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Internacional

Ligações de Michael Flynn à Rússia dividem Partido Republicano

Mark Makela

Algumas das maiores figuras do Partido Republicano, como John McCain e John Cornyn, querem uma investigação formal às alegadas ligações do ex-conselheiro de Trump ao embaixador da Rússia nos EUA. Outras deram a entender para já que nenhum inquérito é necessário

Alguns dos principais membros do Partido Republicano estão a pedir em uníssono que seja aberta uma investigação ao ex-conselheiro de segurança nacional Michael Flynn e às suas alegadas ligações à Rússia, contra outros que para já se mantêm ao lado de Donald Trump e da sua equipa.

Flynn, um general na reforma que Donald Trump nomeou seu conselheiro, demitiu-se do cargo na segunda-feira à noite, após ter sido noticiado que falou ao telefone com o embaixador russo em Washington DC antes de o novo governo tomar posse, alegadamente para discutir como suspender as sanções impostas pela anterior administração a Sergei Kislyak.

Na terça à noite, o porta-voz da Casa Branca disse que Trump já sabia "há semanas" que Flynn tinha cometido uma ilegalidade ao discutir questões diplomáticas com Kislyak antes de o Presidente eleito tomar posse a 20 de janeiro. É ilegal para um cidadão privado manter conversas do foro diplomático com representantes de governos estrangeiros. Flynn entregou a sua carta de demissão a pedido do Presidente, que disse já não poder confiar no homem que figuras republicanas como Colin Powell, antigo secretário de Estado da administração Bush, dizem ser um "doido de direita" que alimenta teorias da conspiração.

Sergei Kislyak (à direita) aqui com o atual primeiro-ministro russo, Dmitri Medvedev

Sergei Kislyak (à direita) aqui com o atual primeiro-ministro russo, Dmitri Medvedev

MIKHAIL KLIMENTYEV

A demissão de Flynn, que marca a primeira baixa da administração Trump menos de um mês depois de ter chegado à Casa Branca, levanta questões complexas no rescaldo de uma campanha presidencial marcada pela alegada ingerência russa nos sistemas informáticos dos dois partidos, com o aparente intuito de influenciar os resultados do plebiscito a favor do candidato republicano.

Esta terça-feira o caso ganhou contornos mais complexos, com o "New York Times" a noticiar que registos telefónicos e chamadas intercetadas mostram que alguns membros da campanha de Trump, bem como outras figuras associadas ao empresário tornado Presidente, "mantiveram contactos repetidos com membros da comunidade de serviços de informação da Rússia no ano que precedeu as eleições" de 8 de novembro de 2016 — nas quais Trump venceu Hillary Clinton com quase menos três milhões de votos populares, graças à maioria de votos obtida em três estados decisivos no Colégio Eleitoral.

Inicialmente, Flynn negou ter discutido as sanções com o embaixador Kislyak, levando Mike Pence, o vice-presidente dos EUA, a desmentir publicamente as alegações em seu nome. Antes de o caso estalar, avançou ontem o porta-voz Sean Spicer, Sally Yates – a procuradora-geral interina que ficou nas lides do Departamento da Justiça durante a transição de Trump para a Casa Branca e que o novo Presidente despediu quando esta questionou a legalidade do seu decreto anti-imigração – alertou a Casa Branca para os contactos entre Flynn e o embaixador russo e avisou que estes deixavam o general na reforma vulnerável a chantagem por parte dos russos.

Yates exerceu grande pressão sobre o novo governo para investigar alegações sobre o general Flynn

Yates exerceu grande pressão sobre o novo governo para investigar alegações sobre o general Flynn

Alex Wong / Getty Images

Os avisos foram feitos a 26 de janeiro, seis dias depois de Trump tomar posse. Spicer diz que o Presidente concluiu inicialmente que as ações de Flynn não violaram qualquer lei. Depois disso, o conselho da Casa Branca conduziu uma extensa revisão às alegações e questionou o general em várias ocasiões, chegando à mesma conclusão que Trump. Mas a confiança do Presidente no seu conselheiro desapareceu.

"No final de contas, foi o facto de [Flynn] ter enganado o vice-presidente que tornou a situação insustentável", declarou ontem Kellyanne Conway, uma das mais controversas conselheiras da Casa Branca de Trump.

