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O “doido de direita” já não está à solta no Conselho de Segurança Nacional

Reuters

Contra todas as críticas e contra avisos de membros da sua equipa, Donald Trump decidiu avançar com a nomeação de Michael T. Flynn como seu conselheiro. Menos de um mês depois de tomar posse, o general na reforma é a primeira baixa do novo governo norte-americano. Foi forçado a demitir-se esta semana — e não por ter recebido dinheiro da Rússia ou por ter alimentado a teoria da conspiração contra Hillary Clinton, o que em dezembro levou um homem a abrir fogo numa pizzaria de Washington DC

Michael T. Flynn estava longe de ser uma escolha consensual para o Conselho de Segurança Nacional de Donald Trump. Quando, em dezembro, o Presidente eleito anunciou que Flynn, um general na reforma, ia integrar a sua equipa de conselheiros para “manter a América segura”, 53 organizações da sociedade civil enviaram uma carta ao futuro inquilino da Casa Branca a pedir-lhe que abdicasse da nomeação de um homem com um passado tão controverso. “Apesar de merecer o nosso respeito por ter servido o nosso país com o uniforme [do Exército], achamos que o general Flynn não se adequa a este cargo de maior importância. A sua nomeação vai prejudicar a reputação da América no mundo e representa uma ameaça à segurança nacional.”

Entre as organizações que subscreveram a carta contava-se o J Street, um grupo de ativistas judeus, um dos vários preocupados com as manifestações de antissemitismo do tenente-general que, apesar da sua longa e preenchida carreira nas forças armadas ao longo de mais de 30 anos, acabou por tornar-se num pára-raios da nova Administração.

Flynn numa reunião na Casa Branca, sentado em frente a Trump

Flynn numa reunião na Casa Branca, sentado em frente a Trump

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Só por isso não seria de estranhar que tenha sido ele a primeira baixa do novo governo, menos de um mês depois de Trump ter tomado posse, a 20 de janeiro. Aconteceu esta segunda-feira, depois de vários dias de silêncio da Casa Branca, no rescaldo de alegações sobre ter debatido com o embaixador russo em Washington o levantamento das sanções impostas à Rússia pela Administração Obama.

Administração Obama já tinha despedido Flynn

O anterior governo já tinha dúvidas sobre a idoneidade e as capacidades de Flynn, razão pela qual o despediu do cargo de diretor do Departamento de Serviços de Informação de Defesa (DIA) em 2014, um ano antes de ele concluir o seu mandato. A versão que o próprio apresentou para explicar o seu afastamento, num artigo de opinião publicado no tabloide “New York Post” em julho de 2016, é diametralmente oposta do que várias fontes do anterior governo e outras que trabalharam com Flynn no passado foram avançando nos últimos meses.

“Queria mudar a cultura do DIA” e só encontrou barreiras, um homem a lutar sozinho contra o sistema, um iluminado que conhecia os perigos do terrorismo islâmico (no Twitter deu mostras da sua islamofobia ao dizer que “o medo dos muçulmanos é RACIONAL”), mas a quem Obama não quis dar ouvidos porque o que ele, Flynn, sabia sobre grupos como o Daesh não se enquadrava na “narrativa” de reeleição do então Presidente. “Depois de ter sido despedido”, escreveu no ano passado, diz que saiu “da reunião a pensar: “Aqui estamos nós, no meio de uma guerra, eu tenho significativa experiência de combate (quase cinco anos) contra este inimigo específico no terreno e servi aos mais altos níveis e aqui está a burocracia a mandar-me embora’. Fantástico.”

Colin Powell sem contemplações

Três meses depois, pouco antes das eleições que deram a vitória a Trump, emails privados do antigo secretário de Estado da administração de George W. Bush, Colin Powell, que foram parar à imprensa, pintavam outra fotografia. Flynn, referia o republicano, também ele um general na reforma, “é uma desgraça nacional e um pária internacional”, um “doido de direita” que não devia sequer ter sido contratado para o DIA. “Flynn foi despedido como diretor do DIA… Pergunto-me porquê… Abusivo com os funcionários, sem capacidade de ouvir, trabalhava contra as políticas, era mau gestor, etc. Pergunto-me como é que chegou tão longe no Exército?”

