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Nada de calções, apitos ou logotipos. Duração indeterminada. Troféus, nem pensar. É assim o futebol em versão Daesh

Apenas uma de muitas áreas em que o grupo terrorista procura tornar miserável a vida das pessoas

Luís M. Faria

Jornalista

Jogar futebol em Mossul, durante os mais de dois anos que a cidade iraquiana esteve ocupada pelo autoproclamado Estado Islâmico (Daesh), não devia ser muito divertido. Os jogos duravam o tempo que os militantes do grupo terrorista entendiam. Quando eles se fartavam – às vezes ao fim de um quarto de hora –a partida acabava. E impunha-se o uso de calças, fossem de fato de treino ou outras. Os calções de futebol eram considerados não-islâmicos.

"Eles introduziram novas regras que nunca houve antes em várias modalidades", diz Obeyda Moamed, um iraquiano de 26 anos citado pela Associated Press. Mesmo que os jogadores levassem calças, não serviam quaisquer umas. "Tinham de ser largas, não apertadas".

Obeyda e outros residentes da cidade agora libertada após meses de combate descrevem restrições que não ficavam pelo tipo de vestuário. Tudo o que fossem referências a clubes famosos – num país onde como noutras paragens abunda fãs do Barcelona, do Manchester United, do Bayern Munique, do Real Madrid ou do Paris Saint-Germain, etc. etc. – estava proibido, bem como os logotipos comerciais. As próprias argolas olímpicas tiveram de ser retiradas do estádio, com a ajuda de um ferreiro.

Logotipos de infiéis

Um homem chamado Mohamed Sadiq conta que ficava à porta do estádio com munido com uma tesoura para garantir que a ordem antilogotipo era cumprida. "Eles chamavam-lhes logotipos de infiéis", explica. Quanto às obrigações religiosas, eram cumpridas à letra, mesmo durante os jogos, que eram interrompidos para esse fim. "Eu tinha de trazer tapetes de oração para os jogadores e pô-los no campo e conduzir a oração", recorda Sadiq.

Terminantemente proibidos eram os troféus, fossem de que género fossem. E os torneios. Para não haver ganância, justificava o Daesh. Por último, aos árbitros era rigorosamente vedado usar o apito. Os militantes jiadistas achavam que ele poderia ter o efeito de chamar os demónios (uma posição subscrita, às vezes, por fãs não religiosos).

Pelos vistos, os únicos demónios que havia em Mossul eram mesmo os do Daesh. Um benefício muito maior de eles se terem ido embora – o facto de as crianças poderem regressar à escola – é ensombrado pela dimensão do trauma que agora se constata terem sofrido. Se o futebol poder dar uma pequena contribuição para que recuperem, será excelente.