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Um Presidente contra “os pregadores de ódio”

Aprovação da chanceler

FABRIZIO BENSCH / REUTERS

Uma escolha sem alternativas foi como chamou a imprensa alemã à eleição do seu novo Presidente, Frank-Walter Steinmeier, que não teve opositor à altura. O novo chefe de Estaado chega vindo diretamente da chefia dos Negócios Estrangeiros e é apontado como um homem de consensos para tempos difíceis

Cristina Peres

Cristina Peres

Jornalista de Internacional

A política interna alemã é provavelmente das menos atrativas para o mundo (em geral) e os media (em particular). Desde que corra bem podem eleger quem quiserem, é pelo menos o caso da eleição presidencial, como a que decorreu neste domingo e na qual Frank-Walter Steinmeier obteve uma expressiva maioria de 74% dos votos dos delegados.

A tranquilidade do processo que levou a que Steinmeier arrecadasse 931 dos 1260 votos secretos - expressos naquela Assembleia Federal extraordinária que decorreu este domingo em Berlim - é típica da política alemã. O nome do político social-democrata foi aprovado no Parlamento alemão com o aval da atual coligação governamental (democratas cristão da CDU/CSU e social-democratas do SPD) e também do Partido Verde e do Partido Liberal Democrático.

O Presidente na Alemanha é escolhido numa sessão especial da Assembleia Federal – câmara mista composta por deputados da Bundestag (câmara baixa do Parlamento) e representantes dos 16 estados federados, o Bundesrat. Não é eleito por voto direto popular.

Um político popular

Um político popular

FABRIZIO BENSCH/ REUTERS

“Este é um dia bom para a Alemanha”, declarou no domingo Angela Merkel durante as curtas declarações que fez após o anúncio do resultado da votação. O “tato” que mostrou a “procurar caminhos e encontrar soluções” nas situações mais difíceis enquanto ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros foi elogiado pela chanceler. Até se assumir como um dos cinco candidatos a inquilino do Palácio Bellevue (S. Bento de Berlim), Steinmeier serviu no atual Governo como ministro de Estado e da diplomacia alemã, um dos dois principais políticos social-democratas (o outro é Sigmar Gabriel, o vice-chanceler e ministro da Economia) da atual coligação com os democratas cristãos.

Um Presidente para “tempos difíceis”

Se Joachim Gauk, 77 anos, teve a liberdade como moto dos cinco anos de mandato presidencial que agora terminam, Steinmeier, 61 anos, liderará com o tema da coragem na proa. Ele personifica a muito desejada calma e estabilidade. A Alemanha deve ser uma “âncora de esperança” no momento em que as instituições democráticas se encontram sob ameaça em todo o mundo. “Como as fundações estão a abanar noutros lugares, nós temos de fortalecer essas fundações de forma ainda mais firme”, disse no seu discurso de aceitação dos resultados no domingo.

Crítico aberto do novo Presidente dos Estados Unidos, a quem chamou “pregador de ódio”, Steinmeier declara a responsabilidade assumida pela da Alemanha na defesa dos valores democráticos e europeus.

A posição do ex-MNE é assim resumida num comentário publicado no domingo no site da revista “Der Spiegel”: dar esperança “a todos aqueles que se arriscam a ser abafados pelos gritos daqueles que fazem política impondo medo”.

Contando com o apoio da Assembleia (dos partidos) e da maioria do povo alemão - como preconizou a chanceler - Frank-Walter Steinmeier vai presidir num tempo em que os alemães vão ser chamados a responder a desafios em várias frentes. O crescimento da direita populista na Alemanha e noutros países europeus e do mundo, onde a comparação com o modus operandi do Presidente norte-americano ajuda a preencher os títulos dos jornais.

O jornal “Die Zeit” lembra que o facto de o novo Presidente ter sido apoiado pela quase totalidade do espetro partidário com assento no Bundestag antecipa a possibilidade de se prolongar a fórmula governativa da grande coligação. Fala, portanto, para as eleições gerais de setembro deste ano, em que os partidos no Governo prefeririam evitar a polarização que vem prometendo a agressividade do partido de extrema direita Alternativa para a Alemanha (AfD).

Por outro lado, dá esperança ao SPD de vir a obter um melhor resultado nas eleições do final do verão sob a liderança de Martin Schulz, tendo em conta as sondagens do final da semana passada publicadas pelo jornal “Bild”, em que o líder do SPD ultrapassava a da CDU pela primeira vez.

Volta da vitória

Volta da vitória

FABRIZIO BENSCH / REUTERS

Um político de carreira para Bellevue

Se os dois principais partidos chegaram a acordo relativamente ao candidato presidencial poderão acordar noutras áreas. Mesmo sendo uma posição não executiva, a presidência é considerada uma autoridade moral. Por outro lado, como escreveu o jornal “Mittelbayerischen”, nestes tempos difíceis “é bom ter um Presidente eloquente”. Depois de provar a sua capacidade de ouvir ambos os lados na cena internacional, Steinmeier é visto por aquele jornal como alguém que “precisa de assegurar que a Alemanha permanece unida sem ser corroída pelo veneno do nacionalismo populista”.

“Nalguns aspetos, Steinmeier é a contra-proposta alemã a Donald Trump”, continua o jornal. O “Berliner Morgenpost” vai mais longe e chama-lhe “o Presidente anti-Trump”.

Ao contrário de Joachim Gauck, ex-pastor e defensor dos direitos civis na ex-Alemanha de Leste, o presidente eleito entra em Bellevue como político de carreira. Foi chefe de gabinete do chanceler Gerhard Schröder e um dos arquitetos da Agenda 2010, a que procedeu às reformas da economia alemã no início dos anos 2000.

O recém eleito 12º Presidente da Alemanha já fora ministro dos Negócios Estrangeiros na primeira grande coligação CDU/SPD liderada por Angela Merkel de 2005 a 2009 - o primeiro MNE do SPD depois de Willy Brandt (1966-69) - e foi, de seguida, o líder do SPD que obteve pior resultado eleitoral. Retirou-se em 2010 - pausa durante a qual doou um rim à sua mulher, Elke Büdenbender, juíz do Tribunal Administrativo de Berlim. A popularidade de Steinmeier voltou a subir de seguida, durante a fase seguinte de governo de grande coligação.

Frank-Walter Steinmeier - apenas Frank no círculo mais íntimo - nasceu em 5 de janeiro de 1956, em Detmold então República Federal da Alemanha. Cumpriu o serviço militar em 1974/76 e formou-se em Direito e Ciência Política na Justus-Liebig-Universität de Giessen. Em 1993, tornou-se chefe de gabinete do então primeiro-ministro da Baixa Saxónia, Gerhard Schröder, passando, três anos depois, a subsecretário de estado e diretor da chancelaria estatal da Baixa Saxónia.

O novo moto da presidência

O novo moto da presidência

FABRIZIO BENSCH / REUTERS

Em 1998, com a subida de Schröder a chanceler, Steinmeier teve um papel fundamental na maioria parlamentar rot-grün (vermelho-verde, SPD-verdes) para a realização da reforma económicas Agenda 2010. Foi neste período que a sua eficiência nos bastidores políticos lhe valeu a alcunha (equivalente em português) a eminência parda e que ficou responsável pela coordenação dos serviços de informação.

Enquanto MNE de Merkel, Steinmeier é analisado como tendo seguido as orientações da chenceler. Liderou a oposição no período 2009-13 e foi de novo MNE de 2013 a 2017. Em 2014, alternou com a chanceler na liderança das taxas de popularidade.