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Expresso

Internacional

Mais uma inversão de marcha: afinal Trump apoia a política de uma só China

Mark Wilson

Na primeira abordagem direta do Presidente norte-americano ao homólogo chinês desde que tomou posse, Donald Trump deu garantias a Pequim de que vai respeitar o protocolo de décadas, avança a Casa Branca

O Presidente dos Estados Unidos comprometeu-se em honrar a chamada política de uma só China num telefonema com o homólogo chinês na quinta-feira à noite, avançou a Casa Branca. Na conversa "cordial", Donald Trump deu garantias ao Presidente Xi Jinping de que vai respeitar o reconhecimento diplomático de que só existe um governo chinês – uma postura assumida pelas sucessivas administrações norte-americanas desde 1979 mas que foi posta em causa por Trump antes de tomar posse a 20 de janeiro, depois de, em dezembro, ter falado ao telefone com a líder de Taiwan, um território sobre o qual Pequim clama soberania.

Na altura, o facto de ter falado com Tsai Ing-wen representou uma quebra da tradição e protocolos diplomáticos, levando a China a apresentar uma queixa formal junto das autoridades em Washington. Esta quinta-feira, foi a primeira vez que Trump e Xi falaram desde que o empresário populista tomou posse há três semanas. De acordo com a Casa Branca, foram abordados vários assuntos num telefonema caracterizado como "extremamente cordial". Cada líder convidou formalmente o outro para visitas oficiais às suas capitais. Em comunicado, Pequim disse apreciar o reconhecimento de Trump da política de uma só China. "Somos parceiros que cooperam e através de esforços conjuntos podemos avançar com as relações bilaterais para um novo nível histórico", disse Xi.

O telefonema aconteceu depois de o Presidente dos EUA ter enviado uma carta ao homólogo chinês, naquela que foi a primeira abordagem direta a Xi desde que Trump se instalou na Casa Branca. Na prática, vem amainar as tensões entre os dois países depois de algumas semanas de dúvidas quanto ao futuro das relações, na sequência da chamada de Trump com Tsai. Apesar de Taiwan ser um aliado militar dos EUA, nunca nenhum Presidente ou Presidente eleito dos EUA tinha falado diretamente com um líder taiwanês em décadas – sob a dita política de uma só China, os EUA reconhecem e mantêm ligações formais com a China e não com a ilha de Taiwan, que Pequim considera ser uma província separatista que deve ser reunificada.

Depois de falar com Tsai ao telefone há três meses, Trump deitou mais lenha para a fogueira ao sugerir que esta política poderia ser revertida pela sua administração. "Não sei porque é que temos de estar presos à política de uma só China, a menos que alcancemos um acordo com a China que diga respeito a outras coisas, incluindo trocas comerciais." No Twitter, Trump também acusou Pequim de manipular a sua divisa para competir com os EUA, isto depois de, durante a campanha presidencial, ter acusado os chineses de roubarem postos de trabalho aos norte-americanos, entre outras coisas através do "embuste" que são as alterações climáticas cientificamente comprovadas.

O momento de tensão diplomática piorou quando Rex Tillerson, o novo secretário de Estado dos EUA, disse na sua audiência de confirmação no Senado que os EUA vão bloquear o acesso das autoridades de Pequim às ilhas artificiais que têm estado a construir no disputado Mar do Sul da China. Oficialmente, o governo de Xi reagiu sempre com cautela a cada ação pouco ortodoxa da nova administração, dizendo-se "seriamente preocupado" com a sua postura quanto à política de uma só China e prometendo "defender os seus direitos" na rota marítima que é disputada por vários países da região. Pelo contrário, media estatais ligados ao Partido Comunista Chinês têm sido menos contidos nas reações, acusando Trump de estar a "brincar com o fogo" no que diz respeito à ilha de Taiwan e sugerindo que, se o novo Presidente não respeitar a política de décadas em relação aos seus territórios e o que diz ser a sua soberania no Mar do Sul da China, Pequim pode "contra-atacar" e ocupar Taiwan.

Outro ponto de potencial discórdia entre os dois países, que não foi referido pela Casa Branca a propósito do telefonema ocorrido na quinta-feira, é a nomeação para a pasta do Comércio de Pete Navarro, um economista que tem uma visão "apocalíptica" sobre as trocas comerciais entre Washington e Pequim e que já acusou a China de "violar" a economia norte-americana. Em meados de janeiro, no Fórum Económico de Davos, Xi Jinping alertou contra os perigos de uma guerra comercial. “É verdade que a globalização económica criou novos problemas mas isso não é justificação para anular totalmente a globalização económica. Em vez disso, devemos adaptar-nos para guiarmos a globalização económica, amortecer os seus impactos negativos e permitir que os seus benefícios cheguem a todos os países”, declarou o Presidente chinês.