Durante os seus primeiros dias como membro do Conselho de Segrança Nacional, Flynn foi interrogado por agentes do FBI sobre alegadas ligações a membros do governo russo. Numa entrevista ao conservador "The Daily Caller" na segunda-feira, o general defendeu-se garantindo que "não pisou quaisquer linhas" na conversa com o embaixador russo e dizendo estar preocupado que informações confidenciais sobre a sua pessoa tenham ido parar à imprensa.

"Nalguns casos estamos a falar de coisas que foram retiradas de sistemas confidenciais e entregues a um jornalista. Isso é um crime." A mesma ideia foi ecoada pelo Presidente Trump no Twitter na terça à noite, naquela que foi a sua primeira reação pública ao caso Flynn-Rússia. "A verdadeira história é como é que há tantas delações ilegais a surgir em Washington? Irão estas delações acontecer enquanto eu negoceio com a Coreia do Norte etc?"

Devin Nunes, que atualmente lidera a comissão de serviços de informação da Câmara dos Representantes, alinhou-se com o Presidente e com Flynn, virando as atenções todas para o facto de as conversas privadas do general terem ido parar aos jornais e dizendo que deve ser isso a ser investigado. O FBI, avançou o republicano, tem de explicar porque é que a conversa de Flynn com Kislyak foi gravada.

Para já, Paul Ryan remete-se ao silêncio

Para já, Paul Ryan remete-se ao silêncio

Zach Gibson/GETTY

Paul Ryan, líder da maioria republicana na câmara baixa do Congresso, evitou questões sobre se apoia a abertura de uma investigação formal a Flynn, algo que algumas importantes figuras do partido já estão a pedir. É o caso de John McCain, diretor da comissão de serviços armados do Senado, que ontem declarou que a demissão de Flynn é "um indicador preocupante da disfunção do atual aparato de segurança nacional de Trump" e um que levanta questões sobre as intenções do Presidente e da sua equipa em relação à Rússia.

Roy Blunt, outro republicano que integra a comissão de serviços de informação do Senado, já pediu que seja aberto um inquérito formal às alegadas ligações de Trump e de pessoas que lhe são próximas às autoridades russas. O mesmo pedido foi feito por John Cornyn, segunda figura mais poderosa da maioiria republicana no Senado.

Mitch McConnell, que lidera os membros do partido na câmara alta, para já não acedeu ao pedido, dizendo apenas que a comissão de serviços de informação do Senado já está a investigar a alegada ingerência dos russos nas eleições e sugerindo que isso é suficiente e que não é necessário abrir uma nova investigação ao caso Flynn.

A Rússia, na figura de Dmitry Peskov, porta-voz do Kremlin, já se afastou da controvérsia. "Isto é um assunto interno dos americanos, um assunto interno da administração Trump. Não tem nada a ver connosco."

Os pedidos de McCain, Blunt, Cornyn e de outras figuras republicanas para que seja aberta uma investigação – denonando crescentes cisões dentro do partido pelo qual Trump foi eleito – são apoiados pela minoria democrata no Congresso. Ontem, Adam Schiff disse que a demissão de Flynn não enterra o assunto sobre os contactos mantidos pela campanha de Trump com a Rússia.

Os representantes democratas John Conyers e Elijah Cummings pediram entretanto que o FBI e o Departamento de Justiça entreguem aos membros do Congresso um dossiê confidencial sobre o caso Michael Flynn. "No Congresso precisamos de saber quem autorizou as ações dele, quem lhes deu permissão e quem continou a deixá-lo aceder às nossas informações de segurança nacional mais sensíveis apesar de conhecer estes riscos", disseram ontem num comunicado conjunto. Vários outros democratas da câmara baixa estão igualmente a pedir a Jason Chaffetz, líder da comissão de supervisão, que abra uma investigação às alegadas ligações de Flynn à Rússia.

  • O “doido de direita” já não está à solta no Conselho de Segurança Nacional

    Contra todas as críticas e contra avisos de membros da sua equipa, Donald Trump decidiu avançar com a nomeação de Michael T. Flynn como seu conselheiro. Menos de um mês depois de tomar posse, o general na reforma é a primeira baixa do novo governo norte-americano. Foi forçado a demitir-se esta semana — e não por ter recebido dinheiro da Rússia ou por ter alimentado a teoria da conspiração contra Hillary Clinton, o que em dezembro levou um homem a abrir fogo numa pizzaria de Washington DC