Por esta altura, dada a personalidade combativa do Presidente, não é de estranhar que a opinião de um republicano tão conceituado como Powell ou a posição de força da sociedade civil contra Flynn não tenham travado Trump, que preferiu ignorar as recomendações até de membros da sua equipa de transição e nomeá-lo conselheiro de Segurança Nacional.

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É possível que o tenha feito para agradecer ao militar o trabalho que desempenhou durante a campanha para as eleições de novembro, em particular pela sua retórica incansável e sem filtros contra a candidata democrata à Casa Branca. Foi aliás enquanto conselheiro da campanha republicana que Flynn, registado como democrata, angariou mais atenção mediática, muito mais do que o seu despedimento dois anos antes.

Sempre contra Hillary Clinton e a atiçar o Pizzagate

Ao longo da corrida, surgiu várias vezes na televisão americana a desafiar Hillary Clinton a abdicar das suas aspirações presidenciais por ter usado um servidor de email privado enquanto chefe de diplomacia, no primeiro mandato de Obama. “Se fosse eu já tinha desistido e provavelmente estaria preso”, disse à CNN meses antes da vitória de Trump. “É uma irresponsabilidade, francamente, vinda de uma pessoa que devia ter sido muito mais responsável nas suas ações enquanto secretária de Estado dos Estados Unidos da América.” Pouco depois, Flynn admitiria que “pessoalmente” não tinha “quaisquer provas” de que a democrata tivesse cometido um crime ou uma ilegalidade — a mesma conclusão do FBI, de James Comey, já depois de o diretor da agência ter tomado a decisão política de anunciar que talvez fosse reabrir a investigação à candidata a apenas 11 dias das eleições.

Foi uma posição contrária à que adotou quando Clinton viu o seu nome envolvido numa teoria da conspiração sobre uma rede de pedofilia que teria montado com John Podesta, seu diretor de campanha, cujos emails privados foram divulgados pela WikiLeaks durante a corrida eleitoral, alegadamente obtidos por hackers russos com ligações ao governo de Vladimir Putin.

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Flynn foi um dos grandes disseminadores dessa teoria, a Pizzagate, nas redes sociais, contribuindo para alimentar a loucura de Edgar Maddison Welch, um homem de 28 anos que, alumiado pela crença partilhada por Flynn e outros opositores políticos de Clinton, entrou na pizzaria Comet Ping Pong, em Washigton DC, a alegada sede de operações da rede de tráfico humano gerida pelos democratas, e abriu fogo sobre os presentes. Ninguém morreu no incidente, de 4 de dezembro, nem tão pouco o general deixou de defender os rumores como verdadeiros.

Os telefonemas com o embaixador russo

Acabou por não ser isto a ditar o seu afastamento, nem sequer as suas ligações comprovadas ao governo russo, já depois de ter abandonado a chefia do DIA — um cargo que ocupou depois de ter liderado o Comando Central dos EUA, que supervisiona todas as operações militares norte-americanas no Médio Oriente. Sabe-se que recebeu dinheiro para participar em programas do canal de televisão Russia Today, fundado e financiado pelo Kremlin, onde em 2015 disse não saber se o ataque com gás sarin atribuído ao governo sírio de Bashar al-Assad foi ou não uma operação orquestrada pelos EUA — era ele o diretor dos serviços de informação do Exército quando esse ataque aconteceu, em 2013. “Quem sabe?”, perguntou em tom retórico.

O que se sabe é que manteve conversações com o embaixador russo em Washington, Sergei Kislyak, sobre as sanções impostas a Moscovo pelos Estados Unidos, semanas antes de Trump ter tomado posse e que, por isso, violou a lei (um cidadão privado não pode discutir temas de teor diplomático com representantes de outros governos). Sabe-se também que mentiu à Administração que o contratou, a única coisa pela qual assume responsabilidade na sua carta de demissão. “Por causa da velocidade dos acontecimentos, inadvertidamente dei informações incompletas ao vice-Presidente eleito e a outros sobre os meus telefonemas com o embaixador russo.”

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Esteve 24 dias no cargo de conselheiro de segurança nacional e retira-se de cena ainda mais pária do que entrou — palavras de Colin Powell, não nossas. Entre os candidatos ao lugar que deixou vago contam-se o ex-diretor da CIA David Petraeus, e o ex-vice-diretor do Comando Central Robert Harward.