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Smog na Europa e na América do Norte pode ser 25 vezes mais prejudicial que a poluição do ar na China

GREG BAKER/GETTY

Uma grande parte das partículas finas libertadas para a atmosfera pelo gigante asiático provém de fontes naturais, ao contrário do que acontece no Ocidente, onde são os combustíveis fósseis e a indústria as principais causas do problema

No estudo mais abrangente a ser levado a cabo até hoje sobre poluição do ar e os seus impactos na saúde humana, uma equipa de investigadores apurou que, apesar de os níveis de exposição a partículas finas nas cidades chinesas estar cinco vezes acima do nível recomendado pela Organização Mundial de Saúde, os riscos de morte prematura que representam são 25 vezes superiores na Europa e na América do Norte do que no país asiático.

Os resultados da investigação liderada por Maigeng Zhou, do Centro Chinês de Prevenção e Controlo de Doenças, foram publicados esta semana no "American Journal of Respiratory and Critical Care Medicine". Zhou e a sua equipa analisaram os efeitos da poluição do ar na saúde de habitantes de 272 cidades chinesas e apuraram que a exposição média anual naquelas cidades às partículas finas, conhecidas como PM2,5, está cinco vezes acima do que a OMS recomenda. Apesar disso, estas partículas têm um impacto menor nas taxas de mortalidade na China em comparação com as mortes registadas no Ocidente.

Isto deve-se ao facto de uma grande parte das partículas finas libertadas para a atmosfera na China, que causam o chamado "smog", ser proveniente do pó trazido pelo vento de zonas áridas, ao passo que na Europa e na América do Norte elas resultam, em larga medida, da atividade industrial e da queima de combustíveis fósseis. De acordo com a nova investigação, a cada aumento de 10 microgramas destas partículas finas por metro cúbico de ar, a taxa de mortalidade tende a aumentar 0,22% na China, um valor muito inferior ao que é registado nos países industrializados ocidentais.

Frank Kelly, especialista em saúde e ambiente do King's College em Londres, que não esteve envolvido no estudo mas que também tem investigado a poluição do ar na China, concorda que os perigos que as PM2,5 representam para a saúde humana no país são muito menores do que no Ocidente por esse motivo. "Os riscos relativos são consideravelmente inferiores do que aqueles que são registados na Europa e nos Estados Unidos", explica ao "The Independent". "No que toca a mortalidade prematura [na Europa], estamos a lidar com um aumento de 6% por cada 10 microgramas.” Isto sugere que a poluição do ar no continente é cerca de 25 vezes mais prejudicial do que a poluição média registada na China.

Apesar disso, sublinha Kelly, cidades como Pequim, Xangai e Hong Kong, onde a indústria está mais desenvolvida do que no resto do território chinês, sofrem com o mesmo tipo de poluição do ar que o Ocidente. Nessas cidades, "a componente de pó natural que existe não tem a magnitude suficiente para colmatar os sinais de carvão, biomassa e combustíveis fósseis". O argumento de que taxa de mortalidade relacionada com a poluição do ar é mais baixa "pode ser verdadeiro em algumas cidades [chinesas] cuja poluição não é dominada pela geração de energia ou pelo grande trânsito congestionado [de veículos movidos a combustíveis fósseis]", admite o especialista.

As partículas de pó natural podem causar problemas nos pulmões e ataques de asma, mas no caso das partículas de carbono o leque de problemas de saúde é mais alargado, pelo facto de envolver metais tóxicos, químicos e componentes orgânicas voláteis que atravessam os pulmões e entram na circulação sanguínea. "O ar tóxico causa danos na saúde das pessoas em qualquer parte do mundo", defende ao jornal britânico Areeba Hamid, da Greenpeace. "Hoje sabemos que os fumos de veículos a diesel são muito mais tóxicos do que as empresas de fabrico de automóveis assumiam e que esta é uma grande causa da poluição do ar na Europa e na América do Norte. Estas empresas têm muitas respostas a dar, mas até agora têm conseguido evitar responsabilização."