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Quem vai substituir Michael Flynn no Conselho de Segurança Nacional?

Robert S. Harward (dta) é apontado como provável substituto de Michael Flynn no Conselho de Segurança Nacional

KHALIL MAZRAAWI

Escolha recai entre Robert Harward, antigo número dois do Comando Central dos EUA, e David Petraeus, ex-diretor da CIA. O primeiro é o "anti-Flynn" e, segundo o "Washington Post", o favorito para ocupar o lugar deixado vago pelo general na reforma, que se demitiu na sequência de telefonemas com o embaixador russo em Washington

Há quem diga que se for Robert Harward o escolhido para substitutir Michael Flynn no Conselho de Segurança Nacional de Donald Trump, depois de o conselheiro ter sido forçado a demitir-se na sequência de conversas telefónicas potencialmente ilegais com o embaixador da Rússia em Washington, tal vai sinalizar que "os adultos" do novo governo norte-americano estão a entrar em cena para trazer alguma calma e estabilidade à administração que, em menos de um mês, se viu envolvida numa série de controvérsias e que esta semana sofreu a sua primeira baixa na figura de Flynn.

O general na reforma — que foi chefe do Comando Central dos EUA (que supervisiona todas as operações militares norte-americanas no Médio Oriente) entre 2007 e 2008 e que, mais tarde, em 2014, foi forçado a demitir-se do cargo de diretor do Departamento de Serviços de Informação de Defesa (DIA) — falou ao telefone com Sergei Kislyak sobre as sanções impostas ao diplomata pela anterior administração norte-americana.

As conversas tiveram lugar em dezembro, um mês antes de Donald Trump tomar posse, pelo que representam uma violação da lei — nenhum cidadão privado pode discutir questões do foro diplomático com pessoas ligadas a governos estrangeiros.

A administração Trump e o próprio Flynn continuam a defender que não houve qualquer ação contrária à lei por parte do homem que o Presidente tinha nomeado seu conselheiro de segurança nacional, apesar dos escândalos em que se viu envolvido no passado. Sean Spicer, porta-voz da Casa Branca, disse ontem que Trump sabia "há semanas" que o general Flynn tinha falado com Kislyak e que só o obrigou a demitir-se porque este mentiu ao vice-presidente, Mike Pence, sobre o conteúdo dessas conversas.

O Kremlin não comenta as alegações sobre Flynn e Kislyak (dta)

O Kremlin não comenta as alegações sobre Flynn e Kislyak (dta)

MIKHAIL KLIMENTYEV

Por sua vez, Trump recorreu ao Twitter para a sua primeira reação ao caso Flynn, sem referir nada a propósito das alegações sobre o seu ex-conselheiro e optando por criticar o facto de contactos privados como aqueles que o general na reforma manteve com o diplomata russo antes de o novo governo tomar posse terem ido parar à imprensa.

Agora que o lugar de Flynn está vago, há dois nomes a serem apontados para o ocupar. O primeiro é David Petraeus, ex-diretor da CIA que, em 2012, também se viu envolvido num escândalo de abuso de poder ligado ao um caso extramarital que manteve com Paula Broadwell, o que acabou por conduzir à sua demissão.

Por causa do seu passado, é menos provável que Petraeus venha a substituir Flynn, pelo que muitos especialistas estão a apostar as fichas na segunda alternativa, o vice-almirante na reforma Robert Harward, que ocupou o segundo lugar da hierarquia do Comando Central dos EUA sob a liderança do pelo general James Mattis, atual chefe do Pentágono.

James Mattis era uma das figuras da administração Trump que já tinham entrado em choque com Michael Flynn

James Mattis era uma das figuras da administração Trump que já tinham entrado em choque com Michael Flynn

JONATHAN ERNST/REUTERS

"Se Harward for nomeado para o cargo", apontava ontem o site Vox, "será um sinal claro de que os adultos da equipa de Trump estão a entrar em ação para se assegurarem que a pessoa que vai substituir o conselheiro de segurança nacional pode trazer a necessária calma e estabilidade a uma turbulenta Casa Branca". A nomeação de Harward poderá ainda sinalizar que "poderosos oficiais como o secretário de Defesa James Mattis e o diretor da CIA Mike Pompeo querem garantir que o substituto de Flynn não partilha dos sentimentos favoráveis à Rússia demonstrados pelo conselheiro deposto nem o surpreendente desprezo [de Flynn] pela comunidade de serviços de informação".

O seu curto mandato enquanto conselheiro de segurança nacional, que durou precisamente 24 dias, foi marcado por uma guerra aberta com as agências de espionagem dos Estados Unidos e uma série de contendas com outros membros da administração Trump, entre elas o general Mattis. Foi, aliás, a sua postura combativa e desrespeitosa que levou Barack Obama a obrigá-lo a demitir-se da chefia do DIA em 2014 — em emails privados de Colin Powell, ex-secretário de Estado da administração de George W. Bush, divulgados em julho, o republicano descrevia Flynn como “uma desgraça nacional e um pária internacional”, um “doido de direita” que não devia sequer ter sido contratado para aquele cargo. “Flynn foi despedido como diretor do DIA… Pergunto-me porquê… Abusivo com os funcionários, sem capacidade de ouvir, trabalhava contra a política, era mau gestor, etc. Pergunto-me como é que chegou tão longe no Exército?

Flynn é uma figura controversa há vários anos

Flynn é uma figura controversa há vários anos

CARLOS BARRIA/Reuters

Há muito que Flynn era visto como intratável pela comunidade de espionagem norte-americana. "A sua visão no DIA era tida como disruptiva", disse fonte do Pentágono próxima do general ao "Washington Post" por alturas da sua demissão em 2014. Depois de ter sido afastado do cargo e forçado a entrar na reforma um ano antes de completar o seu mandato naquele departamento das forças armadas, Flynn também se tornou um crítico sem filtros da administração Obama, acusando o Presidente e a sua equipa de ignorarem informações que detinha sobre o autoproclamado Estado Islâmico (Daesh) porque não se enquadravam na "narrativa" de reeleição do Presidente democrata.

Numa administração frágil como é a de Trump, uma figura tão controversa como a de Michael Flynn tinha o potencial de amplificar a percepção de que a Casa Branca do empresário não está bem oleada nem bem organizada. "Nas semanas que precederam o escândalo com a Rússia", explicava ontem Yochi Dreazen, "uma série de informações vazadas para a imprensa sugeriram que o secretário de Defesa Jim Mattis, o secretário de Estado Rex Tillerson e o diretor da CIA Mike Pompeo tinham perdido toda a confiança em Flynn e estavam a manter encontros privados que o excluíam propositadamente".

Neste contexto, Harward é visto como "o anti-Flynn", um homem pouco conhecido do público norte-americano, com uma longa carreira militar sem percalços de maior, que integrou o Conselho de Segurança Nacional de George W. Bush e que, em 2013, foi distinguido com um prémio do Colégio de Guerra Naval dos EUA pelos serviços que prestou à nação. Depois de se reformar das forças armadas, Harward tornou-se CEO da Lockheed Martin UAE, o ramo da fabricante de armas nos Emirados Árabes Unidos.

Na segunda-feira à noite, Tommy Vietor, ex-porta-voz do Conselho de Segurança Nacional de Obama, disse no Twitter que Harward é "um tipo [com um currículo] muito impressionante (e boa pessoa)", precisamente o que agrada aos membros da equipa de Trump que entraram em choque com Flynn nas últimas semanas. Segundo o "Washington Post", é ele o provável sucessor do conselheiro deposto.