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O espetáculo Trump segue dentro de momentos

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Ao final de 21 dias, Trump continua a ‘abalar o mundo livre’ (já vamos explicar) e a avançar com controversas promessas de campanha. A ordem que proíbe a entrada de muçulmanos nos Estados Unidos continua suspensa sob a ordem de três juízes federais e contra a vontade do Presidente. O caso deverá seguir para o Supremo. Não é a única guerra que a administração já comprou mas é, para já, a mais bicuda. Os democratas e as grandes empresas já estão a olear as armas e a resistência está a ficar criativa

Neil Young começou por não se importar que Donald Trump usasse o seu clássico “Rockin’ in the Free World” ao anunciar a sua candidatura em maio de 2015. Disse-o à “Rolling Stone” depois de o empresário descer as escadas rolantes da Torre Trump com Melania à frente e a música a rebentar nas colunas de som. Um mês volvido, Young revogou o aval no Facebook. Trump nunca mais recorreu ao hino do puro rock, mas o estrago estava feito. Senão antes agora, ao final de três semanas no poder. Com a mesma rapidez com que o músico reivindicou os direitos sobre a sua canção, a letra ganha agora um novo significado — “Há um sinal de aviso na estrada/ muitas pessoas dizem que era melhor que estivéssemos mortos/ não me sinto Satanás/ mas para elas é isso que sou.”

Trump foi visto como uma piada recorrente alimentada pelos media ao longo de meses até ao dia em que derrotou Hillary Clinton. E ao final de 21 dias na Casa Branca, a piada só não perdeu a graça para os humoristas profissionais, dos europeus que têm feito vídeos a pedir ao líder americano que ponha o país deles em segundo lugar, às estrelas da comédia nos EUA como Trevor Noah, Jon Oliver e a equipa do Saturday Night Live. É como apontava há três dias a revista “Nation”, numa analogia com a famosa música de Neil Young: “De certa forma os abalos [rockin’] nunca pararam [desde o anúncio da candidatura] e por esta altura todo o mundo, livre ou não, já foi definitivamente abalado. Não há ninguém, de Pequim à Cidade do México, de Bagdade a Berlim, de Londres a Washington, que possa questionar isso.”

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Desde que tomou posse Trump já assinou um currículo inigualável em tão pouco tempo, envolvendo o maior protesto global contra o governo de um país e a abertura de várias frentes de batalha (para já diplomáticas), com o México, a China, a União Europeia e o Médio Oriente. A isto juntou a assinatura de controversos decretos para, entre outras coisas, proibir o financiamento de ONG americanas de saúde que “promovam” o aborto dentro e fora dos EUA; para acabar com a reforma do sistema financeiro conhecida como Lei de Dodd-Frank (na prática desregulando o setor, o que facilita a evasão fiscal e outros crimes económicos); e para impedir a entrada de muçulmanos no país.

Primeira grande derrota

Trump continua a garantir que a ordem que suspende o acolhimento de refugiados, que barra a entrada a imigrantes de sete países de maioria muçulmana e que dá prioridade aos cristãos que fogem do Médio Oriente serve para proteger os EUA do terrorismo. Para uma administração de “factos alternativos”, pouco importa que todos os estudos demonstrem que nenhum dos países afetados — Iémen, Iraque, Irão, Líbia, Síria, Somália e Sudão — é o berço da ideologia radical de grupos extremistas como o Daesh, antes a Arábia Saudita e outras nações onde Trump tem negócios, em curso ou em vista, e que deixou fora da lista. Para os juízes que já se manifestaram sobre o decreto, há dúvidas razoáveis sobre a intenção do governo: quer manter a América segura ou discriminar quem entra nos Estados Unidos com base na religião, mesmo que sejam refugiados de guerra protegidos pela lei internacional?

Foi esta a primeira grande derrota de Trump, assinada esta quinta-feira pelos três juízes de um tribunal federal de recursos a quem a administração tinha apelado que restaurasse o decreto — após este ter sido suspenso por um juiz de Seattle. No Twitter, Hillary Clinton reagiu com um “3-0” e Trump com a promessa: “Vemo-nos em tribunal.” Trump pode alegar que a decisão é partidária e não vai ter razão; um dos juízes foi nomeado por um republicano e os três votaram contra o governo. Também pode defender, como já fez, que por se tratar da segurança nacional os tribunais não têm o poder de questionar a sua autoridade. Na sentença, o painel de juízes refuta-o: não só questionam o alegado poder ilimitado do ramo executivo, como se apoiam em declarações de pessoas próximas de Trump e dele próprio, quando durante a campanha prometeu bloquear a entrada de muçulmanos nos EUA e expulsar os que lá estão.

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O tribunal não faz referência à mobilização popular contra o decreto, que inundou aeroportos e cidades com novos protestos e uma rede de apoio aos imigrantes e refugiados afetados, mas a sua decisão vai certamente galvanizar a resistência. E a resistência já não se faz só de cidadãos, ativistas ou políticos, mas também de dinheiro. Muito dinheiro.

Há alguns dias, um americano que é conselheiro de um punhado de multinacionais explicava ao Expresso como acha que “está a nascer um novo paradigma nos Estados Unidos” em reação aos planos de Trump. “A coisa mais importante para as empresas é a matéria cinzenta”, disse a apontar para o crânio. “Hoje em dia o valor está nos cérebros, nas pessoas que se contratam, não no capital ou no que se produz.” Neste contexto, os funcionários da Microsoft ou da Apple, quase metade deles cidadãos de outros países, ganham uma força quase sem precedentes num país sem cultura de sindicatos.

