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Internacional

Administração Trump sofre primeira baixa por causa de ligações à Rússia

Drew Angerer

Michael Flynn, tenente-general na reforma que integrava o Conselho de Segurança Nacional, admitiu que não informou a Casa Branca sobre o conteúdo de uma conversa com o embaixador da Rússia em Washington mantida em dezembro, antes de o novo governo tomar posse, sobre a possibilidade de anular as sanções norte-americanas ao alto diplomata

Michael Flynn, um dos conselheiros de segurança nacional de Donald Trump, demitiu-se na sequência de contactos que manteve com a Rússia. O anúncio foi feito pela Casa Branca na segunda-feira à noite, madrugada desta terça-feira em Portugal, depois de os media terem noticiado que Flynn discutiu as sanções impostas pelos Estados Unidos ao embaixador russo em Washington antes de Trump ter tomado posse e que enganou os membros da administração sobre o conteúdo dessa conversa.

Na segunda-feira, horas antes de a administração Trump sofrer a sua primeira baixa menos de um mês depois de ter chegado à Casa Branca, o "Washington Post" avançou que o Departamento de Justiça tinha avisado as chefias do governo sobre os contactos de Flynn com o alto diplomata russo no final de 2016 e sobre como o conselheiro estava vulnerável a chantagem por parte dos russos. Os democratas estavam a pedir há uma semana que Flynn fosse despedido, mas a Casa Branca tinha permanecido em silêncio até ontem.

Na sua carta de demissão, Flynn admite que "de forma inadvertida passou ao vice-presidente eleito [Mike Pence] e a outros informações incompletas sobre os telefonemas com o embaixador russo". É ilegal um cidadão privado manter conversações diplomáticas como Flynn fez logo a seguir a ter sido nomeado conselheiro de segurança nacional da nova administração durante a transição para a Casa Branca.

Flynn tinha inicialmente desmentido a discussão das sanções com o embaixador Sergei Kislyak e Pence tinha dado a cara publicamente para defender o colega dessas alegações. O tenente-general na reforma acabaria depois por confirmar à Casa Branca que as sanções podiam ter sido um dos temas de conversa. Na segunda-feira, o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, garantiu aos jornalistas que Flynn e Kiskyak não discutiram nunca a possibilidade de se suspenderem as sanções ao embaixador.

Entretanto, Moscovo recusou comentar esta baixa na administração Trump, frisando que se trata de um assunto interno dos EUA. "Já dissémos tudo o que queremos dizer", declarou esta terça-feira o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov.

Antes de se tornar embaixador da Rússia em Washington, Sergei Kislyak foi vice-ministro dos Negócios Estrangeiros entre 2003 e 2008

Antes de se tornar embaixador da Rússia em Washington, Sergei Kislyak foi vice-ministro dos Negócios Estrangeiros entre 2003 e 2008

ABDELHAK SENNA

Flynn já tinha sido despedido por Barack Obama da agência de serviços de informação de defesa, que liderava, e foi um ardente apoiante da candidatura de Donald Trump à presidência, tornando-se um aliado próximo tanto do empresário populista tornado líder dos EUA como do seu controverso estratega-chefe, Steve Bannon. Ao longo da última semana, democratas e republicanos exigiram que fosse chamado a dar explicações sobre as ligações suspeitas à Rússia — primeiro foram os democatas da Comissão de Supervisão do Senado a pediram ao chefe dessa comissão, Jason Chaffetz, que abrisse uma investigação às alegações; mais tarde, a senadora Susan Collins foi um dos membros do Partido Republicano a dizer-se "preocupada" com a possibilidade de Flynn ter negociado acordos com um governo estrangeiro antes de tomar posse.

Desde então, Flynn estava a trabalhar no sentido de o governo Trump endurecer a postura face ao Irão e suavizar as políticas em relação à Rússia, até surgirem as primeiras questões sobre a sua proximidade a Moscovo. Em comunicado, a Casa Branca informou que o cargo deixado vago por Flynn vai ser assumido interinamente por Joseph Keith Kellogg, outro tenente-general na reforma.

Com mais de 30 anos de experiência militar, Kellogg serviu no Vietname, Cambodja, Panamá e no Golfo. Durante a guerra do Iraque, ajudou a gerir a autoridade de coligação que esteve no poder no país entre 2003 e 2004, antes de começar a trabalhar em empresas privadas de defesa, aponta a Bloomberg. Recentemente, o militar aconselhou a equipa de Trump sobre questões de segurança nacional durante a campanha eleitoral e acabaria por ser nomeado chefe de gabinete do Conselho de Segurança Nacional. A BBC avança que o ex-diretor da CIA, o general na reforma David Petraeus, e Robert Harward, ex-vice do Comando Central dos EUA, estão ambos a ser considerados para o lugar de Flynn.