingya

MOHAMMAD PONIR HOSSAIN/REUTERS

O anúncio foi feito esta quarta-feira pelas autoridades de Myanmar, que justificaram a perseguição à minoria muçulmana com a necessidade de controlar uma revolta contra o Governo

O exército de Myanmar (antiga Birmânia) terminou a suposta operação de limpeza étnica, a que as Nações Unidas se referiram como crimes contra a humanidade, e que decorreram nos últimos quatro meses no estado de Rakhine, onde vive a maioria dos muçulmanos Rohingya.

A operação de segurança, assim designada pelas autoridades de Myanmar, começou em outubro passado quando nove polícias foram mortos em ataques a elementos das autoridades, perto da fronteira com o Bangladesh.

Até ao momento, perto de 69 mil Rohingyas fugiram para aquele país vizinho, segundo estimativas da ONU.

O Governo negou que tenham existido abusos em Rakhine, massacres ou mesmo violações coletivas de muçulmanos Rohingya, justificando as operações que decorreram na região com uma campanha legítima para travar revoltosos antigoverno.

“A situação em Rakhine estabilizou. As operações de limpeza levadas a cabo pelos militares acabaram, o toque de recolher foi atenuado e mantém-se apenas a presença policial para garantir a paz”, afirmou na quarta-feira o recém-nomeado assessor da segurança nacional, Thaung Tun.

Perante um grupo de diplomatas e representantes das Nações Unidas, o responsável garantiu que “não poderá haver desculpas para o uso excessivo da força, abusos dos direitos humanos fundamentais, ou para a simples criminalidade”.

Mais de 1000 Rohingyas terão sido mortos desde outubro, denunciaram na semana passada, à Reuters, dois responsáveis das Nações Unidas que estiveram em contacto com foragidos daquela comunidade. Um porta-voz da presidência de Myanmar contraria estes números, citando comandantes no terreno, que referem pouco mais de 100 mortos nas operações militares em Rakhine.

Confrontada com acusações de crimes contra a humanidade praticados em Rakhine nos últimos meses, a líder Aung San Suu Kyi prometeu abrir uma investigação, composta por uma equipa de militares e da polícia.

A Nobel da Paz tem sido acusada de pouco ou nada fazer para ajudar a minoria muçulmana perseguida naquele país há várias gerações.

  • Centenas de muçulmanos Rohingya mortos pelo exército de Myanmar são só "a ponta do icebergue"

    "Até agora falava-se de centenas de vítimas, o que é provavelmente uma estimativa por baixo, podemos estar a lidar com milhares [de mortos]", diz um de dois funcionários da ONU que lidam diretamente com as mais de 70 mil pessoas que já fugiram para o Bangladesh desde outubro. Ontem, o Papa Francisco deu voz à causa da minoria perseguida, "irmãos e irmãs muçulmanos que só querem viver a sua fé e cultura" sem represálias

  • Crónica de uma revolta anunciada. E imprevisível

    Uma criança morta na praia, um homem decapitado a boiar num rio. São duas imagens fortes, chocantes, que dão nova luz à luta dos Rohingya. Depois de décadas sem os direitos mais básicos, a minoria muçulmana está a pegar em armas com apoio e treino da Arábia Saudita e de outros países para lutar contra a repressão das autoridades da Birmânia. A Junta Militar que controlou o país com mão de ferro durante mais de meio século deixou o poder há um ano mas o grupo étnico continua a não ser reconhecido. Especialistas avisam que a situação está num ponto explosivo que pode levar à radicalização dos oprimidos