Contra “o maior dos pecados”

Quando centenas de pessoas foram para o aeroporto JFK em Nova Iorque assim que o Presidente assinou a ordem e os taxistas aderiram ao protesto, a Uber subiu os seus preços. É sabido que milhares de utilizadores (a empresa não diz quantos) apagaram a aplicação como castigo à multinacional por tentar lucrar com uma decisão “fascista”. O que teve menos destaque foi que, no plenário com os trabalhadores que ocorreu dias depois na sede da empresa em São Francisco, estes exigiram ao CEO Travis Kalanick que abandonasse o conselho financeiro da Casa Branca de Trump — e ele abandonou.

Dias depois, 97 das maiores empresas dos EUA, incluindo a Amazon, a Google, a Intel e a Levi’s, abriram um processo em tribunal contra o decreto. Têm os melhores advogados do mundo e alegam que a medida é inconstitucional e não só porque discrimina os imigrantes, “responsáveis por algumas das maiores descobertas desta nação” e fundadores “de muitas das mais icónicas e inovadoras empresas do país” (Steve Jobs, por exemplo, era filho de um sírio e o CEO da Google, Sundar Pichai, é indiano). Ao verem-se impedidas de recrutar a melhor “matéria cinzenta” de todas as partes do mundo, os seus negócios estão a ser diretamente prejudicados pelo governo, o maior dos pecados numa democracia liberal em plena era da globalização que Trump quer combater.

Neste contexto, o paradigma que o empresário americano citava é esta força de baixo para cima, o poder dos funcionários sobre os patrões, quase uma reinvenção da luta de classes de Marx. “Acho que é uma coisa que a Europa ainda não percebeu, isto de os cérebros serem atualmente o maior dos bens de consumo. Aí ainda se olha para os imigrantes como aqueles que vão fazer os trabalhos que nós não queremos fazer.

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Neste momento, Trump pode abdicar do decreto e entregar a vitória à resistência, algo que não agradará ao homem que, segundo fontes da Casa Branca, vive colado à televisão e ao Twitter, obcecado com ratings como se a presidência fosse o seu novo reality show. Ou então, que é o mais provável, pode levar o caso até às últimas consequências, ou seja, ao Supremo Trubunal. Se Neil M. Gorsuch for confirmado para o nono assento, serão cinco juízes conservadores contra quatro liberais, mas neste momento e neste ponto em particular isso não lhe garante a vitória. E também já há republicanos descontentes que, com o aproximar das eleições intercalares de 2018, podem começar a afastar-se do Presidente para garantir que não perdem apoios nas urnas.

Acumulação de conflitos de interesses

São representantes eleitos e senadores como John McCain, que esta semana voltou a ser atacado pelo Presidente por ter questionado a autorização de uma operação militar desastrosa no Iémen. “Quando se perde um avião que custa 75 milhões de dólares e, pior, vidas americanas, não acredito que se possa falar num sucesso”, disse McCain. “Ele já está a perder há tanto tempo que já não sabe ganhar”, respondeu o mesmo Trump que, durante a campanha, disse que McCain “não é um verdadeiro herói” porque se fosse “não teria sido capturado”. (O republicano foi prisioneiro de guerra no Vietname entre 1967 e 1973 e vítima de tortura; Trump obteve cinco dispensas do Exército para não ter de combater nessa guerra).

Os conflitos de interesse da nova administração continuam a acumular-se, entre os mais recentes ver Kellyanne Conway a fazer publicidade à linha de roupa de Ivanka Trump na televisão depois de dezenas de lojas terem cancelado as encomendas porque as peças da filha do Presidente não estavam a ter saída — mais uma demonstração de força das carteiras dos americanos. Entretanto, o caos também continua a enraizar-se dentro da Casa Branca, com cada vez mais fontes a revelarem pormenores escabrosos do governo.

“Obama nunca o faria”. E Trump faz

Ao que parece, quando alguém quer que Trump tome uma decisão manipula-o dizendo que “Obama nunca o faria” — foi assim que foi dada a ordem para a incursão no Iémen. Trump também não sabia que estava a pôr Steve Bannon no Conselho de Segurança Nacional quando assinou o documento que o coqueluche da extrema-direita lhe estendeu há duas semanas. Está irritado com o facto de as atenções estarem a começar a desviar-se para Bannon, quando este devia ser seu mero conselheiro, e muito zangado com o facto de o Saturday Night Live ter posto Melissa McCarthy a fazer de Spicer — não pela representação satírica do secretário de imprensa mas porque foi uma mulher a desempenhar o papel.

O programa de humor está a ser atiçado para fazer um episódio Trump só com mulheres (a senadora democrata Nancy Pelosi é uma das promotoras da ideia): McCarthy continuará a ser Spicer e Rosie O’Donnell, um dos ódios de estimação do Presidente, já se ofereceu para fazer de Steve Bannon. A oposição está mais criativa que nunca, com algumas estratégias de um requinte digno de nota. Veja-se o facto de, desde quarta-feira, os correios estarem a entrar na Casa Branca cartas e postais endereçados ao “Presidente Bannon”. É provável que Trump não goste e isto ainda agora começou.